Petrobras (PETR4) avalia novos dividendos extraordinários, mas se compromete com investimentos; veja análise do balanço

O plano estratégico da Petrobras até 2026 prevê o investimento de até US$ 68 bilhões, montante 24% superior ao plano anterior

Foto: Shutterstock

Com todas as atenções voltadas ao mercado de commodities, a Petrobras (PETR4) surfa a disparada do petróleo e continua apresentando forte geração de caixa. Na noite da última quarta-feira (23), a estatal apresentou seu resultado do quarto trimestre do ano passado.

Adicionalmente, a Petrobras também anunciou o pagamento de dividendos complementares na ordem de R$ 2,86 por ação, rendimento de 8,3% sobre a cotação atual. Com a dívida equacionada, a distribuição já reflete a nova política de remuneração a acionistas.

Em teleconferência de resultados, realizada na manhã desta quinta-feira (24), a petroleira disse que a política de pagamento de dividendos seguirá a anunciada em 2021, com a distribuição de 60% da diferença entre o fluxo de caixa operacional e seus investimentos. 

Com isso, o CFO da Petrobras, Rodrigo Araujo Alves, afirmou que a empresa está comprometida em seu plano estratégico de 2022-2026, onde a curva de recursos em Capex está concentrada no início. 

Leia também:
Lucro da Petrobras cai 47,4% no 4º trimestre

Isso inibe pagamentos antecipados ou extraordinários – ao menos no curto prazo – de dividendos, que continuarão a ser apurados com base no fluxo de caixa livre após o fim de cada trimestre. Segundo ele, entretanto, não está descartado uma nova distribuição adicional até o fim do ano. 

O plano estratégico da Petrobras até 2026 prevê o investimento de até US$ 68 bilhões, montante 24% superior ao plano anterior. Entre os alvos estão o segmento de E&P (US$ 57 bilhões) e área de refino (US$ 6,1 bihões).

Maiores custos e cenário desafiador pressionam lucro no 4º trimestre

Entre outubro e dezembro de 2021, a Petrobras reportou um lucro líquido de R$ 31,5 bilhões, uma baixa de 47,4% em comparação ao mesmo período de 2020. 

Segundo a empresa, o lucro foi pressionado pela exportação ligeiramente menor no quarto trimestre e maiores custos com o Gás Natural Liquefeito (GNL). O aumento do custo de extração no pré-sal também foi um ponto negativo do trimestre. 

Porém, a disparada do petróleo, ajudando a empresa a praticar melhores preços, contribuiu para os negócios no terceiro trimestre.

As contas da Petrobras projetavam um barril de petróleo do tipo Brent na casa dos US$ 45 ao longo de 2021, mas a média observada foi de quase US$ 71, colocando a empresa em uma posição favorável para a geração de valor adicional.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) atingiu R$ 62,94 bilhões no quarto trimestre, alta de 33,8% na comparação anual. 

No acumulado de 2021, o indicador, que é uma aproximação da geração de caixa da empresa, disparou 64,1% na comparação com o ano anterior, atingindo R$ 234,57 bilhões. O abastecimento da empresa tem sido fundamental para a continuidade dos negócios.

O endividamento bruto da Petrobras, ponto de atenção do mercado, encerrou 2021 em US$ 58,74 bilhões. Esse número, que chegou a ser quase três vezes maior em meados da década passada, fica abaixo da meta da empresa (US$ 60 bilhões), que deveria ser atingida até o fim de 2022.

Queda do endividamento bruto da Petrobras 

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Ao bater o objetivo 15 meses antes, a companhia agora não pensa em diminuir o endividamento bruto para menos de US$ 55 bilhões, o que considera um bom nível para atuar no mercado.

Entre outras razões para o desempenho satisfatório da companhia, está o fato de que 70% da produção tem vindo do pré-sal. Com isso, a Petrobras se torna mais competitiva, vendendo produto de maior qualidade. 

Alinhado a isso, 2021 também marcou a entrada de US$ 5,6 bilhões no caixa com o programa de desinvestimentos. No ano passado, foram realizadas 21 vendas, sendo que 14 negócios já foram assinados. 

Na visão dos executivos da empresa na teleconferência, o foco da Petrobras está em realizar investimentos inteligentes que possam distribuir o valor gerado, tanto com acionistas como com a sociedade. 

Petrobras segura preços de combustíveis com dinâmica internacional

O conflito entre Rússia e Ucrânia elevou o Brent para a marca de US$ 100 pela primeira vez desde 2013. Após subir 51% em 2021, a matéria-prima já se valorizou 27% neste ano e deve continuar favorecendo as petroleiras mundo afora.

Com a paridade de preços internacionais, a Petrobras deveria reajustar os preços de combustíveis comercializados no Brasil, mas não o faz desde 12 de janeiro. 

De acordo com Cláudio Mastella, Gerente de Comercialização, isso foi possibilitado pelo movimento contrário do dólar, que tem forte queda nos últimos dias. Ontem, o dólar comercial à vista chegou a ser negociado abaixo de R$ 5 desde junho do ano passado.

Queda do dólar futuro, negociado para março de 2022

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Com isso, a empresa é capaz de se ajustar e não repassar os preços às refinarias. Porém, o executivo lembra que todos os agentes do mercado até o consumidor final tem sua própria política de preços.

“A Petrobras segue praticando preços que considera justos, de acordo com as cotações internacionais, o que não traz desabastecimento a todas as partes da indústria”, afirmou Mastella na teleconferência.

Segundo ele, a Petrobras não possui um patamar definido para a cotação do petróleo, a ponto de que ficaria inviável segurar os preços dos combustíveis. Na empresa, a ordem é de aguardar a volatilidade e observar o dia a dia. 

Ano reserva emoções, mas estatal segue descontada

Até o fim do ano, as ações da Petrobras passarão por alta volatilidade. Com a expectativa do barril de Brent permanecer em alto patamar, com as cotações futuras mais longas da commodity aumentando, espera-se que a geração de caixa da empresa continue robusta.

Por outro lado, em um ano eleitoral, a política de preços da estatal poderá voltar a ser questionada pelos candidatos à Presidência da República. Um levantamento da Agência TradeMap mostrou como a empresa passou nas últimas eleições. 

A companhia, a despeito dos fatores de otimismo ou pessimismo, segue descontada ante seus pares globais.

P/L EV/EBITDA ROE VALOR DE MERCADO (US$)
PETROBRAS 3,36 2,63x 36,59% 91,6 BILHÕES
EXXON MOBIL 14,07 7,95x 14,21% 322,8 BILHÕES
CHEVRON 16,47 7,19x 11,63% 260,7 BILHÕES
SHELL 10,1 4,18x 12,31% 198,8 BILHÕES

A contínua incerteza quanto à possibilidade de ingerência política, como observado há pouco mais de 12 meses, quando o CEO da Petrobras, Roberto Castello Branco, foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, é um dos fatores que pesam sobre as ações.

Porém, isso não tem inibido as visões do mercado. Dos 10 analistas que acompanham a empresa, nove recomendam a compra das ações, segundo o Refinitiv em dados apresentados na plataforma do TradeMap. O preço-alvo mediano é de R$ 36,70.

Após iniciar o dia se segurando da queda generalizada, os papéis da Petrobras inverteram o sentido. Por volta das 13h10, suas ações preferenciais tinham baixa de 1,61% na B3, para R$ 33,67.

Compartilhe:

Leia também:

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.