Os frigoríficos lideraram as altas do Ibovespa no pregão de ontem. Sem razão clara ao mercado, JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3), BRF (BRFS3) e Minerva (BEEF3) foram na contramão do índice, que derrapou pelo segundo dia consecutivo .
O dólar colaborou. A divisa americana fechou a última sessão a R$ 5,68, no maior patamar desde o início de abril. Mas o presente de natal aos frigoríficos foi divulgado na manhã desta quarta-feira (15).
A China derrubou o embargo à importação de carne bovina brasileira, que estava vigente desde setembro, quando foram identificados casos da doença conhecida como vaca louca.
A Minerva comentou, em fato relevante, que seus negócios ligados à China atingem sete unidades produtivas com capacidade de abate de cerca de 10 mil cabeças de gado por dia, ao longo de toda a América do Sul. A retomada da produção tem início imediato.
A empresa é a líder na exportação de carne bovina no continente e se beneficia diretamente da medida. A China importa quase 50% das cerca de 2 milhões toneladas que o Brasil vende ao exterior.
A notícia, porém, impulsiona todo o setor. As ações dos quatro maiores players do Brasil avançam na expectativa por um final de ano positivo e um 2022 promissor, ou de recuperação.
Enquanto os papéis de JBS e Marfrig disparam neste ano, BRF e Minerva ficam para trás. Com 2021 ficando nos livros de história, o que esperar daqui para frente?
Desempenho das ações JBSS3, MRFG3, BEEF3 e BRFS3 nos últimos 12 meses
Fonte: TradeMap
O impacto do embargo chinês aos frigoríficos
A China é o principal parceiro comercial do Brasil. No ano passado, quase um terço de todas as vendas brasileiras ao exterior foram direcionadas ao país asiático.
A carne bovina é o quarto produto mais importado pelos chineses, ficando atrás apenas da soja, minério de ferro e óleos brutos de petróleo. Ano passado, o produto movimentou US$ 4 bilhões.
Contudo, os últimos meses foram influenciados negativamente pelo embargo chinês. No mês passado, as exportações totais de carne bovina recuaram 47%, segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).
Em toneladas, a exportação foi de 105,2 mil, totalizando US$ 501 milhões. O preço por tonelada, contudo, aumentou de US$ 4.190 para US$ 4.959, em função da demanda resiliente e a oferta reduzida.
A outra boa notícia é que as empresas não ficaram desamparadas. As exportações do Brasil para os Estados Unidos aumentaram 183% nos primeiros 10 meses de 2021, segundo dados do Ministério da Economia, mostrando o quão aquecido está o segundo maior cliente brasileiro.
As medidas restritivas chinesas impactaram majoritariamente BRF e Minerva, uma vez que JBS e Marfrig possuem operações mais diversificadas e focadas em alimentos de alto valor agregado. As dúvidas sobre o setor, porém, também remetem a outras questões.
JBS rumo aos R$ 100 bilhões de receita
A JBS, maior produtor de proteínas e a segunda maior empresa de alimentos do mundo, segue superando as expectativas do mercado e liderando os frigoríficos na Bolsa.
No terceiro trimestre deste ano, a companhia reportou uma receita líquida de R$ 92,62 bilhões, ampliando em 31,2% o resultado do mesmo período de 2020. O lucro líquido atingiu R$ 7,58 bilhões, disparando mais de 140% na mesma base comparativa.
Entre julho e setembro deste ano, a produção de bovinos processados caiu 11%, ritmo explicado pela escassez da matéria-prima e a suspensão das exportações para a China.
Embora dezembro seja o último mês do último trimestre de 2021, os resultados já devem ser realimentados com a volta do acesso ao mercado chinês. A operação exterior da companhia, inclusive, tem sido o destaque dos últimos resultados.
Também é amplamente esperado que o ano que vem seja marcado pela continuidade do forte pipeline de aquisições da empresa.
No mês passado, por exemplo, a companhia anunciou o investimento de US$ 100 milhões na aquisição da BioTech Foods, construção de fábrica na Europa e de um centro de pesquisa no Brasil.
Frente às expectativas positivas, o mercado mostra-se otimista com a empresa. Segundo as projeções compiladas pelo Refinitiv , apresentadas na plataforma do TradeMap , são 13 recomendações que acompanham a JBS, sendo 12 de compra.
Fonte: TradeMap
Agressividade e desvalorização do real são trunfos da Marfrig
A Marfrig, da mesma forma, mostra estar navegando mares positivos. No terceiro trimestre, o resultado da companhia chamou atenção, com o lucro saltando 148,7% na comparação anual, chegando a R$ 1,7 bilhão.
No topo, o resultado é explicado pelo maior volume de vendas e melhores preços em todas as linhas de negócio. Principalmente porque o real está fortemente depreciado ante o dólar. A expectativa do mercado é que a divisa americana permaneça custando R$ 5,5 em 2022.
A Marfrig conseguiu consertar um dos seus maiores problemas, que era a alavancagem financeira em um setor de alta incerteza e ciclicidade.
A relação entre a dívida líquida e o Ebitda da empresa, que chegou a mais de 13 vezes em 2018, atualmente está em cerca de 1,2 vez.
Histórico da alavancagem financeira da Marfrig
Fonte: TradeMap
Desse ponto de vista, a alavancagem financeira pode subir com a potencial aquisição da BRF, principalmente se a pílula do veneno for ativada. Mas, até agora, a agressividade da Marfrig parece ser benéfica.
Com a aquisição da participação acionária na BRF, o balanço da Marfrig pode se tornar menos volátil, uma vez que a exposição a carne bovina será contrabalanceada ante ao negócio de aves e suínos.
Em 2022, porém, o ambiente pode ser difícil, principalmente nos Estados Unidos. De acordo com a consultoria Beef2Live, com base em dados da United States Department of Agriculture (USDA), o país deve registrar uma perda de 9 mil toneladas nas importações do país.
A Marfrig conta com a National Beef no país, empresa que inclusive pode ser listada em Bolsa, conforme a direção da empresa.
Analistas consultados pelo Refinitv apontam que das 13 recomendações para o papel, oito são de compra e cinco de manutenção da posição. A visão não é tão unânime.
BRF, a maior incerteza dentre os frigoríficos
No caso da BRF, as incertezas que pairam sobre a empresa trazem o temor de um 2022 complicado.
A companhia tinha a previsão de entregar um Ebitda de R$ 10 bilhões em 2023, mas com o aumento dos custos para a manutenção do gado, como farelo de soja e milho, esse prazo foi estendido em um ano.
A estimativa de atingir a receita anual de R$ 65 bilhões também passou para 2024.
A pressão nos custos também trouxe a queda de margens, cenário que tende a se repetir no ano que vem. Segundo a empresa, em seu investor day, o segredo está na boa gestão de custos e despesas.
Quedas das margens Ebitda e líquida da BRF
Fonte: TradeMap
Mesmo em meio às pressões conjunturais, que também atingem o repasse dos custos para os consumidores, que sofrem com a inflação, a previsão de investimentos se manteve e 2022 deve reservar uma ou outra aquisição, como neste ano.
A preocupação gira em torno da alavancagem da empresa, que superou a marca de três vezes no fim de setembro — patamar limite considerado saudável para os frigoríficos. A direção, por sua vez, aparenta estar confortável com a posição de caixa de R$ 7 bilhões e com dívida com vencimento médio de nove anos.
Das 11 recomendações compiladas pela Refinitiv , sete são de compra e quatro de manutenção das ações. O preço-alvo mais alto aponta para R$ 18, perfazendo um upside de 81% sobre a cotação atual da BRF.
Recordes da Minerva aquecem 2022 promissor
No terceiro trimestre deste ano, a Minerva reportou resultados em linha com o esperado pelo mercado. Mesmo assim, a maior parte deles foram recordes, impulsionados pela operação internacional.
Entre julho e setembro deste ano, a operação na América do Sul contribuiu com 56% da receita consolidada.
Com essa diversificação territorial, câmbio favorável, forte demanda externa e dólar jogando a favor, o faturamento da empresa atingiu R$ 7,4 bilhões, o maior para um terceiro trimestre. O lucro, por sua vez, subiu 24% em 12 meses, para R$ 72,4 milhões.
Volatilidade do lucro da Minerva
Fonte: TradeMap
O desempenho operacional da companhia deve continuar sendo beneficiado pela exposição à Athena Foods, que consiste nas operações das unidades no Paraguai, Argentina, Uruguai e na Colômbia.
Destaca-se, também, o fluxo de caixa das atividades operacionais da Minerva, que saiu de R$ 1,05 bilhão em março deste ano para R$ 1,94 bilhão em setembro.
As margens, embora baixas em relação ao ano passado, mostram-se sólidas com os desafios da operação brasileira. Esses dois fatores alinhados podem significar uma distribuição de resultados robusta no ano que vem.
Os frigoríficos , mesmo com características diferentes, passaram por desafios em 2021 e, não obstante, eles continuarão no radar em 2022. A diferença é que majoritariamente eles indicam estar mais preparados.