Americanas (AMER3) despenca 77% e vai de maior alta à principal queda de 2023 – entenda o caso

Investidores reagiram com pânico ao anúncio de rombo contábil de R$ 20 bilhões e à saída de Sergio Rial da presidência

Beatriz Cutait

Beatriz Cutait

Foto: Shutterstock/thiago bacelar

O pregão desta quinta-feira (12) prometia fortes emoções mesmo antes de começar e cumpriu as expectativas com louvor. Teve pânico, incredulidade e muitas dúvidas de investidores.

Isso porque, na noite de quarta (11), a Americanas (AMER3) surpreendeu o mercado e divulgou um fato relevante informando a descoberta de inconsistências contábeis da ordem de R$ 20 bilhões, o valor de mercado de uma companhia como Magazine Luiza (MGLU3) na Bolsa. Ao mesmo tempo, anunciou a saída do recém-empossado diretor-presidente, Sérgio Rial.

Enquanto investidores digeriam as notícias e buscavam mais informações sobre o rombo, Rial participou de uma teleconferência promovida pelo BTG para dar mais cor ao tema. Nela, o executivo afirmou que percebeu, ao assumir o cargo, que havia problemas no reporte de itens na conta “fornecedor” no balanço da companhia.

Rial, que deixou a presidência do Santander Brasil em 2022, disse que muitos pagamentos a fornecedores que eram financiados por bancos não eram considerados como dívida. “É um tema que permanece desde a década de 1990″, afirmou.

Os bancos parceiros da Americanas passaram a financiar, com deságio, os fornecedores da varejista, que, por sua vez, arcava com os custos da transação junto às instituições. Essas contas de R$ 20 bilhões são, portanto, um passivo e deveriam ser contabilizadas nas dívidas bancárias da empresa, e não na conta de fornecedores.

Dessa forma, o endividamento real da Americanas é substancialmente maior do que o reportado nas linhas dos últimos balanços. Com isso, Rial disse que a companhia terá de levantar capital para se manter solvente e que será na casa de bilhões de reais.

Ações da Americanas fecham em queda de 77,33%

As ações da Americanas passaram grande parte do pregão em leilão, diante da forte pressão vendedora. Quando finalmente entraram em negociação, por volta das 14h25, os papéis despencavam mais de 70%.

Os papéis fecharam o pregão em queda de 77,33%, cotados a R$ 2,72 (antes os R$ 12 da véspera). Com isso, a empresa perdeu R$ 8,4 bilhões em valor de mercado, o equivalente ao tamanho de uma Minerva na B3.

Se até quarta-feira (11) as ações lideravam as altas do Ibovespa no ano ao subirem 24,3%, com o movimento de hoje, passaram a acumular queda de 71,8% em 2023.

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E o efeito da Americanas nesta quinta se espalhou por outras varejistas e empresas ligadas de certa forma ao e-commerce. As ações da Méliuz (CASH3) caíram 5,83%, as da Via (VIIA3), 5,39%, e os papéis da Cielo (CIEL3) perderam 2,94%. Na direção oposta, depois de chegarem a entrar em leilão, as ações de Magazine Luiza (MGLU3) fecharam com a maior alta do Ibovespa, de 5,28%.

Alavancagem financeira da Americanas deve aumentar

Para Sergio Castro, analista com certificação CNPI do TradeMap, diante do exposto, a Americanas pode ter sérios problemas de endividamento.

O patrimônio líquido, que representa todos os valores que os sócios possuem na empresa, era de R$ 14 bilhões em setembro. “A empresa não teria capacidade em arcar com uma dívida de R$ 20 bilhões nem se vendesse todo patrimônio”, afirmou Castro.

Tanto Castro quanto Jader Lazarini, também analista CNPI do TradeMap, mostram preocupação com a alavancagem financeira – a relação entre a dívida líquida e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da empresa. O indicador era de 1,7 vez ao fim do terceiro trimestre e, com a revelação do rombo contábil, é muito maior do que o reportado.

Lazarini ressalta que o Ebitda de 12 meses até setembro, que era de R$ 2,1 bilhões, foi inflado pela má contabilização de recebíveis. Portanto, de um lado, a dívida é maior e, de outro, o Ebitda é menor, o que explica a chamada de capital defendida por Rial.

“Para recalibrar as contas e entrar no eixo novamente, a empresa vai precisar de capital.”

Movimento antecipado na B3

Nem todo investidor ficou frustrado, contudo, com o tombo das ações da Americanas. Há quem possa ter se beneficiado da baixa, caso de especuladores que apostavam na desvalorização dos papéis.

Com investidores de olho na piora do cenário macroeconômico e na concorrência no segmento, o total de posições de empréstimo em aberto em AMER3 mais que dobrou em um ano até terça-feira (10). E na quarta (11), antes mesmo de a empresa revelar o rombo contábil, o volume subiu em 7,3%.

É um fato no mínimo curioso: o volume de negociação dos papéis da varejista na quarta-feira foi 28% superior ao da média diária dos últimos três meses.

As gestoras mais expostas (para o bem ou para o mal) em AMER3

O susto dado pela Americanas ainda deve afetar em cheio fundos com exposição relevante às ações da companhia. Com base nos últimos dados disponíveis, de setembro, a Moat Capital tinha a maior posição nos papéis da varejista.

Segundo levantamento do TradeMap, entre os fundos abertos com maior exposição aos papéis da Americanas estava o Moat Capital FIA Master, com 13,5% do patrimônio nos papéis da varejista em setembro.

A gestora frequentemente defendia a tese de investimento na empresa. Em entrevista ao podcast Market Makers, em setembro do ano passado, o gestor Cassio Bruno disse que investia na companhia por enxergar um potencial de melhora das operações com a perspectiva de queda da taxa Selic, uma vez que a empresa era muito alavancada financeiramente.

Na direção contrária, da ponta vendida, isto é, apostando na queda dos preços, a Itaú Asset Management se destaca entre as gestoras.

Bancos e corretoras revisam recomendações

Tão logo o dia começou e bancos e corretoras correram para avisar seus clientes sobre suas recomendações para os papéis da Americanas. A Genial Investimentos, por exemplo, mudou a indicação de compra para venda de AMER3 após a revelação do rombo.

A casa ainda cortou o preço-alvo em 67%, para R$ 9,40 ao fim de 2023. “Salientamos que esse preço-alvo estará sujeito a novas revisões tão longo tivermos acesso a mais informações sobre o caso”, acrescentaram os analistas, em relatório.

Algumas instituições colocaram suas recomendações sob revisão até terem mais detalhes dos impactos na empresa. Foi o caso de XP e Itaú BBA, ambas com classificação neutra (equivalente à manutenção).

Já o Goldman Sachs e o BB-BI, mantiveram suas recomendações de venda para o papel. O GS ressaltou o fato de a Americanas ter dito que as inconsistências devem ser imateriais sobre o caixa da empresa, mas também frisou que a própria companhia revelou não ser possível determinar todo o impacto que o erro contábil terá sobre o balanço.

Risco para acionistas minoritários

A situação da Americanas já leva investidores minoritários a se mexer. A Amec (Associação de Investidores do Mercado de Capitais) avisou ter pedido ao conselho de administração da Americanas que se manifeste o mais rapidamente possível a respeito dos anúncios feitos pela empresa e por Rial, e disse que os acionistas e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) devem monitorar os fatos para apurar quem deve ser responsabilizado.

“A AMEC externaliza sua perplexidade quanto à atuação das instâncias de governança da companhia e dos seus respectivos gatekeepers, principalmente auditorias, à luz da magnitude estimada da inconsistência contábil”, disse o presidente da associação, Fábio Coelho, no documento.

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