A recessão global que vem sendo precificada pelos mercados nas cotações das commodities e a perspectiva de boas safras de grãos pelo mundo podem trazer um respiro à inflação de alimentos, que nos últimos 12 meses chega a quase 14%.
Na avaliação de especialistas, esse movimento deve chegar ao consumidor do Brasil, mas de uma forma gradual: a expectativa é que a inflação agrícola passe a crescer num ritmo mais lento, mas continue em um patamar elevado.
Dados do Bloomberg Commodity Spot Index, índice que mede os preços de 23 commodities, entre grãos, energia e metais, mostram recuo de 21% nas últimas semanas em comparação com o pico registrado em junho.
Além do tombo nas cotações, a expectativa é de boas safras de grãos nos Estados Unidos, na Austrália e no Brasil, o que também pode ajudar a segurar a escalada de preços de alimentos no mundo.
“No mínimo vai parar de piorar”, avalia Daniel Karp, economista especializado em inflação do Santander. “Já uma super ajuda na inflação de alimentos, ainda acho difícil, já que os estoques globais ainda estão muito apertados. A gente precisaria de duas ou três safras muito boas para recompor os estoques e ter um alívio significativo.”
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Ao lado de combustíveis, os alimentos vêm sendo os grandes vilões da disparada da inflação do ano passado para cá. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 12 meses até junho sobe 11,89%, enquanto o indicador específico para alimentos e bebidas já avança 13,93%.
A expectativa de analistas ouvidos pelo Boletim Focus é que o índice geral caia para 7,67% até o final do ano – as projeções, que chegaram a encostar em 9%, foram reduzidas após os Estados reduzirem o ICMS de combustíveis, energia e telecomunicações.
Disparada das commodities estimulou plantio
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, juntamente com o corte no ICMS de combustíveis e energia, os preços de alimentos também podem representar uma nova surpresa positiva para a inflação deste ano.
“Estamos vendo os preços dos alimentos desacelerarem, com exceção do leite, que está com um problema localizado”, afirma. “A safra de soja nos Estados Unidos aparentemente está sem problemas, aqui no Brasil a safra de milho está super bem, e os fertilizantes estão normalizando.”
Esse cenário melhor para a oferta de grãos está relacionado com a própria disparada dos preços, que entre 2021 e o primeiro trimestre deste ano foram impulsionados pela pandemia e pela invasão da Ucrânia pela Rússia.
Como aponta Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, essas cotações elevadas incentivaram o plantio de safras maiores pelo mundo.
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“A tendência é que os preços dos alimentos caiam na margem [em relação ao mês imediatamente anterior]. Isso acontece por causa do aumento da produção agrícola em geral no planeta, já que os preços estão excelentes, e isso induz a produção agrícola”, explica.
Recessão global à frente
Há um outro fator que pode jogar a favor da trégua na alta dos preços dos alimentos, e esse deve ter um peso ainda maior do que safras maiores: a possibilidade de recessão na atividade econômica mundial.
Em março deste ano, o Federal Reserve, banco central americano, deu início a um ciclo de aumento nos juros dos Estados Unidos para tentar combater a maior inflação em quatro décadas. O Banco Central Europeu também indicou que começará a subir os juros na Zona do Euro.
Esse cenário, aliado a indicadores mais fracos de atividade, já leva o mercado a precificar uma queda da economia global, com uma demanda retraída. “Com o próprio consumo mundial mais fraco, os preços acabam cedendo”, pondera Vale, da MB Associados.
Na avaliação de Karp, do Santander, os preços dos fertilizantes, que subiram com força após a invasão da Ucrânia pela Rússia, também começam a mostrar uma certa moderação, assim como o preço dos fretes internacionais. “Dá para dizer que o pior ficou para trás.”
Vale também aponta uma melhoria recente no fluxo de fornecimento de fertilizantes. “O cenário do início da guerra entre Rússia e Ucrânia permanece, ainda há dificuldades para escoamento. Mas aos trancos e barrancos esse transporte está acontecendo”, explica. “O fertilizante está chegando, e a utilização em 2022 não será tão diferente do ano passado.”
Silveira, da MacroSector, pondera que os insumos utilizados nas safras plantadas atualmente no mundo ainda não sentiram esse alívio.
“Para derrubar os preços, ainda leva um certo tempo. A safra americana já foi plantada, o custo elevado já está embutido nesse plantio”, lembra. “Haverá um ciclo de queda nos preços agrícolas, mas vai ser em câmera lenta.”