Dois anos depois, a Iguatemi (IGTI11) já pode falar que deixou 2019 para trás. O ano imediatamente anterior à chegada da pandemia no Brasil sempre foi base de referência para a retomada das atividades da companhia. Os números atuais, porém, já são superiores.
Em balanço divulgado na noite da última terça-feira (15), a Iguatemi apresentou um lucro líquido de R$ 82,88 milhões no quarto trimestre de 2021. No acumulado do ano, o lucro atingiu R$ 344,08 milhões, avanço de 9,5% em relação a 2019.
Na receita bruta, o avanço foi mais intenso. O faturamento total no acumulado de 2021 somou R$ 1,002 bilhão, uma melhora de 16,4% em relação ao reportado dois anos antes.
As vendas totais atingiram R$ 12,7 bilhões no ano passado, um número 10,6% menor do que o atingido em 2019, mas que mostrou sinais de que é questão de tempo para que o volume seja superado.
No quarto trimestre, as vendas totais somaram R$ 4,8 bilhões, avanço de 11,8% sobre mesmo intervalo de 2019 (e disparada de 30,6% em comparação ao quarto trimestre de 2020).
Segundo Guido Oliveira, CFO da Iguatemi, na teleconferência de resultados realizada na manhã desta quarta-feira (16), o SAR (aluguéis em mesmas áreas) cresceu 16,9% no quarto trimestre do ano passado em relação ao mesmo período de dois anos antes, enquanto o SSR (aluguéis mesmas lojas) subiu 27,8% na mesma base comparativa.
De acordo com o executivo, o número é resultado da contínua redução dos descontos nos aluguéis e reajustes pelo IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado), de acordo com a tabela comercial vigente.
Embalada pelas vendas melhores do que os respectivos meses de 2019 desde o terceiro trimestre do ano passado, a companhia mostra-se otimista com os próximos trimestres.
Mesmo com o impacto da variante Ômicron, da Covid-19, na primeira quinzena de janeiro, o primeiro trimestre de 2022 está seguindo a mesma tendência do fim do ano passado, com fortes vendas.
A inadimplência de início de ano abaixo do previsto (menor, inclusive, que 2019), com a taxa de ocupação em sua totalidade, são bons sinais.
A retomada dos negócios e a visão sobre home office
As atividades da Iguatemi já estão a todo vapor. De todo o portfólio da companhia, que inclui uma ABL (área bruta locável) própria de 469,35 mil metros quadrados, apenas dois ativos ainda levantam dúvidas dos investidores.
O Market Place, empreendimento ligado a torres corporativas, ainda segue abaixo do reportado em 2019.
O desempenho operacional, que contempla aluguel mínimo, overage (aluguel complementar) e locação temporária, ficou em R$ 8,97 milhões no quarto trimestre do ano passado, baixa de 7,7% ante o mesmo período de 2019. O negócio ligado às torres empresariais teve um desempenho ainda pior: queda de 16,1%.
A geração de receita com estacionamento no Market Place caiu 30,2% no quarto trimestre, para R$ 3,72 milhões, na comparação com o mesmo período de dois anos antes.
De acordo com Cristina Betts, CEO que assumiu o posto em janeiro deste ano, de fato o empreendimento é o que tem demorado mais para se recuperar.
Porém, após o carnaval, é observada uma retomada da volta aos escritórios. As torres, por estarem ligadas ao shopping, podem gerar receita complementar à unidade, com restaurantes e estacionamento — onde reside a geração de valor proposta pelo Market Place.
Na visão de Betts, as empresas estão procurando ressignificar os escritórios, dado que o home office chegou para ficar, embora o modelo híbrido tenha sido o mais adotado no mundo corporativo. “É questão de tempo”, segundo ela, para que o Market Place volte a trazer frutos à companhia.
Varejo é forte aliado da Iguatemi no pós-pandemia
Com a chegada da pandemia, os negócios de varejo ligados ao comércio eletrônico fortaleceram sua presença no mercado e passaram a ser demandados por clientes de empresas que tinham modelos operacionais diferentes.
O Iguatemi 365 é a mina de ouro da empresa. Lançado antes da chegada da Covid-19, o site é e-commerce do Iguatemi, um shopping online da empresa com as marcas que melhor atendem seu público alvo.
O ano de 2021 foi marcado por forte expansão, puxada principalmente pelo omnichannel. A Iguatemi reforçou sua atuação em variados canais de venda e abriu uma unidade do 365 no Shopping Iguatemi SP.
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O GMV (valor bruto de mercadoria), tão utilizado nas empresas de tecnologia e e-commerce, do 365 teve seu melhor trimestre na história, entre outubro e dezembro de 2021.
O fundamento da confiança para o negócio é a visão da empresa de que a reabertura de fronteiras não deve tirar os consumidores do Brasil para compras no exterior.
O público de alta renda tem entendido que, financeiramente, não tem feito tanta diferença em comprar no Brasil ou em Nova York e Londres, segundo a CEO da Iguatemi. “Fora a criação do relacionamento com a loja, quando o consumidor pode ter acesso a novidades.”
Por isso, para este ano, a empresa espera ampliar o leque de opções no site, oferecendo 185 novas marcas, além de reduzir os prazos de entrega, otimizar sua estrutura de Private Client e lançar seu app.
Com certa alavancagem operacional, o resultado da frente de varejo (que inclui Iguatemi 365 e i-Retail) tem diminuído o prejuízo. O Ebitda no quarto trimestre foi de R$ 8,7 milhões negativos, quase 90% abaixo das perdas registradas no mesmo período de 2019.
Com o crescimento acelerado e a aposta no público alvo, que tende a sentir a crise econômica e a dinâmica inflacionária em menor proporção, é questão de tempo para que a chave do 365 vire para o lucro.
A procura por desalavancagem e novos negócios
A Iguatemi terminou o quarto trimestre do ano passado com uma alavancagem financeira de 2,57 vezes, queda de 0,25 ante o trimestre imediatamente anterior e de 0,75 em 12 meses.
A dívida total da empresa caiu 1,2% em três meses, para R$ 3,25 bilhões, ao passo que as disponibilidades (100% aplicadas em renda fixa pós-fixada) atingiram a marca de R$ 1,8 bilhão.
O perfil da empresa mostra que a procura constante por desalavancagem não deve mudar ao longo dos próximos trimestres. Contudo, a sólida estrutura financeira abre margem para novas aquisições.
O movimento de M&As da empresa foi consolidado nos últimos meses com a compra de uma participação na Infracommerce (IFCM3) há cerca de um ano e da Etiqueta Única, quando a Iguatemi entrou no mercado secundário de roupas e acessórios.
A empresa observou a tendência bem sucedida de outros players no mercado, como a Arezzo (ARZZ3) que comprou a Troc e a Lojas Renner (LREN3) que adquiriu a Repassa, além do IPO da Enjoei (ENJU3), e investiu R$ 27 milhões no início deste mês – mas pode tomar o controle em três anos.
Betts reconhece que o processo de aquisição de novas empresas pesará sobre a alavancagem financeira, tão priorizada nos últimos anos.
Porém, o ambiente favorável à Iguatemi, mesmo que mais competitivo e custoso, dada a alta da taxa de juros, pode abrir oportunidades poucas vezes vistas.
Por volta das 13h20 desta quarta, as ações da Iguatemi subiam 0,17%, para R$ 17,60. A empresa vale R$ 4,64 bilhões na B3.