O agravamento das incertezas com a economia no início deste ano, sobretudo em relação à condução da dívida pública do país, provocou uma queda generalizada dos títulos públicos negociados pelo Tesouro Direto.
Sem contar o recém-lançado Tesouro RendA+, dos 11 contratos disponíveis para compra, apenas dois tiveram rentabilidade positiva no primeiro bimestre: o Tesouro Prefixado com vencimento em 2026 e o Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2032, com altas de 2,1% e 0,53%, nessa ordem.
Quando se compara com a variação do CDI do período, de 2,05%, apenas a opção com retorno prefixado supera o desepenho e, mesmo assim, por uma diferença mínima.
Na outra ponta, o papel Tesouro IPCA+ 2045 caiu 6,24% nos dois primeiros meses do ano, liderando com folga o pior rendimento do Tesouro Direto.
Vale lembrar que o movimento das taxas é inversamente proporcional ao dos preços, ou seja, quanto maiores os juros, mais desvalorizados ficam os títulos.
Confira a seguir o desempenho de todos os títulos públicos disponíveis atualmente para compra no Tesouro Direto em janeiro e nos últimos 12 meses, com exceção dos papéis mais novatos, do tipo RendA+.
E lembre-se que você só terá as perdas ou os ganhos indicados se vender os papéis antecipadamente. Se os títulos forem carregados até o vencimento, o retorno vai respeitar as taxas e as condições contratadas no momento da aquisição.
O que mexeu com as taxas do Tesouro Direto?
No início de janeiro, as taxas de juros subiram em meio a dúvidas sobre como ficariam as contas públicas em 2023 e, ao fim daquele mês, acentuaram o movimento de alta após críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às decisões do BC (Banco Central).
O presidente deixou clara a insatisfação com o nível elevado dos juros reais no Brasil e diminuiu a importância da autonomia do BC, o que alimentou rumores de que, em fevereiro, o governo afrouxaria a meta de inflação.
O raciocínio do mercado foi que, se isso acontecesse, a economia conviveria com uma alta de preços mais intensa por mais tempo, o que exigiria um período mais longo de juros altos.
O afrouxamento da meta eventualmente foi descartado, mas os ruídos em torno do tema provocaram aumento das taxas dos juros futuros, sobretudo para períodos mais distantes.
As projeções do mercado financeiro compiladas no Boletim Focus também têm sido recorrentemente ajustadas. Há 11 semanas, a previsão para a a alta do IPCA em 2023 não para de subir e está, atualmente, em 5,90%.
Taxa recorde no Tesouro IPCA+
No Tesouro Direto, o título Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 atingiu taxa recorde de 6,52% ao ano, enquanto o prêmio do papel com juros semestrais e prazo em 2040 alcançou a marca inédita de 6,45%.
Já no mercado secundário (em que são negociados papéis que não estão mais disponíveis parea compra no Tesouro), os retornos de títulos de curto prazo chegaram a cair, refletindo o anúncio de que o governo anteciparia de abril para março a apresentação de um novo conjunto de regras para controlar os gastos públicos, aponta Luciano Costa, economista-chefe e sócio Monte Bravo.
A expectativa de que o projeto seja aprovado ainda este ano fortaleceu a tese de corte da Selic, a taxa básica de juros, entre o terceiro e o quarto trimestre. Atualmente, a taxa está em 13,75% ao ano.
Isso porque a perspectiva é que as regras melhorem a visibilidade sobre como o governo vai controlar os gastos, diminuindo o peso do risco fiscal nas decisões sobre os juros.
“O Banco Central está em um dilema entre o anúncio do arcabouço e a sua aprovação. Nesse meio tempo, haverá muita pressão para a redução dos juros”, afirma Costa.
Vencimentos mais curtos na preferência do mercado
Diante deste quadro, as opiniões dos agentes de mercado convergem para a busca por títulos do Tesouro com prazos menores. Como as dúvidas em relação ao futuro ainda são grandes, os títulos com vencimento mais distante ficam mais sujeitos às oscilações do mercado.
Para Rodrigo Cabraitz, analista de alocação da Claritas Investimentos, os papéis vinculados ao IPCA apresentam as melhores oportunidades, por garantirem a proteção contra a inflação.
O especialista cita que as atuais taxas prefixadas oferecidas por estes títulos – acima de 6% ao ano – revelam condições favoráveis para quem carregar o papel até o vencimento. Entre os papéis recomendados, o Tesouro Direto possui hoje a opção Tesouro IPCA+ 2029, que em fevereiro teve rendimento de 0,69%.
“Os papéis de curto prazo hoje estão com uma rentabilidade suficiente para se carregar até o vencimento sem tomar tanto risco”, afirma Cabraitz.
Saiba mais:
O mesmo não se aplica aos papéis prefixados, considerados os mais arriscados do Tesouro Direto.
As incertezas em torno da economia e da inflação abrem espaço para novos aumentos da Selic (embora não seja o cenário do mercado de forma geral), o que gera o risco de o rendimento contratado na compra de papéis prefixados se tornar desvantajoso no futuro.
A Claritas está com posição zerada em prefixados até que novos sinais apontem para o arrefecimento da pressão.
“Preferimos ficar fora desse mercado agora e, quando houver uma sinalização mais concreta dos campos fiscal e monetário, começaremos a aplicar no prefixado e apostar na queda da taxa”, afirma Cabraitz.
Para Victor Zucchi Meneghel, especialista em renda fixa da Valor Investimentos, os papéis prefixados devem estar no radar dos investidores, mas, assim como os títulos de inflação, também no curto prazo.
Das opções disponíveis para compra no Tesouro Direto, o único papel que se adéqua nestas condições é a opção com vencimento em 2026, que em fevereiro pagou taxa de 0,92%.
Em horizontes mais longos, no entanto, a recomendação é fugir desses papéis, já que ainda há muito risco de novos ruídos políticos forçarem as taxas para cima.
Entre os principais pontos que podem gerar estresses na curva de juros, o especialista da Valor pontua as tratativas do governo em forçar a Selic para baixo.
“Se abaixarem a Selic na marra, o mercado vai ver que no futuro isso vai dar errado, então os juros longos vão subir. Quem entrar em um prefixado nesse prazo hoje pode tomar o deságio”, explica.
Tesouro IPCA+ favorece o longo prazo
Com uma opinião semelhante, Costa, da Monte Bravo, prefere apostar em opções de títulos com prazos mais curtos para mitigar os efeitos da volatilidade.
Porém, para o investidor que mira o longo prazo, como a aposentadoria, os atuais patamares das taxas do Tesouro IPCA+ são boas oportunidades, desde que os papéis sejam carregados até o seu vencimento.
“Se for algo como uma poupança, é um momento bom para comprar o risco, já que, na média, uma taxa de 6% é muito alta para o Brasil”, explica.
Meneghel, da Valor, segue no mesmo raciocínio, destacando que mesmo que haja aumento das taxas, o atual nível ainda é bastante atrativo para os investidores.
“Não é preciso esperar estar na crista da onda para entrar. Pode ser que os juros subam mais, mas esse patamar de 6% já está muito boa”, afirma.