Persio Arida: renúncia de Truss no Reino Unido deve servir de alerta fiscal para o Brasil

O economista, que é um dos pais do Plano Real, alertou que muitos dos gastos extra teto negociados para 2023 serão permanentes

Foto: Shutterstock/FrankHH

Oficializado ontem na equipe de transição do governo Lula pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, o economista Persio Arida afirmou nesta quarta-feira (9) que o termo waiver (licença para gastar) é inadequado para falar sobre as despesas fora do teto de gastos em negociação com o Congresso para 2023.

“Muito do que está sendo falado são aumentos de gastos permanentes, não temporários”, alertou ele, um dos pais do Plano Real, durante participação em evento da Câmara de Comércio França-Brasil. A PEC da Transição, que está em negociação com o Congresso, pode abrir espaço de cerca de R$ 175 bilhões no Orçamento de 2023.

Ao lado de André Lara Resende, Arida forma a ala que é aceita pelo mercado financeiro na equipe de transição para a economia. Durante sua fala no encontro, contudo, ele preferiu não falar sobre as perspectivas para o cenário fiscal nos próximos anos, ponto que vem preocupando os investidores.

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Apesar disso, ele apontou que a renúncia forçada da premiê Liz Truss no Reino Unido, após um pacote fiscal considerado irresponsável, deve servir de alerta para o Brasil. “Estamos vindo de uma política fiscal longe de ser contracionista, temos um teto que tem sido furado todos os anos.”

Na avaliação do economista, a trajetória da taxa básica de juros (Selic), hoje em 13,75% ao ano, dependerá da responsabilidade fiscal do novo governo e do patamar dos juros nos Estados Unidos.

Ele acredita que a taxa americana pode chegar a um patamar tão alto quanto 6% ao ano, cenário que seria ruim para o Brasil. “Estaríamos em situação pior se o Banco Central tivesse tardado em subir os juros”, ponderou.

Arida criticou o governo do presidente Jair Bolsonaro e afirmou esperar que os três pilares defendidos por Lula para o país (credibilidade, previsibilidade e estabilidade) se concretizem.

“Espero que seja norma para a administração pública como um todo, com políticas críveis, previsíveis, que ofereçam garantia. É o que precisamos para estimular investimentos. É uma norma implícita na fala do presidente, e vimos isso de forma desastrosa no governo Bolsonaro.”

Reforma tributária deve avançar

Questionado sobre a aprovação de uma reforma tributária durante o governo Lula, ele declarou que vê boas chances de o tema avançar no próximo governo. A proposta encampada substitui impostos como o ICMS, PIS/Cofins e ISS pelo IVA (Imposto sobre Valor Agregado), e seria implementada ao longo de 10 anos.

“Guedes [o ministro da Fazenda, Paulo Guedes] preferia outra reforma, mas hoje isso tem condições de avançar, sem dúvida”, declarou. “A reforma do IVA parece mais amadurecida hoje, e o Alckmin já falou que isso deve ser prioridade do novo governo. É uma ótima notícia, mas o diabo mora nos detalhes. Será neutra, afetará subsídios tributários?”, lembrou. “Dito isso, acho que a medida seria um enorme avanço.”

Arida defendeu que benefícios como o Auxílio Brasil precisam ser dados, mas ao mesmo tempo ponderou que essa não deveria ser uma solução de longo prazo. “Os auxílios precisam ser dados, essa é a maneira de atender o reclame da sociedade por igualdade, condições de vida minimamente decentes. Mas a solução de longo prazo é a educação, esse é o caminho.”

Potencial de crescimento

Para o economista, o Brasil tem potencial de conseguir crescer bem acima da média dos últimos anos.

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“Essa questão é importante. Um PIB potencial de 1% é um ´pibinho´, e as reformas são o caminho. Se olharmos o Chile, por exemplo, nos últimos 20 anos sempre cresce mais que o Brasil. A reforma tributária e a abertura da economia certamente melhorarão as oportunidades nesse sentido, e a entrada de capital estrangeiro também ajuda.”

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