Ritmo de alta de 1,5 ponto nos juros será suficiente para controlar a inflação?
O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) entregou nesta quarta-feira, dia 27, o que uma parte relevante do mercado esperava: uma alta de 1,5 ponto na taxa básica, a Selic, e a sinalização de aumento igual na próxima reunião. Dessa forma, tudo indica que os juros terminarão 2022 em 9,25% ao ano.
A pergunta que fica é: esse ritmo será suficiente para controlar as expectativas de inflação e a curva de juros, pressionadas pela deterioração do cenário fiscal?
Da mesma forma que as apostas para alta da taxa nesta reunião mostraram uma abrangência raras vezes vista –iam de aperto de 1 a 3 pontos percentuais–, as opiniões sobre a eficiência da decisão do colegiado também são distintas.
Muitos analistas acreditam que o BC poderia ter sido mais ousado no aumento para ficar à frente da curva de juros –ou seja, dar uma espécie de “susto” no mercado, elevando a Selic mais que o esperado para controlar as expectativas.
“O Copom entregou o que o mercado estava precificando. Não sei ser vai ser suficiente, acho que teria sido importante ter tentado ficar à frente da curva de juros, mas não foi o que aconteceu”, apontou Gustavo Ribeiro, economista-chefe da Asa Investments.
Na avaliação dele, o mercado fica agora de olho nos desdobramentos da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos precatórios, que altera o teto e prorroga o pagamento dessas dívidas para permitir a elevação de despesas no ano que vem.
“Agora estamos dependentes da PEC, com o mercado em um nível de tensão ainda elevado”, disse. “Ao não se colocar à frente da curva, temos um risco relevante de uma nova aceleração no ritmo de alta da Selic”.
Meta impossível
Para o economista e ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, uma taxa Selic de um dígito não consegue controlar a variação de preços nem em 2023 (ou seja, no longo prazo) –para ele, cumprir a meta de 2022 já está fora de questão.
“Dados os recentes riscos fiscais, acreditamos que a taxa Selic alcançar 9,75% por ano, como mostram as previsões de mercado, provavelmente não será suficiente para entregar a inflação no alvo em 2023 (2022 parece fora de alcance neste momento”, afirmou ele em relatório. “Nós esperamos agora que a taxa atinja acima de 10% no final do ciclo”.
Decisão acertada
Para o economista chefe da Órama, Alexandre Espírito Santo, a decisão foi acertada.
“A despeito da responsabilidade fiscal ser fundamental para a ancoragem das expectativas, parte da inflação atual está sendo impulsionada por choques de oferta”, lembrou ele em relatório. “Sendo assim, pode ser prematura a visão de uma relação mecânica, automática e imediata dos atuais ruídos políticos sobre a demanda, que exijam um choque de juros desproporcional para contê-la”.
Em outras palavras, a avaliação é que pode ser exagerada a percepção de que o anúncio do governo de que vai mudar o teto de gastos para permitir mais despesas em 2022 terá um impacto rápido e automático sobre a variação de preços. A inflação, pondera ele, está relacionada principalmente com problemas de oferta.
É uma percepção parecida com o do economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez. “Avaliamos, bem como o comunicado pela autoridade, que o ritmo é suficiente para promover a convergência da inflação para meta no horizonte relevante para política monetária”, observou ele em relatório, avaliando que a taxa básica será elevada em mais 3 pontos pelo BC ao longo dos próximos meses, até atingir 12% em meados do ano que vem.