Como a Moderna quase triplicou o valor de suas ações em um único dia
As vacinas contra a Covid-19 transformaram a Moderna em um nome conhecido mundialmente, mas a trajetória da empresa desabou à medida que a demanda pelos imunizantes despencou. A hostilidade do governo Trump também assustou investidores. Até terça-feira (18), as ações da companhia acumulavam queda de quase 90% em relação ao pico, eliminando cerca de US$ 170 bilhões em valor de mercado.
Enquanto isso, a empresa trabalhava discretamente em uma retomada baseada no tratamento do câncer.
Na quarta-feira (20), esses esforços começaram a render frutos de forma expressiva. Moderna e Merck informaram que sua vacina experimental contra o câncer aumentou o tempo até a recorrência do melanoma em um ensaio clínico, tornando-se o primeiro estudo avançado desse tipo a apresentar resultados positivos. As farmacêuticas anunciaram o sucesso por meio de comunicados, sem divulgar números detalhados sobre o benefício obtido pelos pacientes. As ações da Moderna fecharam o dia com alta de 177%.
Os investidores apostam que a Moderna pode impulsionar uma nova abordagem para o tratamento de determinados tipos de câncer. A vacina experimental utiliza a mesma tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) que deu origem ao imunizante da empresa contra a Covid-19, mas funciona de forma diferente. Personalizada de acordo com a genética do tumor de cada paciente, ela fornece instruções para produzir um fragmento do tumor, ensinando o sistema imunológico a identificar e atacar o câncer.
Se a estratégia funcionar em diferentes tipos de tumores, as vacinas de mRNA contra o câncer poderão se transformar em um negócio extremamente lucrativo. Medicamentos oncológicos de ponta costumam custar centenas de milhares de dólares por ano.
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Para a Moderna, o câncer é “de longe a oportunidade mais importante de seu pipeline”, afirmou Tyler Van Buren, analista do banco TD Cowen.
O CEO da Moderna, Stéphane Bancel, disse à CNBC que o trabalho da empresa com a vacina contra o câncer representa mais uma tentativa de assumir “grandes apostas científicas e clínicas”.
A possibilidade de usar vacinas de mRNA para tratar o câncer fascina pesquisadores há décadas. No entanto, o avanço da área se acelerou apenas recentemente, à medida que tecnologias de fabricação e desenvolvimento evoluíram, em parte graças aos investimentos realizados durante a pandemia.
Até o ano passado, mais de 60 vacinas contra o câncer baseadas em mRNA ou tecnologias semelhantes estavam em desenvolvimento, sendo avaliadas em mais de 120 testes clínicos. Muitas dessas pesquisas são financiadas por entidades filantrópicas, governos e pequenas empresas de biotecnologia.
Quatro grandes farmacêuticas lideram essa corrida. Duas delas são Moderna e Merck, cuja parceria na área remonta a uma década. As empresas também testam a mesma vacina para cânceres de pulmão, rim e bexiga. No estudo anunciado na quarta-feira, a vacina foi administrada em combinação com o Keytruda, o principal imunoterápico oncológico da Merck.
A BioNTech, outra desenvolvedora de vacinas de mRNA contra a Covid, trabalha com a Genentech, unidade da Roche, para criar vacinas destinadas ao tratamento de cânceres de pâncreas e de cólon. Resultados preliminares de segurança para câncer pancreático despertaram entusiasmo entre pesquisadores neste ano.
Historicamente, porém, a estratégia era considerada arriscada. A produção é complexa, o ambiente político é delicado e havia poucas evidências de que a tecnologia funcionaria. Outras grandes farmacêuticas especializadas em oncologia, como Pfizer e Bristol Myers Squibb, não investem atualmente em vacinas de mRNA contra o câncer.
Sob o comando do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., o governo Trump promoveu uma série de mudanças em políticas públicas e financiamento consideradas desfavoráveis à tecnologia de mRNA. Há um ano, o governo federal cancelou quase US$ 500 milhões em contratos e outros recursos destinados ao desenvolvimento dessa plataforma.
“Esses ventos políticos contrários foram sérios e fizeram muitas empresas repensarem seus planos”, afirmou Jeff Coller, pesquisador da Universidade Johns Hopkins especializado em mRNA. Coller aconselha diversas companhias do setor e integra o comitê executivo da Alliance for mRNA Medicines.
Mesmo assim, a administração Trump sinalizou uma postura potencialmente mais aberta quando o assunto é o uso de mRNA no tratamento do câncer. Neste ano, o governo lançou discretamente uma parceria público-privada destinada a financiar ensaios clínicos de diferentes vacinas oncológicas, incluindo as baseadas nessa tecnologia.
Fundada em 2010, em Cambridge, Massachusetts, a Moderna nasceu com o objetivo de desenvolver medicamentos baseados em RNA mensageiro. Sua vacina contra a Covid-19, o primeiro produto comercial da empresa, gerou dezenas de bilhões de dólares em receita durante a pandemia.
Mas, com a perda de apoio público e governamental ao imunizante, a companhia ficou sem produtos capazes de substituir essa fonte de receita. Nos últimos anos, buscou se reinventar com vacinas de mRNA contra o vírus sincicial respiratório (VSR), gripe e terapias experimentais para doenças raras.
No ano passado, a empresa demitiu mais de 800 funcionários, cerca de 10% de sua força de trabalho. Também perdeu mais de US$ 700 milhões em contratos para desenvolver uma vacina contra a gripe aviária após o cancelamento dos acordos pelo governo Trump. Além disso, interrompeu projetos de vacinas contra herpes, catapora e herpes-zóster.
Embora o desenvolvimento de vacinas oncológicas de mRNA tenha começado anos antes da pandemia, o projeto passou relativamente despercebido. Além da parceria com a Merck, a Moderna possui sozinha diversos outros candidatos a vacinas contra diferentes tipos de câncer em fase de testes.
“As pessoas começaram a prestar atenção” quando Moderna e Merck passaram a divulgar resultados promissores em estudos clínicos intermediários, disse Andrew Tsai, analista do banco Jefferies.
Agora, a Moderna voltou aos holofotes. Ainda restam questões importantes: os resultados positivos observados no melanoma, um tipo de câncer historicamente mais responsivo aos tratamentos, serão reproduzidos em tumores mais difíceis de combater? E os dados completos serão tão positivos quanto os comunicados sugerem? As empresas informaram que divulgarão os resultados detalhados em breve durante um congresso médico.
Mas, para Van Buren, do TD Cowen, o sucesso do estudo já deve atrair uma nova onda de investimentos para a tecnologia.
“Agora que esse teste foi bem-sucedido, definitivamente espero mais investimentos de outras farmacêuticas”, afirmou.
c.2026 The New York Times Company
























































