Os IPOs que mais atraíram o investidor pessoa física estão deixando a desejar; confira quais

Em 2021, 52 IPOs movimentaram R$ 54,9 bilhões, sendo que R$ 35,9 bilhões abasteceram o caixa das empresas

Foto: Shutterstock

A Bolsa brasileira ultrapassou a marca de cinco milhões de CPFs cadastrados em janeiro de 2022. Desde 2017, esse número cresceu dez vezes, mostrando o apetite dos investidores pela renda variável – acelerando o movimento de IPOs no país.

Em 2021, 52 IPOs movimentaram R$ 54,9 bilhões, sendo que R$ 35,9 bilhões abasteceram o caixa das empresas com ofertas primárias, de acordo com informações da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). 

Em números absolutos, os IPOs ano passado superaram as captações de 2007, ano em que 60 empresas abriram capital na Bolsa brasileira, recorde na série histórica. 

A ascensão conjunta de investidores novatos e companhias à B3 trouxe lições importantes. Os investidores tiveram de lidar com a volatilidade do mercado acionário, com o Ibovespa fechando o ano no vermelho pela primeira vez desde 2015, enquanto a taxa de juros voltava aos dois dígitos. 

Como se não bastasse, as cinco empresas que mais atraíram investidores pessoas físicas em seus IPOs desde o início de 2021 estão com rentabilidade negativa desde então. Confira quais são e o porquê disso.

Nubank

Em termos de demanda no varejo, a maior oferta do ano, na verdade, foi originada nos Estados Unidos. Criada em 2013, o Nubank (NUBR33) listou-se na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse) no início de dezembro e levantou US$ 2,6 bilhões (mais de R$ 13 bilhões).

No dia seguinte à abertura de capital em Wall Street, os fundadores do banco digital voaram para a B3 e realizaram a listagem dos BDRs (Brazilian Depositary Receipts), atraindo 815 mil investidores pessoas físicas.

O “roxinho”, como é chamado, também presenteou cerca de 7,5 milhões de clientes com “pedacinhos” do banco. Bastava ser usuário da fintech e, por meio do aplicativo bancário, expressar o desejo de receber uma fatia.

Com isso, ao todo 8,37 milhões de pessoas passaram a ser investidores do Nubank logo na estreia na Bolsa. Esse número é mais de 100 vezes maior que o segundo colocado da lista.

Vale ressaltar, contudo, que os participantes do programa NuSócios, que distribuiu as fatias do banco aos clientes, poderão vender os papéis, se assim quiserem, apenas 12 meses após a conclusão da oferta.

O trabalho do banco em prol da educação financeira é admirável, mas será que os investidores e clientes manterão seus “pedaços” do Nubank em dezembro deste ano?

Desde a listagem, os BDRs caem cerca de 26%, com uma clara reprecificação dos ativos no mercado. No momento do IPO, o Nubank valia mais do que o Itaú (ITUB4) e o Bradesco (BBDC4) juntos – mesmo tendo prejuízo.

Há quem enxergue o Nubank no tamanho dos bancões daqui a alguns anos, mas ele não fugirá dos mesmos problemas que o setor sofre

Raízen

O IPO da Raízen (RAIZ4) foi cercado de expectativa. Em um setor promissor, a empresa angariou a atenção de 82,31 mil pessoas físicas em agosto, quando chegou à B3. 

Líder global no mercado de biocombustíveis e uma das maiores produtoras de cana de açúcar e etanol do planeta, a empresa captou R$ 6,9 bilhões, na maior oferta em todo o ano de 2021. 

A origem da empresa remete a uma joint venture entre Cosan (CSAN3) e Shell. A atuação da empresa consiste em energia renovável, açúcar e marketing & serviços.

A empresa já era uma velha conhecida do mercado enquanto ainda estava sob o guarda-chuva da Cosan, mas decidiu ir ao mercado — mesmo precisando oferecer desconto no bookbuilding da oferta – com a narrativa ESG latente.

A oferta fez com que a companhia fosse listada avaliada em mais de R$ 70 bilhões, com prêmio relevante sobre seus pares, como São Martinho (SMTO3) e Vibra (BRDT3), em  açúcar e álcool e distribuição de combustíveis, respectivamente.

O curto prazo passado, porém, não foi favorável à empresa, que viu seus múltiplos diminuírem. Desde a oferta, as ações caem 12%, enquanto a São Martinho sobe 21% e a Vibra cai 17%.

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

De acordo com dados compilados pelo Refitiniv, apresentados na plataforma do TradeMap, 11 analistas acompanham a empresa, e todos indicam a compra das ações. O preço-alvo mediano aponta para R$ 9,70, equivalente ao potencial de valorização de 52%.

CSN Mineração

Em meio ao aquecimento do mercado de minério de ferro na China no início do ano passado, a CSN (CSNA3) decidiu fazer o spin-off da empresa ligada à mineração.

A CSN Mineração (CMIN3) abriu capital em fevereiro do ano passado, movimentando R$ 5,2 bilhões. A oferta teve a participação de pouco mais de 66 mil investidores pessoas físicas.

Hoje, a CSN Mineração é a segunda maior exportadora de minério de ferro do país, ficando atrás da Vale (VALE3). A empresa opera sobre duas minas: a Namisa e a Casa de Pedra, produtora de um dos minérios de maior qualidade da região.

Como está diretamente ligada à commodity, a empresa acompanha o movimento dos preços negociados no mercado internacional. Desde a máxima histórica, atingida em maio de 2021 (quando a tonelada do minério de ferro estava em US$ 220), as ações da empresa caem 37%. Desde o IPO, a queda é de 27%, enquanto no mesmo período a Vale cai 22%. 

O mercado aguarda por novos desdobramentos da política internacional, como o pacote de investimento em infraestrutura dos EUA, e fortalecimento da demanda por aço e minério, sobretudo da China. 

A plataforma do TradeMap mostra 13 recomendações sobre a empresa. Sete são de compra, quatro de manutenção das ações e duas para a venda dos papéis. Há que acredite que as ações CMIN3 podem subir até R$ 15, enquanto outros avaliam que elas valem R$ 5,50.

Mosaico

O IPO da Mosaico (MOSI3) foi um dos que mais chamaram atenção em 2021. Não apenas por ter atraído 31.017 investidores de varejo, mas também pelo abrupto movimento no dia de estreia.

A companhia se destacou entre os IPOs de 2021, ao saltar 97% ao fim do primeiro pregão – à la empresas de tecnologia da Nasdaq durante a bolha da internet, no início do século. 

A empresa controladora de Zoom, Buscapé e BondFaro, todavia, vê suas ações caírem mais de 80% desde o ponto mais alto. O mercado enxerga problemas no modelo de negócio, que pode ser altamente replicável.

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No terceiro trimestre do ano passado, a Mosaico lucrou R$ 2,1 milhões, queda de 80,6% ante o mesmo período de 2020. A receita líquida caiu 14,4%, para R$ 50,2 milhões. Isso perfaz uma margem líquida de apenas 4,18%. 

Mas o que agitou os corredores da empresa em 2021 foi a venda para o Banco Pan (BPAN4), numa tentativa do banco digital em ampliar seu alcance de vendas e juntar o melhor dos mundos em banking e consumo

A operação deve ser concluída ao longo de 2022, com a aprovação do BC, uma vez que o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) já deu sua bênção. 

Analistas consultados pelo Refinitiv se dividem sobre a Mosaico. Das cinco recomendações, dois entendem que é um bom momento de entrada, enquanto dois indicam a manutenção em carteira e um a venda dos papéis.

Independentemente disso, os papéis parecem subprecificados. O preço-alvo mediano aponta para R$ 20,50, upside de 174%.

Multilaser

A quinta empresa da lista é a Multilaser (MLAS3), que abriu capital em julho do ano passado, colocando cerca de R$ 1,9 bilhão no bolso.

A empresa foi criada em 1987 no ramo de cartuchos de tinta para impressoras. Desde então, foi incorporando marcas e navegando em novos mercados, e hoje se identifica como uma companhia de tecnologia.

São mais de cinco mil produtos que em sua maioria focam em preços acessíveis, com tíquetes médios mais baixos do que os concorrentes. Os pares comparáveis e listados na Bolsa são Intelbras (INTB3) e Positivo (POSI3). 

Como toda e qualquer empresa de tecnologia e alto crescimento no Brasil e no mundo, a Multilaser sofreu com o movimento de contração monetária com alta da taxa de juros, o que impacta o custo de capital dessas empresas e diminui os múltiplos no presente

Desde o IPO, que atraiu 18 mil pessoas físicas, as ações da companhia perderam mais da metade de seu valor. 

Embora a operação da Multilaser tenha sido mais um dos IPOs de empresas que caíram fortemente na Bolsa, a expectativa é positiva. Todos os quatro analistas consultados pelo Refinitiv recomendam a compra das ações neste patamar. O preço-alvo mediano prevê quase 100% de valorização. 

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