Temores de juros mais altos voltam ao radar e Ibovespa cai 2,17% antes de feriado

Mercado repercutiu falas do presidente do BC, Campos Neto, sobre uma possível nova alta da Selic

Foto: Shutterstock

Um dia depois de os mercados permanecerem fechados pelo feriado de Dia de Trabalho nos Estados Unidos e um dia antes de a Bolsa brasileira interromper suas atividades para o Dia da Independência, falas de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, trouxeram os temores de novas altas na taxa Selic de volta ao radar.

Nesse contexto, o Ibovespa fechou o pregão desta terça-feira (6) em baixa de 2,17%, aos 109.763 pontos, com R$ 22,59 bilhões em volume negociado. A queda de hoje, porém, não foi suficiente para inverter o saldo do índice no mês de setembro, que agora é de alta de 0,22%. A valorização acumulada desde o início do ano, por sua vez, é de 4,71%.

O dia também foi negativo em Wall Street, com o S&P 500 caindo 0,4%, o Dow Jones perdendo 0,55% e o Nasdaq recuando 0,74%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou com ganhos de 0,29%.

Mercado se lembra da Selic

A Bolsa brasileira foi impactada pela aversão ao risco no exterior, mas o sentimento do investidor local também foi azedado pelas declarações de Campos Neto, durante a premiação Valor 1000. Ontem, o presidente do BC sinalizou a possibilidade de um último ajuste na taxa Selic na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC), no fim do mês.

“A gente entende que tem que passar mensagem dura. A mensagem de hoje é a mesma do último Copom. Aproveitamos eventos como esse para nos manifestar e a mensagem que continua valendo hoje é a do último Copom, que a gente disse que avaliaria um possível ajuste final”, disse.

A fala levou a uma aceleração forte na curva de juros brasileira, já que o mercado tinha precificado que o BC havia encerrado o ciclo atual e que a Selic se manteria em 13,75% ao ano até o início de 2023.

Esse movimento de cautela por parte dos investidores foi intensificado nesta manhã, após Bruno Serra, um dos diretores do BC, apontar que a instituição deve “ficar vigilante” com as questões inflacionárias no Brasil.

“As duas falas acabam reforçando esse compromisso com a meta de inflação nos próximos anos e ressaltando uma postura de cautela com a desinflação no Brasil”, avalia Rodrigo Ashikawa, economista da Claritas Investimentos.

Altas e baixas do pregão

Com as perspectivas de juros altos por mais tempo, as ações de varejo, consumo e construção civil lideraram as perdas do Ibovespa nesta terça.

No fechamento, as maiores baixas eram de MRV (MRVE3), Via (VIIA3) e Magazine Luiza (MGLU3), com recuos de 8,51%, 7,67% e 7,41%, respectivamente.

A queda das varejistas nada mais é do que o medo na restrição do consumo, uma vez que os juros mais elevados encarecem o custo do crédito e tendem a reduzir a atividade econômica, prejudicando principalmente empresas ligadas ao setor.

Na direção oposta, as ações que mais subiram, entre as poucas altas do Ibovespa no pregão, foram as de TIM Brasil (TIMS3), São Martinho (SMTO3) e Vivo (VIVT3), com avanços de 2,19%, 1,97% e 0,77%, nesta ordem.

Exterior também sofre

Não foi só no Brasil que o receio com a alta de juros voltou à tona. Nos Estados Unidos, o mercado também entrou nesta onda após dados mostrarem que o crescimento do setor de serviços acelerou em agosto.

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O índice ISM sobre a atividade do setor de serviços americano subiu para 56,9 pontos em agosto. A leitura, acima de 50 pontos, sugere expansão da atividade. O resultado contrariou a expectativa do mercado, que previa queda para 55,2 pontos, segundo informações do banco Wells Fargo.

O indicador é mais um sinal de que a economia dos EUA continua forte, a despeito das sucessivas altas de juros – que agem como um freio ao crescimento – e da inflação elevada – que reduz o poder de compra da população.

Diante disso, os investidores reforçaram a aposta que o Federal Reserve, banco central americano, continuará aumentando os juros de forma agressiva, na tentativa de conter a alta de preços.

Na Europa, os mercados repercutem o agravamento da crise energética na Europa, com a interrupção no fornecimento de gás russo pelo gasoduto Nord Stream, alegando ser impossível retomar a produção sem a suspensão de sanções a equipamentos essenciais, ampliando as pressões inflacionárias e os temores de recessão na zona do euro.

Apesar do cenário, os preços do petróleo caíram nesta terça, perdendo força depois do rali pós-reunião da Opep+ (Organização de Países Exportadores de Petróleo e aliados) no pregão de ontem.

Do outro lado do mundo, mais de 65 milhões de chineses estão sob lockdown, em mais um agravamento na crise de Covid-19. Diante disso, o governo do país prometeu mais estímulos econômicos.

Criptomoedas

O Bitcoin (BTC) voltou ao vermelho nesta terça e agora luta para não perder o patamar de US$ 19 mil.

A nova dose de pessimismo segue o temor dos investidores com a aceleração da alta dos juros americanos e os impactos da política monetária na maior economia do mundo.

Por volta das 16h55, o BTC registrava queda de 4,1%, negociado a US$ 18.979, segundo dados da Binance disponíveis na plataforma TradeMap.

O mau humor dos investidores foi suficiente para derrubar o Ethereum (ETH), que operou com valorização de mais de 6% nesta manhã, diante do início do processo de fusão da blockchain, previsto para ser concluído no próximo dia 15.

Na mesma hora, a segunda maior cripto do mercado registrava queda de 3,4%, a US$ 1.588.

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