A economia brasileira em 2022 está em risco. O preço da recessão contida em 2020, abastecida pela Selic na mínima histórica em meio à chegada da pandemia, foi a inflação galopante deste ano e as dúvidas acerca do ano que vem . Setores e ações reagirão de maneiras distintas.
Em relatório divulgado em outubro, o Itaú (ITUB4) passou a prever uma nova recessão brasileira em 2022. A contração da política monetária, com o desemprego ainda em alto patamar, é a vilã da economia neste momento, segundo a instituição, o que pesa sobre as ações em Bolsa.
Alguns setores representativos na Bolsa de Valores brasileira têm motivos para se preocupar. As empresas que dependem de uma atividade econômica pujante e desemprego em níveis comportados podem passar por meses desafiadores, sendo destaque do ponto de vista negativo.
Por outro lado, outros segmentos possuem crescimento contratado para os próximos trimestres. Sejam ligadas a economias externas ou atividades internas com um oceano azul à frente, algumas companhias enxergam 2022 como uma grande oportunidade.
Economia em segundo plano: as ações de empresas em alta
Agronegócio
Embora o viés seja positivo, o agronegócio passa por incertezas para o ano que vem. A desaceleração econômica, dúvidas quanto ao crescimento chinês e disparada dos custos de produção pressionam os números do segmento.
Mesmo assim, com a previsão de que o Produto Interno Bruto (PIB) do País mal saia do lugar em 2022, o agro ainda crescerá.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a expectativa é de crescimento em torno de 3% a 5%, com a agropecuária liderando os ganhos, após um avanço de mais de 9% neste ano.
A previsão é de que 2022 também tenha uma safra de grãos recorde de 289 milhões de toneladas, 14% acima do registrado neste ano. De acordo com a CNA, este ano foi marcado por problemas climáticos que não devem se repetir no ano que vem.
Nesse sentido, JBS (JBSS3) e Raízen (RAIZ4) devem estar entre as beneficiadas pela resiliência do setor, com a tradicional blindagem ante o restante da economia, e o real ainda depreciado.
A Rumo (RAIL3), a maior operadora ferroviária independente do Brasil, também pode surfar a safra de grãos. No acumulado de 2020, o valor total transportado (TKU) atingiu 62,45 bilhões, levemente acima do ano anterior. Neste ano, o crescimento deve ser superior, dando continuidade ao avanço da receita da empresa nos últimos anos.
Fonte: TradeMap
Locadoras de veículos
O setor de locação de veículos é um dos mais promissores para 2022. As companhias tendem a continuar surfando o desempenho favorável na venda de veículos seminovos, com a contínua crise dos semicondutores mundo afora.
As margens da frente de negócios, que tem sido cada vez mais representativa na receita das companhias, têm sido beneficiadas com o aquecimento do mercado secundário em função da disparada dos preços dos veículos zero ao público comum.
No rent a car (RAC), as empresas podem observar um movimento positivo da volta do turismo local, também elevado pela aversão aos gastos em dólar no exterior.
Do outro lado, o alto índice de desemprego pode trazer novos motoristas parceiros de e-hailing (compartilhamento de viagens por meio de viagens por aplicativo).
Além disso, o ano reserva a possível conclusão da fusão entre Localiza (RENT3) e Unidas (LCAM3). O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recomendou remédios ao negócio , para não concentrar o mercado. A Movida (MOVI3) continua no jogo.
Mineração e siderurgia
Esses setores passaram por fortes altos e baixos em 2021. A montanha-russa relacionada à mineração e siderurgia teve início no começo do ano, com a liquidez global ainda pujante.
A demanda por aço e, consequentemente, por minério de ferro fez com que o preço da commodity disparasse para US$ 220 a tonelada, a máxima histórica, em meados do ano. A queda, porém, também foi drástica.
Entre o topo, atingido em maio, a R$ 118,72 e o preço atual, as ações da Vale (VALE3) caíram mais de 30% e vão fechar o ano no vermelho. Mas e daqui para frente?
A tendência é que o minério de ferro se estabilize e tenha um ano de mais equilíbrio. As recomendações para as ações da Vale ainda são positivas.
De acordo com os dados compilados pelo Refinitiv , apresentados na plataforma do TradeMap , das 11 recomendações, sete são de compra. O preço-alvo mediano aponta para R$ 107,74, upside de 35% sobre o patamar atual.
Fonte: TradeMap
A desaceleração da economia chinesa, sobretudo do setor imobiliário, é um risco relevante, mas em situações similares o Banco Popular da China (PBOC, na sigla em inglês) tem se mostrado ativo para o reaquecimento da economia, que geralmente é acompanhado de investimentos em infraestrutura.
Nesse sentido, também fica no radar o novo pacote de investimentos em infraestrutura do governo de Joe Biden, aprovado na ordem de US$ 1 trilhão.
A alocação do dinheiro para estradas, pontes, transporte público, ferrovias, aeroportos, portos e hidrovias, porém, está prevista para os próximos cinco anos. A Gerdau (GGBR4), com forte operação no território americano, segue de olho.
Dependentes da economia: as empresas e setores com mais desafios
Varejo
O setor de varejo, assim como mostrou nos últimos meses de 2021, também deve passar por desafios ao longo do ano que vem. O setor é altamente pressionado pelo desemprego, inflação e taxa de juros em alta, pesando sobre o poder de compra da população.
A atual projeção do Relatório Focus é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atinja 5,03% no ano que vem, acima da margem de tolerância da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Saiba mais: IPCA-15 sobe em dezembro e atinge maior patamar desde 2015
Enquanto isso, a taxa de desemprego vigente é de 13,2%, atingindo 13,7 milhões de pessoas. O Brasil tem a quarta maior taxa de desemprego entre a população economicamente ativa, segundo um ranking levantado pela agência de classificação de risco Austin Rating.
Como se não bastasse, o e-commerce, após o avanço descomunal em 2020, pode continuar desacelerando.
O Magazine Luiza (MGLU3), por exemplo, viu suas vendas desacelerarem no terceiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. O lucro caiu quase 90%, com o crescimento mais lento das vendas no comércio eletrônico.
Construção civil
O setor de construção civil, um dos mais representativos da economia real na Bolsa , também tem um cenário desafiador. Inclusive, as razões são similares às do varejo.
O segmento é altamente sensível à taxa de juros, desemprego, inadimplência e, sobretudo, à inflação, embora o operacional das empresas ainda se mostre resiliente.
O IMOB, índice de ações com os ativos de maior representatividade no setor imobiliário, cai três vezes mais que o Ibovespa no ano.
Desempenho do IMOB (verde) e do Ibovespa (amarelo) nos últimos 12 meses
Fonte: TradeMap
A piora dos índices de inflação, empurrando a curva de juros para cima, é uma amostra do aumento dos custos das construtoras e incorporadoras, abatendo a confiança do mercado frente às companhias.
O resultado do terceiro trimestre das empresas foi misto. Os lançamentos continuam fortes, embora a receita líquida das empresas tenha ficado estável ou recuado, assim como a margem bruta.
A tendência é que 2022 ainda reserve solavancos ao setor, com a concessão de crédito dificultada.
Saúde
Antes queridinho do mercado, o setor de saúde agora passa por incertezas que entrarão no ano de 2022.
O otimismo que fez com que novas empresas chegassem à Bolsa no começo de 2021 deu lugar a preocupações relacionadas ao recrudescimento da pandemia, alta dos custos médicos e elevação da taxa de juros, que prejudica as companhias mais alavancadas.
No terceiro trimestre deste ano, a Rede D’Or (RDOR3), protagonista de um dos maiores IPOs da história do mercado brasileiro, realizado no fim de 2020, decepcionou a maior parte dos investidores com margens apertadas e lucro apenas estável na comparação anual.
Em Bolsa, as empresas devem continuar batalhando contra a correção de preços, uma vez que os múltiplos ainda permanecem altos. A própria Rede D’Or, por exemplo, atualmente negocia a 52 vezes os lucros dos últimos 12 meses.
Os investidores também seguem atentos à conclusão da combinação de negócios entre Hapvida (HAPV3) e Intermédica (GNDI3). O Cade aprovou o negócio sem restrições , após considerar o caso “complexo” anteriormente.
Vale ressaltar que ambas as empresas são verticalizadas, atuando desde o primeiro ao último passo do cliente quando ele demanda algum atendimento. Com isso, adentrando ao cenário de planos de saúde, Hapvida e Intermédica poderão continuar testando a alta da sinistralidade, refletida na cotação das ações .