Após maior queda desde 2008, bolsas americanas oferecem oportunidades, mas é preciso ser seletivo

Ações do setor de energia continuam como boa aposta no mercado de ações lá fora, enquanto big techs exigem maior seletividade

Foto: Shutterstock/Stuart Monk

Depois da forte queda das bolsas americanas, que em 2022 registraram a maior perda desde a crise financeira de 2008, o mercado de ações internacional começa a oferecer oportunidades de compra, principalmente de papéis que estão descontados em relação à média histórica. Mas o investidor brasileiro terá que ser seletivo na escolha dos ativos.

Com as taxas de juros subindo lá fora e devendo permanecer em patamar elevado até o fim de 2023, a preferência de analistas e gestores continua sendo por empresas geradoras de caixa, pouco alavancadas e que dependem menos de investimentos para crescer.

A renda fixa lá fora também oferece boas oportunidades. Contudo, com o Brasil pagando a maior taxa de juros real do mundo, é preciso ficar atento para ver esse investimento vale a pena.

Apesar de boa parte do cenário de recessão econômica, principalmente na Europa e Estados Unidos, já estar refletida nos preços dos ativos, o UBS não descarta uma queda maior da Bolsa americana, prevendo um recuo de 5% do lucro das empresas do S&P 500 em 2023.

O banco projeta que o índice S&P 500 deverá alcançar 3.700 pontos em junho, o que implicaria queda de 3,6%  em relação a 30 de dezembro de 2022.

tabela com o desempenho das bolsas em 2022

Goldman Sachs e Morgan Stanley também preveem a continuidade do bear market (mercado em tendência de baixa) nos Estados Unidos em 2023. O primeiro projeta o S&P 500 em 4.000 pontos ao fim de 2023, e o segundo, em 3.900 pontos, o que implica altas de 4,2% e 1,6%, respectivamente, frente ao patamar do último pregão de 2022.

“Acho que não teremos uma queda das bolsas na magnitude vista” em 2022, diz Marcelo Karvelis, chefe de investimentos da Avin Asset, gestora do fundo Avin Global Equities.

No caso da Europa, o ciclo de alta de juros, a expectativa de recessão econômica e a continuidade da guerra na Ucrânia devem afetar as empresas com receitas mais concentradas no continente.

Contudo, pode haver algumas oportunidades interessantes de compra de ações de multinacionais listadas nesse mercado, avalia Gustavo Aranha, sócio e diretor de distribuição da GeoCapital, gestora de fundos de ações globais.

Já a China, apesar de flexibilizar as medidas de contenção da Covid-19, deve continuar mostrando desaceleração econômica e ainda deve enfrentar problemas no setor imobiliário, o que torna o investimento no mercado de ações chinês mais arriscado.

“A China é pouco transparente sobre essa política de Covid e não sabemos se a crise no setor imobiliário é grande ou não, além de o governo chinês ser muito centralizador”, diz Karvelis.

Setor de energia continua atrativo em 2023

O setor de energia foi um dos que apresentaram melhor desempenho nas bolsas lá fora.

Entre os BDRs (Brazilian Depositary Receipts ou recibos de ativos listados no exterior) negociados na B3, os de empresas ligadas à cadeia de óleo e gás lideraram os ganhos em 2022.

tabela com BDRS que mais subiram em 2022

A expectativa é que esse setor continue atrativo em 2023, dada a continuidade do desequilíbrio entre oferta e demanda.

“Acredito que esse setor deve continuar indo bem, a não ser que tenha recessão global grande, o que não é nosso cenário-base”, diz Karvelis.

Outro setor que oferece oportunidades interessantes na visão de Karvelis é o de saúde, que engloba empresas farmacêuticas, de biotecnologia, e cuidados com o bem-estar.

Na B3, o investidor brasileiro pode investir nesse setor através do fundo de índice listado na Bolsa (ETF, Exchange-Traded Fund) HTEK11, composto por 50 empresas do segmento farmacêutico e biomedicina.

Há também BDRs de empresas como HCA Healtcare (H1CA34), provedora de serviços médicos, e da Encompass Health Corp (E2HC34), maior operadora de rede de hospitais de reabilitação dos EUA.

Também é possível investir nessas ações via fundos voltados a ativos no exterior.

“Essas empresas de saúde e bem-estar têm uma perspectiva positiva diante do envelhecimento da população, que vai demandar mais esses serviços”, diz Karvelis.

Big tech estão baratas, mas nem todas são interessantes

No caso das ações do setor de tecnologia, após o tombo verificado em 2022, há empresas que estão com indicadores de preço – também chamados de múltiplos – atrativos e começam mostrar oportunidade de compra.

É o caso, por exemplo, da Alphabet (GOGL34), controladora do Google, que negocia abaixo da média histórica

A ação da Alphabet negociava, em 20 de dezembro, a um múltiplo preço sobre o lucro projetado para 12 meses de 17,41 vezes, abaixo do patamar de março de 2020 em plena pandemia, de 18,8 vezes.

A empresa é líder no setor, gera caixa e deve se beneficiar do uso de inteligência artificial, diz Karvelis.

De forma geral, a gestora está com uma posição underweight (abaixo da média do mercado) em ações de tecnologia, concentrada em grandes nomes como Apple (AAPL34), Microsoft (MSFT34), Amazon (AMZO34) e Google.

“Gostamos mais de Google, na qual temos uma posição acima da média do mercado, do que de Amazon, que vemos como mais sensível ao cenário de recessão”, diz Karvelis.

A alta da taxa de juros e da inflação nos Estados Unidos tem penalizado desde o início de 2022 empresas de crescimento, que geram menos receita no presente e são mais dependentes de investimentos para crescer, como a Meta (M1TA34) e a Tesla (TSLA34).

Contudo, o tombo no mercado americano também trouxe oportunidade de compra em papéis de empresas dominantes nos seus setores e que antes estavam caras.

É o caso da Berkshire Hathaway (BERK34), holding de investimento de Warren Buffett, da Visa (VISA34), Microsoft (MSFT34) e da farmacêutica Moderna (M1RN34), aponta Aranha, GeoCapital.

“Com os juros baixos tudo subia. Agora com o capital mais caro, o nome do jogo é seletividade”, diz Aranha.

Multinacionais europeias que têm a geração de receita em outros países, como a empresa de bebidas Diageo (DEOP34), a de reserva de hotéis Booking (BKNG34) e o conglomerado de marcas de luxo LVMH também são interessantes, segundo Aranha.

“Essas empresas possuem modelos de negócios resilientes e são dominantes nos setores que atuam, que é o que buscamos na gestora”, diz Aranha.

Fim de alta de juros traz oportunidade em ações de consumo

A interrupção do ciclo de alta de juros pelo banco central americano (Fed, Federal Reserve), esperada para ocorrer no primeiro semestre de 2023, pode trazer oportunidade de alocação em ações que estavam sofrendo com o aperto monetário, por exemplo, do setor de consumo discricionário.

“Quando a economia americana estiver de fato em recessão e o mercado começar a vislumbrar um horizonte para o Fed cortar juros, pode ser um bom momento de entrada nesses papéis”, diz Karvelis.

Entre as ações desse setor na carteira da Avin, Karvelis cita a empresa de cosméticos Bath & Body Works (B1BW34).

Ativos de renda fixa estão atrativos no exterior

Com a alta de juros lá fora, os ativos de renda fixa também estão interessantes para alocação, afirma Igor Cavaca, chefe de gestão de investimentos da Warren Investimentos.

Ele afirma que que empresas com baixo risco de calote (high grade) estão pagando retornos atrativos nos EUA.

Segundo o diretor de alocação da Julius Baer Family Office Julio Ferreira, é possível comprar títulos de renda fixa com baixo risco de crédito pagando 5% a 6% ao ano em dólar.

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