Do topo ao poço da América Latina: Ibovespa perde o encanto e entra na lanterna dos gringos
A relação entre o investidor estrangeiro e a B3 passou do romance dos sonhos à separação ruidosa em questão de meses. Se até abril o gringo esbanjava otimismo e injetava bilhões na bolsa brasileira, agora a mala está pronta e a porta foi batida: o Ibovespa tem o pior desempenho entre os principais mercados da América Latina.
A virada de cenário para o mercado brasileiro é expressiva. Segundo o mais recente relatório do Bank of America, o principal índice da bolsa brasileira acumula uma queda de 19% em dólares desde a máxima registrada em 14 de abril. O tombo coloca o Ibovespa na lanterna entre os latinos.
A comparação com os vizinhos evidencia a perda de tração local. O Mexbol, do México, recuou de 9% em dólares desde o pico de 11 de fevereiro, enquanto o IPSA, do Chile, teve queda de 10% desde a máxima de 28 de janeiro. MSCI Peru e Colcap, da Colômbia, permanecem negociando próximos às máximas do ano.
O contraste é marcante na comparação com o início do ano, quando o Brasil liderou com folga a captação estrangeira na América Latina, superando vizinhos com R$ 68 bilhões acumulados em entradas líquidas até abril.
A debandada de capital estrangeiro
A virada de mão do estrangeiro se refletiu nos números de fluxo da B3. Após atingir um pico de aportes de R$ 56,4 bilhões em abril, os estrangeiros retiraram R$ 38,2 bilhões da bolsa.
Apenas entre os dias 10 e 14 de agosto, os saques somaram R$ 12,6 bilhões — a maior saída registrada em uma única semana desde 2008.
Em agosto, a sangria ultrapassou os R$ 18 bilhões, dilapidando quase todo o saldo positivo que havia sido construído no ano.
Para os especialistas, não existe um único culpado, mas sim uma combinação de fatores macroeconômicos e geopolíticos.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, destaca que a cautela global reflete cinco vetores entrelaçados como a incerteza eleitoral, dúvidas sobre a trajetória das contas públicas brasileiras, juros reais elevados e competição global por capital, já que vários países disputam o mesmo dinheiro com teses mais atrativas.
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O Ibovespa ficou barato?
Apesar da forte correção, o diagnóstico dos especialistas não é de todo desanimador. Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, destaca que a queda acentuada gerou valuations extremamente descontados em diversos papéis.
Os gestores seguem de olho na abundância brasileira de minerais críticos, no potencial energético e no peso das commodities.
Segundo o Inter, o próprio Ibovespa vem negociando abaixo da média histórica de preço em relação ao lucro (P/L) desde 2021, embora tenha flertado com essa média no começo deste ano.
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Telefone VEJA AQUIApós a temporada de balanços corporativos do segundo trimestre, o Inter usa o P/L como um termômetro para medir a temperatura do Ibovespa como um todo.
Como cenário-base, o banco adotou um múltiplo de P/L de 9,5 vezes, patamar considerado conservador pelo analista Rafael Winalda, e que oferece uma margem de segurança relevante.
Cruzando esse múltiplo com as projeções intermediárias de lucro das empresas componentes do índice, estima-se um preço-alvo para o Ibovespa de aproximadamente 193 mil pontos para o final de 2026 e de 204 mil pontos para 2027.
“O ponto central dessa conta é que não precisamos contar com cenários mágicos ou lucros astronômicos para justificar um upside relevante: basta que as empresas entreguem o que já é esperado no meio-termo para que a bolsa destrave um valor considerável frente aos patamares atuais”, afirma Winalda.
*Com informações do Money Times
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