Para trocar gás por biometano, Reiter constrói sua própria infraestrutura

A empresa gaúcha de transporte Reiter Log terá metade da sua frota de veículos movidos a combustíveis alternativos ao diesel com o recebimento, até o fim do ano, de uma encomenda de 220 caminhões que podem ser abastecidos com gás natural (GNV) e biometano.
Serão cerca de 600 veículos com esse perfil, de uma frota total de 1.100 unidades. A meta da empresa familiar, anunciada em 2021, é chegar a 2035 sem usar combustíveis fósseis no transporte.
O plano inclui veículos elétricos para distâncias menores em centros urbanos, mas a principal aposta da empresa é o biometano, combustível produzido a partir de resíduos orgânicos.
O desafio de reduzir as emissões de carbono do setor de frete rodoviário — que representa cerca de 60% do transporte de carga no Brasil — passa por dificuldades de infraestrutura e escala, como a disponibilidade de abastecimento nas rodovias brasileiras e a necessidade de investimento para a troca da frota.
No caso da Reiter, a empresa está construindo seus próprios pontos de abastecimento. A companhia tem hoje nove postos nos estados de Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, que fornecem três milhões de metros cúbicos mensais de biometano para a frota da empresa. Mais um pit stop vai ser inaugurado em São Paulo até o fim do ano, e há planos de construir outros em Santa Catarina e na região Centro-Oeste. O investimento para a construção dessa infraestrutura própria foi de cerca de R$ 100 milhões.
Hoje a Reiter Log compra o biocombustível de fornecedores e tem uma parceria com a Copersucar, cooperativa de açúcar e etanol, que produz biometano a partir da vinhaça, resíduo líquido da fermentação da cana.
A partir de 2027, o grupo também vai operar uma usina de biometano na cidade gaúcha de Capão do Leão, numa joint venture entre a Estancia Del Sur, empresa agropecuária dos Reiter, e a companhia paranaense de biometano Geo Biogás & Carbon.
A planta deve ter capacidade inicial de produção de 400 mil metros cúbicos de biometano mensais produzidos a partir dos resíduos agrícolas do próprio grupo. A usina, com investimento total de R$ 120 milhões, também vai produzir biofertilizantes que poderão ser usados no cultivo de milho.
O biometano pode ser produzido a partir de resíduos orgânicos domésticos, como em aterros sanitários, e de resíduos de agroindústrias, e reduz em até 99% as emissões de carbono na comparação com o diesel. “Por isso a gente acredita muito que o biometano é o combustível do futuro no Brasil, porque nós vivemos muito de agro”, diz Vinicius Reiter Pilz, presidente da Reiter Log.
Para o transporte de caminhões, o Brasil também aposta no biodiesel, produzido a partir de grãos como a soja. Hoje o diesel normal disponível em postos já inclui uma mistura de 15% de biodiesel, assim como acontece com o etanol e a gasolina. A Lei Combustível do Futuro prevê o aumento para pelo menos 20% até 2030, a depender da viabilidade técnica — motores mais antigos podem ser prejudicados pelo aumento da composição.
Já existem veículos que se movem apenas com biodiesel, que apresentam uma redução de até 80% nas emissões na comparação com o diesel fóssil. Mas o presidente da Reiter Log vê mais vantagens na expansão do biometano. “Nos preocupa o custo do biodiesel, porque é mais caro que o diesel. A sustentabilidade tem que ser economicamente viável. Com o preço da soja hoje, quanto vai custar o biodiesel? Isso limita nosso crescimento”, diz.
Primeira parada: GNV
O destino final da Reiter é operar uma frota majoritariamente movida a biometano, mas ela exige uma parada inicial: a troca do diesel por outro combustível fóssil, o GNV.
Embora não reduza emissões de carbono como o biometano, o uso de GNV como alternativa ao diesel traz suas vantagens, diz Vinicius Pilz. O caminhão emite cerca de 15% menos CO2 e menos material particulado poluente, além de produzir menos ruído para o motorista.
O custo do veículo também é um entrave para sua popularização. A Reiter está comprando o lote de 220 caminhões movidos a gás ou biogás da fabricante sueca Scania. Segundo Silvio Renan, diretor de vendas e soluções da Scania Operações Comerciais Brasil, um veículo a gás pode custar até 15% mais que um movido a diesel — o custo extra caiu desde o lançamento dos modelos, quando era de 30%.
Renan também vê o GNV como uma etapa intermediária até o biometano engrenar e aumentar sua disponibilidade ao redor do Brasil. Mas embora ambos possam ser mais baratos que o diesel, mesmo o gás natural tem limitações de infraestrutura e nem sempre está disponível em rotas fora das regiões Sudeste e Sul.
“O principal entrave é o custo operacional total. O que melhor remunerar o investimento do capital vai ser a solução que o transportador vai apresentar para o seu cliente”, diz Renan. A Scania busca envolver fornecedores de gás na hora de fechar os contratos de venda dos caminhões, além de ter uma área de serviços financeiros com linhas de crédito específicas para esse tipo de veículo.
Na terça-feira (25), a Scania apresentou o primeiro modelo de caminhão elétrico da empresa vendido no Brasil, num evento junto com a Reiter, em Barueri (SP). A unidade agora será incorporada à frota da transportadora, e o processo será acompanhado pela Scania para avaliar os desafios de usar o modelo, comum no mercado europeu, nas rodovias brasileiras. A primeira unidade foi produzida na Suécia, mas a fábrica local da Scania estará apta a montar modelos elétricos até ano que vem, segundo Renan.
Outro entrave para a popularização dos caminhões movidos a combustíveis alternativos é a revenda do veículo. É comum que empresas de transporte vendam os caminhões após alguns anos de uso para manter a frota nova. A Scania afirma que tem conseguido vender modelos a gás em suas lojas de seminovos, mas como a adoção no Brasil é relativamente nova, essa demanda ainda está sendo testada.
Contrato verde
A Reiter Log enfrentou dificuldade para obter crédito para a frota a combustíveis alternativos quando a estratégia começou a ser implementada em 2021. Mas agora os bancos estão mais abertos a financiar esses veículos, segundo Vanessa Reiter Pilz, vice-presidente de ESG da empresa. O investimento na frota foi de cerca de R$ 600 milhões. A empresa faturou R$ 2,4 bilhões nos últimos doze meses.
Para garantir que o investimento se pague, a empresa busca clientes dispostos a pagar a mais pela sustentabilidade. “Hoje metade da nossa receita vem de clientes em que ao menos parte da operação é sustentável”, diz Vanessa Pilz.
As mais interessadas são empresas que buscam reduzir as suas emissões indiretas (escopo 3) para cumprir metas globais. Muitas são do setor de beleza, como L’Oréal, Natura e Boticário, que também utilizam biometano em sua logística própria.
Um “contrato verde”, em que o transporte é majoritariamente feito por veículos a biometano ou elétrico, pode custar entre 10% e 20% mais que um contrato tradicional, diz Silvio César, vice-presidente de operações e negócios da Reiter Log. Para as empresas, esse custo extra pode ser revertido em produtividade e em atributos ambientais — revendidos para outras companhias que queiram declarar o uso do biogás para reduzir emissões mesmo sem ter acesso direto ao biometano.
Vender créditos de carbono também está no horizonte da Reiter, segundo Vanessa Pilz, mas a empresa aguarda a regulamentação do mercado brasileiro para entender como isso se dará. A previsão é que o setor de transporte rodoviário seja incluído no Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) a partir de 2031.

























