Bolsa cai pressionada por siderúrgicas e rumores de mudança na meta da inflação; Azul (AZUL4) desaba

Alteração pode ser oficializada na próxima reunião do CMN, agendada para a semana que vem

Foto: Shutterstock/Immersion Imagery

O Ibovespa voltou a fechar em queda nesta quinta-feira (9), pressionado pelo recuo em bloco de siderúrgicas e rumores de mudança na meta de inflação.

Diante dessas pressões, o principal índice da Bolsa brasileira caiu 1,77%, aos 108.008 pontos e R$ 18,70 bilhões em volume negociado, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap.

Com este desempenho, o Ibovespa acumula queda de 4,78% em fevereiro, enquanto a desvalorização desde o início do ano é de 1,57%.

Metas de inflação no radar

O dólar e os contratos de juros futuros dispararam diante da possibilidade de o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, ceder nas metas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2023.

Segundo informações da CNN, o BC havia indicado ao governo federal aumentar a meta da inflação em 0,25 p.p (ponto percentual), passando de 3,25% para 3,50%.

A mudança pode ser aprovada na próxima reunião do CMN (Conselho Monetário Nacional), que será realizada no dia 16 de fevereiro. Além de Campos Neto, integram o colegiado o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet.

A sinalização ocorre em meio às fortes críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à condução da política monetária, o que tem gerado estresse nos ativos brasileiros nos últimos dias.

Com isso, a moeda americana fechou o dia em alta de 1,59%, negociado a R$ 5.27. Os contratos de juros futuros mais longos também tiveram aumento expressivo nas taxas. Os prêmios dos DIs com vencimento em 2026 subiam 25 p.p, a 13,03%, enquanto os de papéis com prazo em 2029 avançaram 34 p.p, a 13,45%.

Segundo Rodolfo Carneiro, especialista da Valor Investimentos, a mudança sinalizada pelo BC acende um alerta, mas ainda é precipitado interpretar que a autoridade monetária está cedendo às pressões do governo federal.

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“Ainda é pouco para interpretar se [o BC] vai realmente ceder ao apelo do atual presidente ou se é uma pequena alteração para ajustar melhor a meta diante do que pode ser feito”, diz Carneiro.

A alta dos juros prejudicou empresas sensíveis à economia doméstica. A Azul (AZUL4) liderou as perdas do Ibovespa com tombo de 11,85%, enquanto o Grupo Soma (SOMA3) recuou 8,81% e Petz (PETZ3) desvalorizou 6,63%.

No caso da Azul, outro fator contribuiu para essa queda. Segundo a Airfinance Journal, a empresa contratou o escritório americano Seabury Capital e a equipe de advocacia da Weil, Gotshal & Manges para assessorar sobre uma possível reestruturação financeira.

Siderúrgicas caem em bloco

Empresas do setor de metalurgia e siderurgia caíram de forma generalizada na sessão desta quinta-feira, repercutindo as mudanças de recomendações dos papéis da Gerdau (GGBR4), que encerrou o pregão em queda de 7,93%.

O Goldman Sachs rebaixou a recomendação de compra para neutra, assim como o preço-alvo, que passou de R$ 38 para 31, 8,12% acima do fechamento desta quinta (R$ 28,67).

De acordo com os analistas da instituição, existe uma expectativa de dificuldade econômica nos seus principais mercados e a possibilidade de remuneração mais baixa aos acionistas.

Em relatório, os analistas Marcio Farid, Gabriel Simoes e Henrique Marques ressaltam que a combinação de enfraquecimento de lucratividade nos Estados Unidos e Brasil, os principais mercados da companhia, juntamente com o aumento de capex, limitará a capacidade da empresa de devolver dinheiro aos acionistas.

Além do Goldman, o J.P Morgan também rebaixou a recomendação da Gerdau após as altas vistas no papel nos últimos tempos.

No mesmo grupo, Metalúrgica Gerdau (GOUA4) perdeu 7,81%, enquanto Usiminas (USIM5) e CSN (CSNA3) caíram 2,37% e 1,27%, nesta ordem.

As quedas ocorreram mesmo com a valorização do minério de ferro no mercado internacional. No porto de Dalian, a tonelada da commodity subiu 2,62%, cotada a US$ 127,31.

O pregão também foi pressionado pela queda dos papéis de instituições financeiras, como a BB Seguridade (BBSE3), holding de seguros do Banco do Brasil, que recuou 5,18%.

Nesta manhã, a companhia divulgou seu balanço do quarto trimestre de 2022 com um lucro líquido de R$ 1,8 bilhão no período, o que representa um avanço de 47,3% na comparação com o mesmo intervalo de 2021.

Além disso, a seguradora divulgou as projeções para 2023. Para o resultado operacional não decorrente de juros, ou seja, sem contar as holdings, a expectativa é crescer entre 12% e 17%.

O analista CNPI da Agência TradeMap, Jader Lazarini, destacou, em análise, que o banco foi mais conservador nas projeções para este ano, e diminuiu as estimativas de crescimento percentual nas três verticais.

No mesmo setor, Itaú (ITUB4) perdeu 2,48%, enquanto Bradesco (BBDC4) – que vai divulgar os dados do quarto trimestre após o fechamento do pregão – perdeu 2,54%, e o BTG Pactual (BPAC11) recuou 2,22%.

Marisa despenca

Fora do Ibovespa, as ações da Marisa (AMAR3) despencaram 22,64% nesta quinta-feira. Na véspera, a varejista informou a contratação da BR Partners para ajudar na renegociação do endividamento financeiro, além da Galeazzi Associados para apoiar o aperfeiçoamento da estrutura de custos.

Em meio à turbulência financeira, a Marisa também afirmou que o presidente-executivo, Adalberto Pereira Santos, deixou a companhia. Para o seu lugar foi apontado o vice-presidente comercial, Alberto Kohn de Penhas.

Altas do dia

A ponta positiva teve participação de empresas expostas ao papel e celulose, que tendem a se valorizar com a alta da moeda americana. A Suzano (SUZB4) teve alta de 0,76%, enquanto a Klabin (KLBN11) ganhou 0,36%.

No caso da Klabin, a empresa divulgou ontem o balanço do quarto trimestre de 2022. O lucro líquido da empresa caiu 25% no período em relação a um ano antes, para R$ 790 milhões, refletindo a queda no volume de vendas.

Ainda no grupo de altas, Pão de Açúcar (PCAR3) puxou a fila com ganho de 1,49%, seguida por Natura (NTCO3), com 1,46%, e WEG (WEGE3), que ganhou 0,85%.

Bolsas globais e criptos

Os principais mercados globais operaram em alta no começo dia, mas inverteram com o temor de recessão global, após sinais de que os juros americanos vão precisar subir mais do que o previsto para controlar à inflação.

Em Wall Street, o Dow Jones perdeu 0,73%, o S&P 500 caiu 0,88% e a Nasdaq desvalorizou 1,02%. Na Europa, o Euro Stoxx 50 subiu 0,97%.

Os investidores também digeriram dados positivos de grandes empresas americanas. O lucro líquido da Disney foi de US$ 1,28 bilhão, uma leve alta em comparação com os US$ 1,1 bilhão vistos um ano antes. A receita aumentou 8% no mesmo comparativo, para US$ 23,51.

A Uber, por sua vez, teve uma receita 49% maior no trimestre em relação ao ano anterior. A companhia teve um lucro líquido de US$ 595 milhões, queda de 33% na comparação com o mesmo período em 2021.

Seguindo o mesmo caminho negativo das Bolsas, o mercado de criptoativos teve mais um dia no vermelho.

Por volta de 16h55, o Bitcoin (BTC) perdia 2,93% em relação as últimas 24 horas, negociado a US$ 22,2 mil. Já o Ethereum (ETH) teve queda 0,64%, a US$ 1,63 mil.

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