Queda na taxa de desemprego é sinal de juros altos por mais tempo – entenda

Índice de desocupados recua para 8,9% no trimestre encerrado em agosto, o patamar mais baixo desde julho de 2015

Foto: Shutterstock

A nova redução da taxa de desemprego no trimestre encerrado em agosto reforça a tese de que a economia brasileira entrou no segundo trimestre mais aquecida do que havia sido previsto anteriormente. Ao mesmo tempo, indica que os juros ficarão altos por mais tempo para trazer a inflação para baixo.

A alta das atividades, o que permitiu o aumento das contratações, recebeu um empurrão das medidas do governo federal para injetar estímulos na economia e cortar impostos. Essa estratégia vai contra o objetivo do Banco Central (BC), que está aumentando os juros para desestimular a economia.

A taxa de desemprego caiu para 8,9% no trimestre finalizado em agosto, menor nível desde julho de 2015 e um desempenho em linha com o esperado por analistas de mercado, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada nesta sexta-feira (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Paulo Duarte, economista-chefe da Valor Investimentos, pontua que o resultado é positivo ao intensificar as apostas de PIB (Produto Interno Bruto) mais alto em 2022. Porém, na outra ponta, as previsões para 2023 são revisadas para baixo diante da expectativa de que a taxa básica de juros siga pressionada ao longo dos próximos meses.

Além do cenário doméstico, há também pressões vindas da economia global. Ao contrário do Brasil, as maiores economias do mundo saíram depois na corrida pela alta dos juros, o que acaba reverberando nas atividades domésticas.

“Como foram dados os estímulos, o Banco Central vai no sentido oposto e mantém os juros altos por mais tempo. O problema da inflação não está resolvido, ainda temos muitos núcleos resilientes. Fora a inflação em todo o mundo. O Brasil não está em uma bolha”, afirma.

Os dados do IBGE também mostraram que o contingente de pessoas ocupadas foi de 99 milhões, batendo novamente o recorde na série histórica, iniciada em 2012. Os dados divulgados nesta sexta-feira corroboram o cenário positivo mostrado pelo aumento de criação de vagas formais em agosto, segundo informações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados nesta quinta-feira (29).

Sem efeitos imediatos na taxa de desemprego

Apesar da expectativa de maiores obstáculos para a economia no próximo ano por causa dos juros altos, Gabriel Ribeiro, analista da Austin Rating, diz que ainda não há sinais de um forte impacto no mercado de trabalho.

O hiato é resultado do tempo que as mudanças nos juros demoram para chegar na ponta. Enquanto políticas fiscais possuem efeitos mais imediatos, as alterações monetárias podem levar até nove meses até serem sentidas.

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Além deste movimento, o analista chama a atenção para os impactos positivos que a desoneração da folha de pagamento para setores da economia, no fim de 2021, e os efeitos da reforma trabalhista, homologada em 2017, para o aquecimento do mercado de trabalho.

“Há de se considerar que os estímulos vão acabar, que isso vai trazer para baixo setores da economia e impactar no desemprego. Mas, por enquanto, não vemos impactos muito relevantes no mercado de trabalho”, afirma.

Seguindo na mesma linha, Duarte afirma que a trajetória da queda do desemprego não deve ser invertida, mas passar por um processo de perda de fôlego. “O Banco Central está ciente disso. Na ata do último Copom, foram expressas preocupações com as pressões de preço [sobre a inflação], mas também sobre a dinâmica de um mercado de trabalho aquecido”, diz.

Em uma visão mais pessimista, Claudia Moreno, economista do C6 Bank, prevê em um primeiro momento a manutenção do índice de desocupação, mas também uma reversão da linha a partir de 2023 com os efeitos da política monetária.

“Nossa expectativa é que a taxa de desemprego continue caindo até o fim do ano, chegando a 8,7%, como efeito defasado da recuperação econômica”, afirma.  “Mas esse sinal positivo deve começar a inverter a partir do ano que vem, quando os efeitos dos juros altos e da desaceleração da economia global vão pesar mais fortemente sobre economia. Projetamos que a taxa de desemprego volte a subir e termine 2023 em 9,5%”.

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