Após a disparada em julho para patamares não vistos desde 2016, as taxas pagas pelos títulos públicos ofertados pelo Tesouro Direto recuaram em agosto, com a sinalização mais clara do Banco Central (BC) de encerrar o ciclo de alta dos juros e com o arrefecimento das perspectivas para a inflação.
O sentimento de alívio dos investidores, contudo, ainda não se consolidou e as taxas corrigiram parte da queda nas últimas semanas, impulsionadas pelo temor do mercado com as contas públicas brasileiras a partir de 2023 e o cenário internacional com a sinalização de aumentos dos juros americanos.
Se no mês de julho as taxas pressionadas levaram a maioria dos papéis a registrarem rendimento negativo, a mudança de percepção com a política monetária alterou o quadro.
No início de agosto, o Copom (Comitê de Política Monetária) subiu a taxa Selic para 13,75% ao ano e afirmou que avaliaria a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude, em sua próxima reunião, em setembro.
Para analistas, o recado da autoridade monetária indica que o atual ciclo de alta dos juros chegou ao fim, e que a estratégia passa a ser manter as taxas em níveis elevados por mais tempo. O último Boletim Focus mostra que a projeção do mercado para a Selic em dezembro deste ano é de 13,75%, ou seja, não embute novas elevações da taxa básica.
Entre os papéis atualmente disponíveis para compra no Tesouro Direto, o título prefixado com vencimento em 2029 teve a maior rentabilidade do mês, de 5,4%, seguido pelo papel prefixado com vencimento em 2033 e juros semestrais, de 5,14%.
Na ponta oposta, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2026 foi qual apresentou a menor rentabilidade, de 0,11% em agosto.
“Em linhas gerais, foi um mês positivo. Vimos os juros recuando, e o principal fator para isso foi o encerramento do ciclo de alta da Selic”, explica Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos. “Se os juros vão parar [de subir], o mercado vê que as taxas estão exageradas e passa a reajustar”.
Confira a seguir o desempenho em agosto, no ano e em 12 meses de todos os títulos públicos disponíveis atualmente para compra no Tesouro Direto.
E lembre-se que você só terá as perdas ou os ganhos indicados se vender os papéis antecipadamente. Se os títulos forem carregados até o vencimento, o retorno vai respeitar as taxas e as condições contratadas no momento da aquisição.
Tesouro Prefixado divide opiniões
O recente movimento dos títulos prefixados divide a opinião de especialistas. Apesar da queda das taxas observada em agosto, a pressão gerada pela trajetória de alta dos juros americanos ainda pode dar impulso aos prêmios no Brasil.
Na cena doméstica, o principal fator de pressão é o cenário eleitoral e a falta de sinais dos dois principais concorrentes à Presidência no campo fiscal, ou seja, em medidas que busquem controlar os gastos públicos a partir de 2023.
“O risco fiscal ainda está na mesa. Enquanto se tem dúvidas, o mercado pode pedir mais prêmio de risco, e depois as taxas se ajustam novamente”, diz Blanco.
Apesar de reconhecer essa tendência de taxas maiores, a economista afirma que o atual patamar ao redor de 12% é bastante atrativo para os investidores. “Pode subir mais? Pode, mas quanto? Já não será mais um impacto tão grande”, afirma.
A opinião é compartilhada por Marcos Caruso, economista-chefe do banco Original. Na sua visão, os preços ainda não estão com a totalidade do risco fiscal embutidos. Mesmo assim, as opções prefixadas devem ganhar mais espaço na carteira dos investidores.
“O pós-fixado começou a perder a demanda, já se começar a ver migração do pós para o prefixado”, diz.
O caminho, porém, tem que ser feito com cautela, para evitar que novos aumentos dos juros prejudiquem os rendimentos dos investidores. “É preciso ponderar os riscos e benefícios. Com as taxas hoje, não é para estar zerado em prefixado, mas também não é para estar totalmente alocado”, afirma Caruso.
Para Rodrigo Octavio Marques, gestor da área macroeconomia da Nest Asset, os prefixados só estão interessantes em opções de curtíssimo prazo. “A taxa prefixada longa não vale por conta da volatilidade. Não há uma previsão clara de fechamento da taxa no longo prazo”, afirma.
O estresse que pode levar ao aumento de taxas está escorado nas incertezas com os rumos da política econômica para o próximo ano, pontua. “Ainda não está precificado o risco eleitoral ou a trajetória de gastos para os próximos anos”, diz. “Provavelmente vai haver mais estresse. Ainda precisa de muito prêmio para carregar os prefixados.”
Tesouro IPCA+ para o longo prazo
Para quem mira uma opção de mais longo prazo, a recomendação é buscar títulos indexados à inflação que, devem voltar a trazer rendimentos mais robustos com o fim do ciclo de deflação induzido por medidas do governo federal.
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O corte de impostos e o arrefecimento da cotação de commodities no mercado internacional levaram o Brasil a registrar deflação de 0,68% em julho – a maior queda de preços da série histórica, iniciada em janeiro de 1980. A prévia do IPCA de agosto indica novo registro negativo.
Apesar da pequena valorização no mês passado, os especialistas recomendam a compra de títulos indexados à inflação para quem tem uma mentalidade de longo prazo.
“Não se pode tomar a decisão de investir em inflação com base apenas em dois meses”, afirma Blanco. “É um investimento para levar no médio e longo prazo”, diz.