O ano de 2022 foi marcado pela disparada da inflação, pelo aumento dos juros brasileiros e internacionais e por preocupações de que a economia do mundo caminha para uma recessão. Todas essas pressões se fizeram sentir nos papéis do Tesouro Direto, que encerraram o ano majoritariamente no campo positivo, mas com apenas dois títulos com retorno acima da variação do CDI (12,3%).
A inflação do período bateu 5,90%, segundo a prévia de dezembro, acima do teto da meta estipulada para o Banco Central, de 4,50%.
Os títulos mais conservadores lideraram o ranking. Considerando apenas os títulos públicos disponíveis atualmente para compra no Tesouro Direto, os do tipo Tesouro Selic foram o destaque de 2022, em especial o com vencimento em 2027, com valorização de 12,95% no ano passado.
Na ponta oposta ficaram as opções indexadas ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o indicador oficial da inflação brasileira. O pior desempenho em 2022 foi registrado pelo Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045, com queda de 11,98% no período.
Em meio ao aumento das preocupações do mercado ao longo do ano com as contas públicas brasileiras e com o tamanho do déficit fiscal, os prêmios exigidos pelos investidores para emprestar dinheiro ao governo subiram. Na prática, taxas mais altas de juros significam preços menores dos papéis, o que explica a queda dos títulos com rendimentos atrelados à inflação.
Além disso, a baixa dos papéis de prazos mais dilatados reflete o grau de oscilação que carregam em momentos de maior estresse, como o atual. Quanto maior o horizonte de tempo do investimento, mais suscetível a altos e baixos seu preço fica.
“O que explica essas quedas de rentabilidade [no Tesouro IPCA+] é a alta dos juros futuros. Existe um medo do novo governo. Antes, havia a ideia de que ele seria moderado, mas vimos que não é bem isso”, explica Rodrigo Knudsen, gestor da Empiricus Investimentos.
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Confira a seguir o desempenho de todos os títulos públicos disponíveis para compra no Tesouro Direto em dezembro e em 2023.
E lembre-se que você só terá as perdas ou os ganhos indicados se vender os papéis antecipadamente. Se os títulos forem carregados até o vencimento, o retorno vai respeitar as taxas e as condições contratadas no momento da aquisição.
Tesouro Selic é destaque
Com duas opções disponíveis para a compra na plataforma do Tesouro Direto (com vencimentos em 2025 e 2027), os papéis indexados à Selic lideraram a valorização no ano passado.
A opção é a mais recomendada para investimentos conservadores (como da reserva de emergência) e para momentos de incerteza sobre os rumos da economia, como o atual.
O movimento de valorização refletiu a alta dos juros pelo Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central – a taxa Selic começou 2022 a 7,75% ao ano e encerrou em 13,75%.
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A expectativa do mercado até o final do ano passado era de corte gradual da taxa a partir da segunda metade de 2023, mas a expectativa de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixará o controle das contas públicas em segundo plano levou a uma revisão destas projeções.
Dados do Boletim Focus publicados nesta manhã mostraram que os especialistas financeiros esperam que a Selic alcance 12,25% ao ano em dezembro, contra expectativa anterior de 12% ao ano. A mediana das projeções para a taxa no fim de 2024 foi mantida em 9% ao ano.
No mercado de juros futuros, as taxas sugerem que não haverá corte de juros em 2023. “Os juros pararam de precificar queda porque o mercado não está confiando que o novo mercado vai ter o cuidado fiscal que deveria, ou seja com o quanto ele gasta e arrecada. Isso gera mais inflação, e assim os juros não baixam”, afirma Knudsen.
Prefixados têm desempenho misto
Os papéis prefixados, considerados os mais arriscados do Tesouro Direto, tiveram um desempenho misto. Entre as opções disponíveis para compra no Tesouro Direto, apenas o título com vencimento em 2025 teve resultado positivo no ano, com valorização de 6,74%.
Esses papéis são mais indicados quando há percepção de que os juros entrarão em declínio, já que eles permitem travar a taxa anual no momento do investimento.
IPCA+ lidera perdas
Os papéis indexados à inflação tiveram o pior desempenho no acumulado de 2022. O ano passado ficou marcado pelo aumento do IPCA, principalmente pela disparada do petróleo após a eclosão da guerra na Ucrânia, no fim do primeiro trimestre.
Para amenizar o aumento generalizado de preços, o governo federal interviu diretamente no corte de impostos sobre os combustíveis, resultando em uma inédita desinflação entre os meses de agosto e setembro.
Ontem, após a posse, Lula determinou que a isenção do PIS/Cofins sobre a gasolina será prorrogada por 60 dias, em uma mudança de rota em relação ao plano previsto pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Os papéis do tipo IPCA+ são considerados híbridos por terem uma parte prefixada e outra que varia conforme a inflação.
A forte queda dos preços no terceiro trimestre teve efeito no acumulado do ano, especialmente nos títulos mais longos, considerados mais voláteis por carregarem mais incertezas sobre o cenário da economia no futuro.
Segundo Knudsen, neste caso, o aumento dos juros ao longo dos meses acabou se sobressaindo ao aumento da inflação, pesando muito mais para os papéis com prazos esticados.
“Quanto mais longo o papel, mais porrada ele vai levar, independente se for indexado ao IPCA ou prefixado”, pontua.