Sanções dos EUA e do Reino Unido a petróleo russo têm efeito limitado nos mercados; investidores seguem atentos a Petrobras

Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, essas sanções não devem levar Fed a acelerar a alta da taxa básica de juros

O anúncio de sanções às importações de petróleo russo pelo presidente dos EUA, Joe Biden, e pelo governo do Reino Unido nesta terça-feira teve efeito limitado nos mercados – principalmente porque a medida era esperada pelo menos desde domingo (6). As bolsas americanas operam em ligeira alta, enquanto o Ibovespa caía, com os investidores aguardando a decisão do governo sobre a política de combustíveis para a Petrobras.

As bolsas americanas e brasileira chegaram a mostrar alívio com o mercado repercutindo a entrevista do presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky ao canal americano ABC. Ele disse que não vai insistir no pedido de inclusão do país na aliança militar Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o que cumpriria uma das exigências da Rússia para encerrar a invasão.

No entanto, o mercado retomou parte da cautela observada mais cedo diante da percepção de que a situação ainda é “fluida”, segundo a corretora americana Charles Schwab.

Nos Estados Unidos, o índice S&P 500 subia 0,41% e o Nasdaq avançava 0,49% às 17h10. No mercado local, o Ibovespa operava em ligeira alta, em dia muito volátil, com os investidores  aguardando novidades sobre a reunião da equipe econômica com o presidente da Petrobras (PETR4), Joaquim Silva e Luna, nesta terça-feira (8) sobre preços dos combustíveis.

Embargo terá efeito limitado sobre exportações da Rússia

O bloqueio americano e britânico ao petróleo russo tem efeito limitado porque nem Estados Unidos nem Reino Unido são grandes consumidores dos barris produzidos na Rússia

A venda de petróleo e derivados do país representava 8% das importações do Reino Unido e menos de 10% do total importado pelos EUA.

Além disso, a Rússia ainda pode direcionar as exportações para outros mercados, como a China.

Para o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, essas sanções, apesar de poderem encarecer o custo de energia nos EUA, não devem levar o banco central americano, o Federal Reserve, a acelerar a alta da taxa básica de juros. “De um lado pode ter uma pressão na inflação, mas de outro o conflito deve ter impacto no crescimento”, diz Rostagno.

O presidente do Fed, Jerome Powell, disse que estava inclinado a defender uma alta de 0,25 ponto percentual da taxa básica de juros americana na reunião nos dias 15 e 16 de março. “O Fed deve continuar cauteloso em relação ao ciclo de aperto monetário. Não tem necessidade de uma alta mais agressiva”, diz Rostagno.

A expectativa é que outros países da União Europeia adotem sanções à importação de petróleo da Rússia. O país é responsável por quase 40% do gás importado pela União Europeia e 30% das compras de petróleo, aponta o UBS.

A Rússia é hoje o terceiro maior produtor de petróleo do mundo, responsável por 11% da oferta global. Para Rostagno, a possibilidade de acordos internacionais para devolver o petróleo da Venezuela e e do Irã ao mercado e aumentar a oferta seriam insuficientes para substituir as exportações da Rússia, o que deve elevar o preço do petróleo.

“Mesmo assumindo a retirada de sanções da Venezuela e do Irã, esses países não seriam capazes de substituir o petróleo da Rússia até mesmo por dificuldades logísticas da capacidade de portos e de navios para o abastecimento”, diz.

Às 17h20, o preço do barril de petróleo tipo Brent subia 3,74% cotado a US$ 127,82.

Pacote da UE pode beneficiar emergentes

A União Europeia pretende anunciar um plano para emissão conjunta de títulos de dívida dos países membros nesta semana para financiar os gastos com aumento do custo de energia.

Para Rostagno, esse pacote pode beneficiar os mercados emergentes como o Brasil, que oferece uma das maiores taxas de juros real do mundo, e pode atrair investimentos em um ambiente de melhora de aversão a risco.

Por ser um exportador de commodities e estar geograficamente distante do conflito, o Brasil tem sido menos afetado pelo conflito na Ucrânia, com o real acumulando alta frente ao dólar.

Governo discute nova política de combustíveis

O governo brasileiro está buscando soluções para amenizar o impacto da alta do preço do petróleo nos preços dos combustíveis no mercado doméstico e consequentemente na inflação.

O assunto está sendo discutido nesta terça-feira em reunião da equipe econômica, formada pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, da Economia, Paulo Guedes, e de Minas e Energia, Bento Albuquerque, com o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna.

Uma das alternativas seria o congelamento temporário de preços , por um prazo de três a seis meses, cuja diferença para os preços internacionais seria bancada pelo Tesouro, como já foi adotado na época do governo Temer

Em 2018, o governo Temer lançou um programa de subvenção para o diesel, válido por seis meses. Na ocasião, o Tesouro desembolsou, ao todo, R$ 6,8 bilhões para ressarcir a Petrobras e demais agentes por venderem o derivado R$ 0,30 o litro mais barato que o preço de referência – fixado com base no preço de paridade de importação.

Outra opção seria a diferença entre os preços domésticos e internacionais ser bancada pela Petrobras. “A verdade é que não há solução fácil. Se tem, por um lado, uma ingerência na Petrobras, que não é bem vista pelo mercado. Por outro lado, usar a política fiscal para subsidiar os preços dos combustíveis pode piorar a percepção de risco do país, aumento do endividamento”, diz Rostagno.

Com a disparada dos preços no mercado internacional, a defasagem do preço da gasolina no Brasil em relação aos mercados internacionais chega a 26%, e a do diesel a 30%.

Segundo cálculo da XP, se o governo implantar um programa temporário de subsídio dos preços dos combustíveis, acabaria gastando R$ 12 bilhões mensais. O Bradesco calcula que essa diferença para os preços internacionais do diesel e da gasolina pode custar R$ 6 bilhões por mês.

Existem dois projetos de Lei sobre o assunto no Senado, cuja tramitação deve ser retomada nos próximos dias.

O PLP 11/2020, que determina alíquota unificada e em valor fixo para o ICMS sobre combustíveis em todo o país, cuja adoção não seria obrigatória pelos Estados, e o PL 1472/2021, que cria uma conta para financiar a estabilização dos preços dos combustíveis, que tem menos apoio da equipe econômica do governo.

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