Navegue:
Maquininhas acirram disputa, mas contam com retomada da economia e Pix para embalar setor

Maquininhas acirram disputa, mas contam com retomada da economia e Pix para embalar setor

Nubank passa a oferecer soluções de adquirência através de seu aplicativo, acirrando concorrência

Maquininhas

Fonte: Shutterstock

Por:

Compartilhe:

Por:

Desde 2013, quando o Banco Central passou a aplicar uma série de mudanças na legislação do setor de maquininhas, a conjuntura das companhias mudou drasticamente. A marca da última década foi a diminuição generalizada das margens e ascensão de novas empresas.

As soluções dos serviços de pura adquirência estão cada vez mais “commoditizadas”, tirando muitas das vantagens competitivas das empresas do setor de maquininhas.

Neste mês, o Nubank (NUBR33), maior fintech do mundo, lançou o NuTap. Agora, seus clientes pessoas jurídicas podem aceitar pagamentos diretamente pelo aplicativo do banco digital, sem maquininha ou mensalidade. 

O serviço funcionará através da tecnologia NFC (a mesma que permite pagamentos por aproximação de cartões ou celulares) e promete ter taxas até 30% menores que a indústria tradicional. 

O movimento do banco digital ainda é incipiente e não representa ameaça concreta para o setor, dado que possui apenas 1,6 milhão de usuários PJ, segundo o resultado do primeiro trimestre da empresa.

Entretanto, a iniciativa pode atrair novos clientes potenciais consumidores de crédito da fintech, ampliando as avenidas de receita. O caminho já foi perseguido por outras empresas de adquirência, como a Stone (STOC31), que tiveram problemas com a concessão de empréstimos.

No fim das contas, a tendência das atividades que se conversam é de cada vez maior concorrência e pressão de margens, com uma verdadeira guerra de preços. 

Neste contexto, o Pix navega com a dicotomia entre risco e oportunidades para as empresas do setor de maquininhas. 

Setor de maquininhas tem fôlego com retomada econômica inesperada

A tempestade perfeita do segmento de adquirência parecia estar longe de acabar quando as perspectivas para a economia brasileira eram as piores possíveis.

Promessa de recessão nos Estados Unidos e desaceleração do crescimento na China, contudo, parecem não estar atrapalhando a atividade no Brasil.

A despeito da inflação galopante, a reabertura econômica total e a sólida recuperação do mercado de trabalho, que começa a estimular a renda disponível, juntos com a força das commodities, têm feito as projeções para o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro serem revisadas para cima.

O Bank of America, por exemplo, revisou, no último dia 17, sua projeção para o PIB brasileiro em 2022, de expansão de 0,6% para 1,5%. Antes disso, no dia 13, o Goldman Sachs já havia revisado de 0,5% para 1,5%.

A notícia é benéfica para o setor de maquininhas, que pode capturar o crescimento da economia nos próximos anos – vide que teve forte avanço na última década, mesmo com a economia estagnada, de acordo com dados da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços).

A novidade dos últimos dois anos foi o Pix, modalidade de transferência de recursos lançada pelo BC no fim de 2020 que já caiu nas graças do público.

Inicialmente, esperava-se que a medida fosse atrapalhar as credenciadoras, mas o cenário se inverteu e, por mais que o risco ainda exista, avenidas de oportunidades surgiram. 

Afinal, 50 milhões de transações são realizadas diariamente e quase metade do país em população total já utiliza a ferramenta. 

De acordo com dados do Itaú BBA, os saques em dinheiro estão caindo vertiginosamente e a participação da transação com cartões acompanhou, mesmo que de maneira desacentuada, a maior utilização do Pix em detrimento a TED e DOC. 

Em suma, o cenário com cada vez menos dinheiro físico circulando na sociedade é benéfico para as empresas de maquininhas, que saíram do estigma de trabalhar apenas com o universo de credenciamento mas também oferecem um ecossistema completo. 

Cielo (CIEL3)

O histórico recente da Cielo não é nada animador. A companhia viu sua dominância no mercado de maquininhas esvair-se nos últimos anos. Estima-se que o market share da empresa tenha caído de mais de 50% para algo em torno de pouco menos de 30% na última década. 

A queda de 90% das ações desde a máxima histórica, atingida em meados de 2015, é resultado direto da derrocada da rentabilidade da empresa e da compressão de suas margens.

Mas há luz no fim do túnel. No primeiro trimestre deste ano, a companhia elevou seu lucro em 36% na comparação com o mesmo período de 2021, para R$ 185 milhões, em linha com a expectativa do mercado.

A Cielo ainda tem as maquininhas mais usadas no mercado, por meio das quais se relaciona com grandes empresas há bastante tempo. Essas, por sua vez, tiveram maior participação nos resultados da empresa no primeiro trimestre deste ano.

Com isso, por um lado, o yield de receitas (percentual do volume total de pagamentos que vira receita líquida) teve leve queda de 0,06 p.p em relação ao primeiro trimestre do ano passado, dado que as grandes empresas praticam menores taxas, mas aumentam o volume transacionado. 

Por outro lado, a parcela ligada ao varejo, que sente de forma mais intensa a inflação e menor renda disponível, demandou mais antecipação de recebíveis, que somaram R$ 26 bilhões. Esse montante foi 31% maior em relação ao mesmo trimestre de 2021. 

Os riscos ainda são relevantes para a empresa, como necessidade de altos investimentos no negócio e drástica redução de despesas (que já apresentaram sólida contenção no primeiro trimestre).

Contudo, alguns trechos de melhora e eficiência são observados na operação, com destaque para a Cateno. 

A joint venture entre Cielo e Banco do Brasil (BBAS3), que é uma gestora de pagamentos, viu seu resultado líquido saltar 165,1% em 12 meses, para R$ 211 milhões, e suas despesas operacionais reduzirem 55,2%, com menores perdas operacionais. 

A recomendação geral ainda é de cautela. De acordo com dados compilados pela Refinitiv na plataforma do TradeMap, dos 14 especialistas que acompanham a empresa, dez indicam a manutenção da posição acionária. 

O preço-alvo mediano de R$ 3,20 prevê um downside de 20% sobre a cotação atual. 

Getnet (GETT11)

A tempestade perfeita do setor demanda flexibilidade por parte dos agentes do mercado. Isto é, investimentos em tecnologia e, quem sabe, alavancagem operacional por determinado período, a fim de que um dia o negócio se solidifique.

Foi isso que o Santander (SANB11) enxergou apenas sete meses após a abertura de capital de sua empresa de adquirência, a Getnet (GETT11). O banco cancelará o registro de empresa pública da empresa no Brasil e nos Estados Unidos. 

Os investidores, que não perderam tempo e elevaram a cotação da empresa para perto do preço proposto para a aquisição de todas as ações por parte da instituição financeira, agora se perguntam o que esperar da companhia.

Mais do que os demais players do setor, a Getnet é uma plataforma multicanal, atuando sobre atacado, pequenas e médias empresas, com foco em otimização em originação de crédito, crescimento do e-commerce e penetração da base de clientes – não se atendo somente à operação credenciadora. 

Embora longe dos holofotes, a Getnet deve continuar entregando resultado nos próximos anos – como cresceu 13 p.p em market share desde 2013, quando o Santander concluiu a compra da totalidade da empresa. O primeiro trimestre deste ano já foi uma boa amostra.

A base de clientes ativa já é maior que a da Cielo (861,2 mil usuários), assim como o take rate bruto, na ordem de 1,01%. 

A receita líquida da empresa cresceu 22% em 12 meses, para R$ 616 milhões. O avanço do faturamento da empresa, entretanto, foi menor que os 43% de crescimento das despesas gerais e administrativas. 

Os custos com pessoal, tecnologia e sistema, especificamente, cresceram 30%, para R$ 142 milhões, diminuindo o lucro operacional. 

Pagseguro (PAGS34)

Ainda há empresas do setor de maquininhas brasileiro que não divulgaram seus resultados do primeiro trimestre deste ano. 

Uma delas é a PagSeguro (PAGS34), frente mais rentável do grupo UOL. Trata-se de uma empresa com suas atenções voltadas para consumidores, empreendedores individuais, microcomerciantes, pequenas e médias empresas no Brasil.

Com uma operação redonda – mas que pode trazer incertezas aos investidores por tentar “fazer de tudo” –, a empresa vai muito além da atividade de credenciamento tradicional e tem apostado fortemente em seu banco digital, o PagBank.

A fintech terminou o ano passado com 13,1 milhões de usuários e TPV acumulado de R$ 204,1 bilhões, alta de 66,2% e 191,6%, respectivamente.

As avenidas de crescimento e oportunidades para a PagSeguro, com isso, se tornam cada vez mais similares com uma fintech propriamente dita, se afastando do setor de maquininhas.

O Itaú BBA diz que a ascensão do Pix no cenário brasileiro é amplamente positiva à PagSeguro, dada a possibilidade de parcelamento de pagamentos por meio da ferramenta, o que pode fazer com que a companhia ganhe market share. 

Isso mostra que a empresa acerta em diversificar as fontes de receita e a exposição a microempreendedores e autônomos, já que o trabalho informal ainda é relevante no Brasil e deve continuar sendo. 

Stone (STCO31)

Chancelada por Warren Buffett, a Stone (STCO31) surgiu como um meteoro e devolveu o retorno aos investidores em velocidade também impressionante. 

A companhia abriu capital na Nasdaq no fim de 2018 e até o início do ano passado as ações apresentavam um retorno de quase 200%. Desde fevereiro de 2021, contudo, as ações caem 90%.

Para que um investidor possa recuperar seu investimento, é necessário que os papéis da empresa subam 900% a partir do patamar atual. Rentabilidade passada (neste caso, negativa) não significa rentabilidade futura, mas o risco de perda permanente de capital é real.

Mas o que aconteceu com a empresa? O principal problema foi relacionado a uma operação de crédito mal sucedida.  

Leia também:
Buffett mantém posição em Nubank e Stone, apesar de queda das ações

Em meados do ano passado, veio à tona um prejuízo de R$ 400 milhões que a carteira de crédito trouxe à companhia. As provisões precisaram subir e, impactando o lucro, no quarto trimestre já cobriam 62% da carteira de crédito total.

O nível de incerteza com a companhia ainda é alto, mas a Stone continua entregando crescimento. O TPV no quarto trimestre foi de R$ 88,7 bilhões (desconsiderando o auxílio emergencial no Brasil), alta de 54,5% em 12 meses.

A Stone ainda gera valor, mas seus múltiplos têm caminhado para as médias do setor, já que estavam amplamente esticados há pouco mais de um ano.

Na visão de especialistas do mercado, o momento é de cautela. Os números da Refinitiv apontam para 11 recomendações de manutenção, além de seis de compra e duas de venda dos papéis da Stone. 

O custo de capital está cada vez mais alto. A contração monetária, que fomenta a desaceleração mundo afora, tende a impactar as empresas de crescimento na Bolsa. Na vida real, o setor de maquininhas ainda tem frentes de crescimento relevantes – embora isso não signifique que sempre é um bom investimento.

Compartilhe: