Um dia antes do feriado de 12 de outubro, o Ibovespa seguiu seus pares do exterior, onde a cautela diante de temores de inflação, alta de juros e recessão seguiu tomando conta, e fechou o pregão desta terça-feira (11) em baixa de 0,96%, aos 114.827 pontos. Foram R$ 22,3 bilhões em volume negociado.
A queda de hoje não foi suficiente para apagar os ganhos acumulados desde o início do mês, e o saldo do Ibovespa no mês de outubro agora é de 4,35%. O acumulado de 2022 soma valorização de 9,54%.
Inflação, juros e recessão no radar
As Bolsas estrangeiras tiveram performance parecida. Em Nova York, o S&P 500 teve baixa de 0,65% e o Nasdaq caiu 1,1%, enquanto o Dow Jones subiu 0,12%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou com perdas de 0,49%.
Mais uma vez, o mercado adota uma postura de aversão ao risco diante de temores de inflação, alta de juros e recessão global, além da expectativa pelo início da temporada de balanços do terceiro trimestre nos Estados Unidos, que começa no fim da semana.
Nos EUA, o mercado também aguarda a divulgação do índice de preços ao produtor (IPP), na quarta (12), e do índice de preços ao consumidor (IPC) na quinta-feira (13). Como o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) já indicou que sua prioridade no momento é combater a inflação, o indicador deve ajudar a sinalizar até que ponto a alta dos preços americanos está cedendo de fato, ou se uma dose ainda maior de juros será necessária.
Por aqui, enquanto isso, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de setembro registrou queda de 0,29%, na terceira deflação consecutiva, movimento que não acontecia desde o período entre julho e setembro de 1998, quando o país enfrentava uma recessão.
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O recuo do indicador, porém, veio menor do que o esperado pelo mercado – analistas ouvidos pelo Broadcast acreditavam em uma queda de 0,32% – e mostra perda de ritmo do processo de deflação. Em julho, a queda foi de 0,68%, e em agosto, de 0,36%.
A divulgação mexeu com a curva de juros brasileira. “A curva de juros voltou a abrir diante de um momento pessimista no curto prazo. É provável que os juros não caiam tão rápido quanto o mercado esperava, podendo começar a recuar, de forma gradual, a partir do meio de 2023″, avalia o hed de renda variável da SVN Investimentos, André Luzbel.
Varejistas sentem impacto
Neste cenário, empresas ligadas aos juros, como as varejistas, tecnologia e turismo, tiveram um dia de queda, acompanhando o movimento de alta na curva.
A queda dos pesos-pesados Vale e Petrobras também não jogou a favor do Ibovespa nesta terça-feira.
O movimento da Vale (VALE3), que fechou em baixa de 0,68%, acompanha uma desvalorização do minério de ferro no mercado externo. O contrato futuro da commodity recuou 2,50% em Dalian, na China, cotado a US$ 100,50 por tonelada. Um possível novo surto de Covid-19 no gigante asiático estremeceu os mercados por lá.
Os preços do petróleo, por sua vez, caíram devido ao temor de que o mundo caminhará para uma recessão e, consequentemente, a demanda diminua. O Brent teve baixa de 1,97%, a US$ 94,29 por barril. Assim, as ações ordinárias da estatal (PETR3) tiveram baixa de 0,97%, e as preferenciais (PETR4) caíram 0,75%.
As empresas de saúde caíram em bloco, com destaque para Qualicorp (QUAL3) e SulAmérica (SULA11), com recuos de 5,57% e 3,84%, respectivamente. Embora não seja novidade para o mercado, as ações são pressionadas pelo avanço da PEC da enfermagem no legislativo, de acordo com analistas da Ativa Research.
Braskem dispara
As ações da Braskem (BRKM5), por outro lado, dispararam 20,4%. De acordo Luzbel, o movimento ocorre após rumores de que a gestora americana Apollo fez uma nova investida na companhia.
A informação veio do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Segundo ele, a oferta da gestora, que seria de R$ 50 por ação, fecharia o capital da petroquímica na B3 e abriria na Bolsa de Nova York.
A última proposta feita pela Apollo girava em torno de R$ 40, ou 25% menor que a suposta nova oferta. Vale ressaltar que atualmente, as ações da Braskem são negociadas por R$ 31,50.
Em agosto, o jornal Valor Econômico divulgou que a Braskem teria três interessados: BTG Pactual, a Unipar e a Apollo. Posteriormente, em setembro, surgiu o boato de que holding de investimentos J&F, dona da JBS (JBSS3), estaria avaliando fazer uma proposta para a compra da totalidade da Braskem. A companhia petroquímica negou qualquer negociação na ocasião.
Em outra frente, Raízen (RAIZ4) subiu 6,62%, Rumo (RAIL3) ganhou 4,22% e Cosan (CSAN3) subiu 1,69%. A última, vale ressaltar, chegou a acumular uma baixa de mais de 10% nos dois últimos pregões após anunciar que pretende comprar uma fatia da Vale.
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A Cosan afirmou que pretende comprar 4,90% do total de ações ordinárias da mineradora por meio de uma combinação de investimentos diretos e operação de derivativos. Essa fatia representa aproximadamente R$ 17,7 bilhões, dado valor de mercado da Vale no fechamento de pregão da sexta-feira (7).
“O montante equivale a 56% do valor de mercado total da Cosan. Um desembolso de mais da metade do próprio valor da empresa é algo que assusta os investidores”, ressalta o analista CNPI da Agência TradeMap Sérgio Castro, em análise.
Criptomoedas
O Bitcoin (BTC) segue na luta para se manter acima de US$ 19 mil antes da divulgação da ata da última reunião do Fed (o banco central americano), que deve apresentar mais pistas sobre os próximos rumos da alta dos juros após o aumento de 0,75 ponto percentual.
Nesta quarta-feira, ainda serão divulgados informações de inflação ao produtor americano (PPI, na sigla em inglês), enquanto na quinta-feira saem números da variação de preços ao consumidor (CPI). Os dados devem mostrar se a recente escalada da política monetária já está impactando na queda dos preços.
Diante deste contexto, por volta das 16h50, o BTC tinha alta de 0,4%, negociado a US$ 19.246, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap. Já o Ethereum (ETH) registrava avanço de 1,2%, vendido a US$ 1.302.
“Para o investidor, é necessário paciência e cautela, pois o mundo vive um momento macroeconômico que há muito tempo não se via, ou seja, um processo de contratação nas condições financeiras, em um ambiente acostumado com a abundância de liquidez, com taxa de juros negativas e majoritariamente movido a incentivos econômicos”, ressalta Ayron Ferreira, analista chefe da Titanium Asset Management.