O iShares MSCI Brazil (EWZ), principal fundo de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, foi o primeiro termômetro da reação dos investidores à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de domingo. Ainda na noite de domingo, nas negociações after-hours, o fundo chegou a cair mais de 19%; por volta das 21h42, recuava 17,75%, a US$ 35,03. No pré-mercado desta segunda-feira, a queda se aprofundou e passou de 25%.
O tombo contrasta com o clima do fim da semana passada. Na sexta-feira, último pregão antes da votação, o EWZ havia fechado em alta de 1,77%, embalado pela aposta do mercado em uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL). O Ibovespa encerrou a sexta aos 205.082,56 pontos, com alta de 0,47%, e o dólar comercial fechou abaixo de R$ 5, a R$ 4,993.
Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, que não reconheceu a derrota e afirmou que vai recorrer à Justiça Eleitoral. O resultado surpreendeu porque a maioria das pesquisas de sábado colocava o senador numericamente à frente, ainda que em empate técnico.
Como o EWZ é cotado em dólar, a queda do fundo embute dois movimentos ao mesmo tempo: a desvalorização das ações e a do real. Os contratos futuros de novembro do real caíam 10% durante o pregão asiático. ADRs de Petrobras, Itaú Unibanco e Bradesco registravam quedas superiores a 20% no pré-mercado americano, e os títulos internacionais do Brasil também operavam no negativo.
A leitura predominante entre gestores é a de desmonte de posições. O próprio mercado batizou o movimento de trade eleitoral, nome dado às estratégias de curto prazo montadas em cima do cenário político. As ações haviam fechado a sexta quase 7% acima do nível anterior ao primeiro turno, e o real tinha se valorizado quase 5% frente ao dólar no período. O JP Morgan rebaixou a recomendação do real e dos títulos públicos brasileiros de overweight para marketweight e fala em uma reavaliação significativa dos ativos quando os negócios forem retomados.
O risco de circuit breaker
Entre agentes do mercado, havia a expectativa de acionamento de circuit breakers na B3 logo na abertura. Operadores previam queda superior a 10% do Ibovespa no início do pregão.
O mecanismo funciona em três degraus, sempre em relação ao fechamento do pregão anterior. Se o Ibovespa cair mais de 10%, as negociações são interrompidas por 30 minutos. Após a reabertura, se a queda atingir 15%, há nova interrupção, desta vez de uma hora. Uma terceira paralisação ocorre no caso de queda de 20%, com prazo definido pela própria Bolsa e comunicado ao mercado. De qualquer forma, na última meia hora de pregão as negociações acontecem.
Nesta segunda, a B3 publicou um informativo (661/2026-SSN) esclarecendo como a regra se aplica ao leilão de abertura do mercado à vista. Se, durante o leilão, a formação de preço do Ibovespa indicar oscilação superior a 10%, o leilão é interrompido e o circuit breaker é acionado por 30 minutos. Passado esse período, o leilão de abertura é retomado e, em seguida, começa a negociação contínua.
O comunicado também define os gatilhos seguintes a partir de onde o índice abrir. Se a abertura ficar entre 10% e 15% de queda, o próximo circuit breaker ocorre aos 15%. Se ficar entre 15% e 20%, o próximo ocorre aos 20%. Se o índice abrir com queda superior a 20%, a B3 interrompe a negociação e envia novo comunicado.
A última vez em que o circuit breaker foi acionado foi em março de 2020, no início da pandemia, quando disparou nos dias 9, 11, 16 e 18, e duas vezes no pregão do dia 12.
A Bolsa também mexeu nas travas dos contratos futuros. Em comunicado válido apenas para a sessão desta segunda, a B3 ampliou os limites inferiores de oscilação diária do contrato futuro de Ibovespa (IND) e do minicontrato (WIN) de 10% para 15%, segundo o InfoMoney. Em outro informativo, expandiu os túneis de leilão dos mesmos contratos: o túnel de rejeição passa de 1% para 2%, o de leilão por oscilação de 0,50% para 1% e o de leilão por preço médio de 0,80% para 1,50%. Na prática, as mudanças dão mais espaço para que os futuros reflitam a queda antes de travarem ou entrarem em leilão.
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