Em meio ao surgimento de mais uma variante da Covid-19, os bastidores do setor aéreo foram agitados no fim de semana. A Azul (AZUL4) revelou a proposta feita à Latam para a combinação de negócios, logo após a companhia chilena formalizar seu plano de recuperação aos credores.
Na noite da última sexta-feira (26), a Latam apresentou no Tribunal de Falência dos Estados Unidos, em Nova York, seu plano em injetar US$ 8,19 bilhões para que o negócio sobreviva. A empresa tinha até o fim daquele dia para apresentar uma proposta e manter a exclusividade na negociação das dívidas, mantendo a Azul em segundo plano.
Se a empresa não tivesse apresentado o plano até o fim de sexta-feira, a companhia brasileira ficaria livre para contatar os credores com sua proposta. Por mais que, a princípio, esse risco tenha sido evitado pela Latam, o tribunal deverá aprovar o plano até janeiro de 2022 e, os credores, até março.
Segundo a lei de recuperação judicial americana (Chapter 11), o grupo chileno precisará da aprovação de 66% dos credores. Em entrevista coletiva no sábado (27), o presidente da Latam, Roberto Alvo, disse que já tem o apoio de 71% dos credores, mas sem garantia.
A proposta da Latam
A Latam não arreda o pé de continuar viva e tenta mais uma vez convencer os credores de que ainda há chance de retomada.
O processo de recuperação judicial do grupo veio à tona em maio de 2020, logo após o coronavírus tomar o mundo inteiro de assalto. A pandemia chegou para piorar a situação da companhia, que já acumulava US$ 18 bilhões (quase R$ 101 bilhões).
Os US$ 8,19 bilhões almejados pela companhia agora viriam com uma combinação de capital novo, títulos conversíveis e dívida. Entre as etapas, também deve ser incluída uma oferta de direitos de compra e ações, na ordem de US$ 800 milhões, aberta aos acionistas.
De acordo com a companhia, após a conclusão das etapas, a dívida ficará em torno de US$ 7,26 bilhões, enquanto a liquidez será de US$ 2,67 bilhões, um “endividamento conservador e liquidez adequada”.
O que a Azul ofereceu
Já que a Latam preferiu conversar com os credores, a Azul colocou as cartas na mesa e informou ao mercado o contexto. No dia 11 de novembro, a companhia apresentou à Latam, de forma confidencial, uma proposta não-vinculante de compra.
A proposta — que foi acompanhada por alguns credores da Latam — consiste na prospecção de US$ 5 bilhões em ações. Esse montante seria garantido por uma série de instituições financeiras, credores da Latam.
A empresa que surgiria dessa combinação teria controle dividido entre os atuais acionistas de ambas as empresas, além dos credores.
A proposta poderia gerar US$ 4 bilhões em valor de mercado incremental acima do plano da Latam, com um crescimento significativo da malha aérea, com expansão do número de destinos e maior conveniência.
No início das discussões sobre o tema, a Azul chegou a considerar a compra apenas da Latam Brasil. Mas, agora, a ideia é levar o grupo inteiro, segundo o presidente da empresa, David Neeleman, em entrevista a um jornal chileno neste mês.
Para a Azul, o plano apresentado pela Latam em Nova York é “incapaz de gerar sinergias” e coloca o valor da empresa maior do que acredita ser “razoável”. Para Alvo, da Latam, a proposta da Azul é “incompleta” e “insuficiente”.
Embora a Azul não tenha abertamente desistido do negócio, observará de longe o desdobramento dos próximos meses.
“Como resultado, a Azul continuará focando em suas vantagens competitivas exclusivas proporcionadas por sua malha única e sua frota flexível”, diz o comunicado ao mercado divulgado ontem.
O que a fusão entre Azul e Latam representaria
De cara, a combinação de negócios das empresas traria uma concentração de mercado. Juntas, as duas empresas acumularam 67,47% dos passageiros por quilômetros pagos (RPK, na sigla em inglês).
O mercado brasileiro já foi concentrado em 2019 com a quebra da Avianca, que em 2018 chegou a ter 15% do mercado. Caso a fusão entre Azul e Latam aconteça, certamente passará pelo crivo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A autarquia colocará na mesa a possibilidade de os preços das passagens aéreas subirem ainda mais com a menor concorrência no mercado – algo do qual a Gol (GOLL4) não deve reclamar.
O valor das passagens disparou 34% em outubro deste ano, de acordo com os números do IPCA-15. Em 12 meses, a alta é de 50,36%.
Isso pode ser explicado pela maior procura dos consumidores, com a reabertura das atividades e o alto patamar de vacinação na maior parte do País. Ademais, a guinada no preço do querosene de aviação também eleva o custo dos tíquetes.
Este ponto leva à segunda consequência da fusão, sob o ponto de vista corporativo. Momentos de crise, como o gerado pela pandemia há quase dois anos, elevam a possibilidade de negócios entre concorrentes.
A alta do dólar e a persistente limitação nos deslocamentos prejudicam as margens das empresas. A junção de dois grandes players traria sinergias significativas, como na barganha com fornecedores e otimização de despesas operacionais.

Além disso, o negócio pode ser um driver de valorização das ações na Bolsa. Aqui no Brasil, Azul e Gol representam o setor e o histórico não tem sido bom. As cotações estão no mesmo patamar de três anos atrás.
Desempenho das ações AZUL4 e GOLL4 nos últimos 5 anos

O que o mercado pensa
Em função das incertezas causadas pela pandemia e dificuldade de operacionalização do negócio aéreo — que possui receita em real e despesas em dólar –, o mercado mostra-se cauteloso em relação às ações da Azul.
De acordo com as estimativas de 12 analistas consultados pela Refinitiv, apresentadas na plataforma do TradeMap, seis recomendam a compra das ações da empresa. O mais otimista deles enxerga as ações valendo R$ 60, um upside de 152%.
Enquanto isso, quatro analistas recomendam a manutenção das ações da Azul, ao passo que dois indicam a venda dos papéis.
