Eletrobras (ELET3) pode ficar distante da privatização com vista do TCU

O modelo de privatização está definido, agora se trata do preço a ser arrecadado pela União

Foto: Shutterstock

Alvo de grande expectativa do mercado financeiro e do governo brasileiro, a privatização da Eletrobras (ELET3) pode acabar não saindo do papel. O processo, que na prática funcionaria como uma capitalização não acompanhada pela União, está com prazo apertado.

Na noite da última terça-feira (19), o ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Vital do Rêgo Filho, disse à CNN que irá pedir vista de 60 dias do processo de privatização da Eletrobras

O pedido de vista de dois meses, segundo o ministro, é o que o regimento permite. “Até agora não recebemos o voto e a sessão está marcada para amanhã. Não será possível analisar o voto a tempo”, comentou Vital.

O grande entrave, neste momento, é a escassez do tempo para conclusão do processo. O Tribunal marcou para esta quarta-feira (20) a segunda e última etapa do processo de privatização da empresa. A ideia do governo era que, com isso, o aval definitivo viria até o dia 13 de maio.

Acontece que o relator da desestatização da empresa, Aroldo Cedraz, responsável por ter marcado o julgamento para hoje, ainda não disponibilizou seu voto. Na última semana, ele disse que apresentaria sua posição no início da semana, a tempo de ser analisada e votada no julgamento, o que não foi feito.

Ainda de acordo com a CNN, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, enviou mensagens aos ministros do TCU para que aprovem o processo de capitalização da companhia.

Nas mensagens, Albuquerque reconhece a independência e autonomia do TCU, mas demonstra sua preocupação com a possibilidade da privatização acabar não acontecendo. O ministro de Minas e Energia conta com a diminuição do prazo do período de vista, de 60 dias para algo em torno de sete dias, conforme a CNN.

O governo corre para garantir a capitalização da empresa, e a consequente diminuição da participação da União na Eletrobras, ainda no primeiro semestre. 

Caso o pedido de vista permaneça por 60 dias, a janela do governo pode se fechar com a dinâmica eleitoral tomando conta de Brasília no segundo semestre – cenário que coloca a privatização da Eletrobras em risco. 

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Com discurso populista, o pré-candidato à presidência, ex-presidente Lula, que lidera as pesquisas de intenção de voto, tem se mostrado avesso a desestatizações. 

No mês passado, em evento de filiação ao PT (Partido dos Trabalhadores) em Curitiba, Lula disse que “não vamos privatizar a Eletrobras” e que o país voltaria a ser dos brasileiros.

Por mais que os prazos estejam apertados, há um entendimento conjunto de que a privatização pode acontecer. O modelo já está definido, agora se trata do preço a ser arrecadado pela União.

Por volta das 12h10 desta quarta, as ações ordinárias (ON) da Eletrobras tinham queda de 0,66%, a R$ 40,33. Os papéis chegaram a subir mais de 2% no início da sessão, mas entraram em campo negativo junto ao Ibovespa. 

Resultados fortes solidificam tese da privatização

No quarto trimestre do ano passado, a Eletrobras apresentou sólidos resultados, aquecendo a empresa para o processo de desestatização.

A companhia, que atua nas áreas de geração e transmissão, mostrou-se blindada da crise hídrica brasileira no ano passado e como um dos destaques do período entre outubro e dezembro de 2021 está a receita com geração de energia.

Nessa linha, o faturamento foi de R$ 7,9 bilhões, avanço de 28% em comparação com o trimestre imediatamente anterior.

Receita líquida da Eletrobras é volátil, mas operação reduz dívida

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Ponto relevante no modelo de negócio do setor elétrico, a alavancagem financeira da empresa está bem controlada, com a relação entre dívida líquida e Ebitda na ordem de 1,1 vez. 

O endividamento da empresa segue baixo, sobretudo pelo fato de que a Eletrobras não está em processo de investimentos e expansão, como outras companhias do setor que tendem a se alavancar mais.

Isso é possibilitado pela geração de caixa crescente da companhia, situação confortável já que quase um quinto da dívida bruta vence em 2022. A Eletrobras se preparou para chegar ao “mercado privado” em um dos momentos que está mais redonda na história.

A privatização da Eletrobras

Nas contas do governo, a companhia desestatizada deverá pagar R$ 67 bilhões, divididos da seguinte forma:

  • R$ 32 bilhões para a Conta de Desenvolvimento Energético. O objetivo é aliviar a pressão nos preços da energia nos próximos anos e incentivar políticas setoriais; 
  • R$ 25,3 bilhões para a União, indo para o caixa do Tesouro Nacional;
  • R$ 9,7 bilhões em investimentos na recuperação de bacias hidrográficas.

A princípio, o governo havia levantado o valor de R$ 62,5 bilhões, mas aumentou a conta no fim do ano passado após considerações de Cedraz. Na visão de Vital do Rêgo, que pediu o período de vista, o processo deveria custar R$ 130 bilhões. 

A visão do mercado

Pela estrutura societária do fim do ano passado, o governo controlava 61,7% da Eletrobras, contando com as participações da União Federal, BNDES, BNDESPar, FND (Fundo Nacional de Desenvolvimento) e FGHAB (Fundo Garantidor de Habitação).

Com o processo de emissão de novas ações, a fatia do capital votante do governo brasileiro cairia para 45%. 

Quadro de acionistas da Eletrobras

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

O atual momento é positivo para a aquisição de ações da empresa, justamente sob a expectativa dessa queda da participação estatal. De acordo com a Refinitiv, que compila cinco recomendações de analistas, todos eles indicam a compra dos papéis da elétrica. 

Os dados apresentados na plataforma do TradeMap remetem a um preço-alvo mediano de R$ 49,50 para os papéis ordinários da empresa. 

Em relatório recente, o Goldman Sachs afirmou que a capitalização deve destravar valor aos acionistas da companhia, com o preço dos papéis ordinários podendo chegar a R$ 67,60.

Na visão do banco, um dos principais benefícios da privatização da Eletrobras seria a otimização de sua estrutura de capital – embora a proposta atual não seja perfeita.

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