A Bolsa brasileira teve mais um dia de perdas nesta terça-feira (3), seguindo o clima negativo dos mercados globais e ainda sob pressão dos primeiros passos dados pelo novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O movimento de queda teve forte influência dos bancos diante dos desafios para a economia brasileira nos próximos meses, que podem refletir no aumento da inadimplência e reduzir o apetite dos investidores.
Já a ponta positiva foi protagonizada pela disparada da Qualicorp (QUAL3), após a divulgação de mudanças na sua organização e no conselho.
Diante dessas pressões, o principal indicador da Bolsa brasileira encerrou o segundo pregão do ano em queda de 2,08%, aos 104.166 pontos e volume negociado de R$ 19,94 bilhões.
O resultado faz o Ibovespa registrar queda de 5,07% nas duas primeiras sessões do ano, segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap.
Temor com risco fiscal segue no radar
Assim como no primeiro pregão do ano, os investidores seguem analisando os primeiros sinais do novo governo e as mudanças anunciadas para as regras fiscais e a gestão de estatais.
Na cerimônia de posse ocorrida no domingo (1), o presidente Lula declarou em discurso ao Congresso que o novo governo fortalecerá bancos públicos e estatais. Somado a isso, o Planalto publicou um decreto ontem que retirou algumas estatais do programa de privatizações.
Ainda no noticiário político, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, disse nesta terça-feira que o governo deve corrigir o erro que saiu na Medida Provisória 1154, publicada em 2 de janeiro, que trouxe insegurança para o setor de saneamento.
Na MP, o governo alterou o artigo 3 da Lei que criou a ANA (Agência Nacional de Água e Saneamento Básico), retirando a menção “saneamento” da agência, transferindo-a do Ministério de Desenvolvimento Regional para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança de Clima.
“O trecho que gera mal-estar deve ser corrigido”, disse Galípolo em entrevista à Globonews, afirmando ainda que houve um erro na publicação.
O mercado também digeriu os nomes indicados para assumir o Banco do Brasil (BBAS3) e a Petrobras (PETR4; PETR3). Para o banco estatal, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, nomeou Tarciana Medeiros para o posto máximo da instituição. Já a petrolífera será comandada pelo senador e economista Jean Paul Prates, do PT do Rio Grande do Norte.
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Segundo Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil Investimentos, o mercado teme que as empresas públicas sejam usadas para manobras políticas do novo governo, deteriorando a autonomia e as práticas que as estavam deixando mais eficientes.
O temor fez o papel preferencial da Petrobras cair 2,53%, enquanto as ações ordinárias tombaram 1,41%. O Banco do Brasil, por sua vez, recuou 1,86%.
Bancos e varejistas caem
O temor de agravamento com a situação econômica nos próximos anos também levou para baixo ações de bancos. O BTG Pacutal (BPAC11) perdeu 4,69%, enquanto o Bradesco (BBDC4) recuou 4,96%.
Além do fator econômico, as ações do Bradesco foram prejudicadas pelo anúncio na véspera de uma série de mudanças no organograma e no segmento de alta renda, conhecido como wealth management.
O Bradesco criou também uma vice-presidência para tratar da experiência do consumidor. O cargo será ocupado por José Ramos Rocha Neto, diretor da instituição com mais de 20 anos de banco.
Empresas mais sensíveis à economia doméstica também voltaram a cair. A Méliuz (CAHS3) liderou as quedas do dia, com perda de 11,48%, Locaweb (LWSA3) perdeu 6,85%, enquanto PRIO (PRIO3) e Alpargatas (ALPA4) perderam 6,69% e 6,49%, respectivamente.
“Os bancos também ajudam a puxar o índice para baixo com um cenário econômico mais desafiador, que deve aumentar a inadimplência, e reduzir o apetite para o risco e, consequentemente, a tomada de crédito, os quais pelos mesmos motivos as varejistas caem forte, com uma inflação mais elevada, e menor perspectiva de consumo”, afirmou Alves.
Qualicorp (QUAL3) destoa e dispara
A ponta positiva foi liderada com folga pela Qualicorp (QUAL3), com avanço de 7,61%. O movimento reflete o anúncio da companhia na noite de ontem de que realizou algumas mudanças no seu comando e conselho.
A plataforma de planos de saúde anunciou que Elton Carluci será o novo diretor-presidente (CEO) da companhia. Carluci, que atua na empresa há mais de 20 anos, ocupava até então o cargo de vice-presidente comercial, inovação, novos negócios e tecnologia.
Ele ocupará a vaga de Bruno Blatt, que estava no posto desde 2019 e renunciou ao cargo. Somado a isso, a empresa recebeu os pedidos de renúncia de outros membros do conselho de administração.
Ademais, a Rede D’Or (RDOR3) informou que passará 19,85% do pedaço de 25,85% que possui na Qualicorp para a Prisma Capital. A gestora será a titular dessa participação pelos próximos seis anos. No comunicado, a empresa disse ainda que criará uma sociedade detida 100% pela Rede D’Or, denominada “PrismaQuali Gestão Ativa de Participações”.
Entre as que subiram, também estão Embraer (EMBR3), com avanço de 1,89%, Suzano (SUZB4), que subiu 1,78% e Klabin (KLBN11), com alta de 0,35%.
Mercado global e criptos
A maior parte das Bolsas internacionais tiveram hoje o primeiro dia de pregão após o recesso de ano novo. A estreia, porém, não foi positiva, com queda generalizada em Wall Street.
O Dow Jones caiu 0,03%, enquanto o S&P500 retraiu 0,40% e a Nasdaq perdeu 0,76%. No outro lado do Atlântico, o Euro Stoxx 50 subiu 0,82%.
Investidores aguardam a divulgação do relatório do mercado de trabalho (JOLTS), além da ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Ambos serão divulgados nesta quarta-feira (4).
Impactados pelas baixas em Nova York, os criptoativos tiveram um dia sem grandes movimentações, com os investidores à espera da divulgação dos novos dados da economia americana.
Por volta das 17h, o Bitcoin (BTC) – que completou 14 anos nesta terça-feira – tinha alta de 0,80% em comparação as últimas 24 horas, negociado a US$ 16.739. Já o Ethereum (ETH) subia 0,72%, a US$ 1.216, conforme dados disponíveis na plataforma TradeMap.