A inflação e a taxa de juros altas no Brasil, somadas ao baixo crescimento da economia e à queda da renda familiar, vão prejudicar as margens das empresas de varejo do país, e três delas podem ser particularmente afetadas por este cenário, segundo a agência de classificação de risco Fitch Ratings.
Das 16 empresas de varejo cobertas pela Fitch, a agência vê o Burger King Brasil (BKBR3), a C&A (CEAB3) e a Guararapes (GUAR3) (dona da Riachuelo) como as mais vulneráveis e sujeitas a rebaixamento do rating de crédito, a nota que determina se uma empresa é boa pagadora de dívidas.
“Os ratings destas empresas estão em perspectiva negativa, refletindo o desafio que elas possuem de fortalecer a geração de caixa e a rentabilidade, a fim de restabelecer os índices de alavancagem em patamares compatíveis com as atuais classificações”, diz a Fitch em relatório.
Os ratings da Americanas (AMER3), Mercado Livre (MELI34), Assaí (ASAI3), Companhia Brasileira de Distribuição (PCAR3), Centauro (CNTO3), Espaço Laser (ESPA3), Grupo Mateus S.A (GMAT3) e Raia Drogasil (RADL3) estão em perspectiva estável. “Estas empresas apresentam perfis de negócios mais estáveis ou/e métricas de crédito mais fortes frente às margens de elevação/rebaixamento de seus ratings”, destaca a Fitch.
Empresas do setor farmacêutico, como a Farmácia e Drogaria Nissei e a Empreendimentos Pague Menos (PGMN3), devem ser mais resistentes ao cenário atual, porque o setor em que atuam é menos afetado por períodos de turbulência econômica.
A Smart Fit (SMFT3) é outra empresa cujo rating tem uma perspectiva mais positiva, sustentado pela forte posição de liquidez da companhia após a oferta pública de ações ocorrida em 2021, ainda que a recuperação dos negócios precise ser testada antes de uma nova elevação da nota de crédito, diz Fitch.
A Fitch classifica a Inbrands e a Restoque Comércio e Confecção de Roupas (LLIS3) como ‘RD’ – nota atribuída a empresas que estão inadimplentes -, dada a limitada capacidade de ela honrar suas obrigações financeiras atuais, a expectativa de fluxos de caixa negativos, a reduzida posição de liquidez e o acesso limitado a novas fontes de financiamento.
Pressão sobre varejo deve continuar
A Fitch acredita ser improvável a reversão das condições macroeconômicas do país a curto prazo, o que implica em aumento das pressões no perfil de crédito de diversas varejistas, particularmente das mais expostas ao consumo discricionário, como as dos segmentos de vestuário e de bens de consumo duráveis.
A demanda no varejo alimentar, segundo a Fitch, é mais resiliente e deve apresentar resultados mais favoráveis que os dos pares que atuam nos segmentos discricionários. No entanto, o acirramento da competição neste segmento deve limitar o repasse dos aumentos de custos para os preços, e os tíquetes médios mais baixos também devem contribuir para uma rentabilidade menor dos negócios.
O segmento farmacêutico deve continuar se favorecendo de sua característica anticíclica e do reajuste de preços já aplicado em 2022, de 10,9%, o que deve trazer maior proteção à geração de caixa operacional das companhias.
“As pressões inflacionárias nas estruturas de custos e nas despesas das companhias, principalmente as relacionadas a ocupação e pessoal, devem se manter presentes, pressionando as margens operacionais das varejistas”, destaca a Fitch, que estima que, em 2022, o crescimento do PIB seja de 0,5% e que a inflação atinja 6,5% ao final do ano.
A Fitch espera aumento do custo financeiro das dívidas, devido à elevação das taxas de juros do país e ao crescimento do saldo de dívidas nos últimos dois anos, para financiar as eventuais queimas de caixa ocorridas durante o período de interrupção dos negócios na pandemia, além de geração e caixa menor
Planos de investimento para expansão e para o desenvolvimento das plataformas de e-commerce também devem impactar os fluxos de caixa livre das companhias, gerando aumento da alavancagem e maiores necessidades de liquidez.
Por outro lado, o ambiente de oferta de crédito no Brasil permanece favorável, e deve limitar maiores riscos de refinanciamento ao longo de 2022, segundo a Fitch.
“O bom perfil de liquidez da maior parte das varejistas permanece um importante fator de suporte aos ratings, apesar da expectativa de fluxos de caixa mais pressionados este ano”, destaca a Fitch.