Por que o Bank of America voltou a recomendar a compra de ações brasileiras na contramão de JP Morgan e Morgan Stanley
O Bank of America decidiu içar as velas para o Brasil. Nesta terça-feira (8), o banco elevou a recomendação das ações brasileiras de neutro (marketweight) para compra (overweight), sinalizando para os grandes investidores globais que tenham mais verde e amarelo na carteira.
O movimento chama atenção porque vai contra a maré que dominava Wall Street nas últimas semanas.
Em agosto, o JPMorgan revisou a estratégia para a América Latina e reduziu a recomendação para o mercado brasileiro de compra para neutro, citando a proximidade do fim do ciclo de corte de juros, a desaceleração da economia e a piora do crédito.
Duas semanas depois, foi a vez do Morgan Stanley rebaixar as ações brasileiras de compra para neutro, citando a deterioração da relação entre risco e retorno no mercado local.
O rebaixamento do JPMorgan, aliás, não passou em branco: nos pregões seguintes o Ibovespa teve forte debandada do investidor estrangeiro, com 11 quedas consecutivas — a pior sequência do índice desde 2023.
Agora, enquanto os rivais recolhem as velas, o BofA resolve navegar em direção contrária, ajudando o Ibovespa a ganhar ainda mais tração nesta terça-feira (8).
Ventos a favor das ações brasileiras
O principal argumento do banco para mudar de rumo é o corte de juros.
Diferentemente do que projetavam JPMorgan e Morgan Stanley, o BofA passou a enxergar espaço para um ciclo de afrouxamento monetário mais profundo do que o esperado, puxado pela desaceleração da atividade e por uma inflação mais baixa.
A nova projeção do banco é de que a Selic termine 2027 em 11,25% ao ano — bem abaixo da estimativa anterior, de 12,75%, e também abaixo dos atuais 14% que o mercado ainda precifica.
Para 2026, a expectativa é de Selic em 13,25%, patamar que deve se manter em 2028.
Na visão do banco, essa política monetária mais frouxa deve empurrar as ações para níveis de valuation menos deprimidos — compensando os riscos de revisões para baixo nos lucros, a desaceleração da demanda e a própria incerteza eleitoral.
Hoje, o Ibovespa (excluindo commodities) é negociado com um desconto de 10% em relação à média histórica: o mar, na leitura do banco, está mais calmo do que o preço sugere.
A maré do investidor estrangeiro está virando
Um dos pontos mais interessantes do relatório é a descrição do movimento do capital estrangeiro — que, segundo o BofA, está mudando de direção.
Nos últimos dez pregões, R$ 6 bilhões ingressaram em ações à vista, revertendo parte dos R$ 20 bilhões que haviam saído nos três meses anteriores.
O banco atribui esse retorno também a uma acomodação do chamado trade de inteligência artificial (IA) — com o Brasil performando melhor do que Taiwan, Coreia do Sul e os semicondutores norte-americanos no período.
O BofA cita ainda evidências de cobertura de posições vendidas, o famoso short covering, com as ações mais "shorteadas" do mercado brasileiro superando o desempenho médio desde meados de agosto.
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A rota latino-americana
O Bank of America mantém uma visão construtiva para a América Latina como um todo. Confira abaixo um resumo das recomendações do BofA para a região:
A aposta do BofA no Brasil
Como a Selic ainda deve permanecer elevada por um tempo, o BofA optou por não hastear todas as velas ao mesmo tempo — e equilibrar o aumento de exposição ao país.
De um lado, reforçou nomes sensíveis a juros: histórias ligadas a mercado de capitais, bond proxies (empresas que se comportam como títulos de renda fixa) e companhias mais alavancadas já presentes na carteira do banco.
De outro, manteve o apreço por empresas geradoras de caixa, large caps líquidas, com balanços fortes e execução comprovada — a âncora clássica para atravessar um cenário de juros ainda altos sem sustos.
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O próprio BofA reconhece que o principal risco à tese de Brasil é um ciclo de corte de juros menor do que o esperado.
E o calendário eleitoral já entrou de vez no radar, já que o primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro.
A política fiscal segue sendo o principal ponto de atenção do banco, já que a dívida pública crescente exige ajustes — mas a rigidez do orçamento brasileiro limita o espaço para uma consolidação fiscal mais robusta.
O que isso significa para o seu bolso
Na prática, o BofA está dizendo que, apesar dos riscos fiscais e eleitorais, o desconto atual das ações brasileiras compensa o risco — especialmente se a Selic cair mais rápido do que o mercado espera.
É uma leitura diferente da que JPMorgan e Morgan Stanley fizeram há poucas semanas, o que mostra que, mesmo entre os grandes bancos internacionais, não existe consenso sobre a rota da bolsa brasileira.
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