Qual o efeito Americanas (AMER3) em bancos como BTG Pactual (BPAC11) e Santander (SANB11)?

Analistas consultados ressaltam que o impacto da varejista nos bancos seria limitado, devido à exposição máxima de 7% da carteira de crédito

Foto: Shutterstock/TierneyMJ

Que os bancos são financiadores da maior parte dos setores da economia brasileira, isso é líquido e certo. Que as instituições financeiras são muitas vezes utilizadas para adiantamento de recebíveis para manter o fluxo de caixa também. Mas tudo isso tem um custo.

Na noite desta quarta-feira (11), a Americanas (AMER3), uma das maiores varejistas do país, pegou o mercado de surpresa, justamente por anunciar ter encontrado valores não contabilizados como dívida bancária.

Na prática, o que isso significa? Segundo a companhia, foram encontrados cerca de R$ 20 bilhões que eram passíveis de interpretações diferentes a respeito de como deveriam aparecer no balanço.

O problema é que, a depender de como são reportados, esses números podem aumentar ou diminuir as despesas financeiras da empresa.

No caso da Americanas, estes números diziam respeito ao financiamento de fornecedores feito junto a instituições bancárias. A empresa reportava os valores na conta fornecedores, o que evitava que eles fossem entendidos como dívida bancária.

Na prática, isso dava menos visibilidade aos bancos sobre os compromissos financeiros da Americanas. Segundo analistas consultados pela Agência TradeMap, o mercado ainda está digerindo o possível impacto nos bancos, mas o que se pode afirmar é que ele seria limitado.

Qual a visão dos analistas sobre os bancos

Na visão dos analistas, os bancos mais expostos ao setor varejista são: BTG Pactual (BPAC11) e Santander (SANB11), com mais ou menos 7% da carteira de crédito, enquanto Bradesco (BBDC4) ao redor de 6% e Itaú Unibanco (ITUB4) e Banco do Brasil (BBAS3) de 2% a 3% cada.

Ao final do terceiro trimestre de 2022, a carteira de crédito do Santander era de R$ 484,2 bilhões, enquanto do Itaú de R$ 1,11 trilhão, Bradesco de R$ 878,6 bilhões e Banco do Brasil de R$ 969,2 bilhões. No caso do BTG, o portfólio de corporate & PME somava R$ 130 bilhões.

Para Jansen Costa, sócio fundador da Fatorial Investimentos, a operação financeira que gerou o problema contábil na Americanas, conhecida como risco sacado, existe em várias empresas do Brasil.

“A grande questão é saber se já tinha pago os bancos com relação às antecipações que foram feitas aos fornecedores. O problema é ter uma reclassificação. A Americanas vai ter liquidação antecipada das dívidas, o que causaria um problema gigantesco para a companhia”.

Segundo Costa, o mais importante neste momento é que a empresa evite essas antecipações. “A sobrevida da companhia é muito importante. Existe muita dívida na mão do mercado, obviamente está pulverizada. Precisamos acompanhar o desenrolar do dia e como vai ser a marcação dos títulos de renda fixa de crédito privado”, explica.

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E foi justamente esse ponto, de trabalho conjunto, entre Americanas e bancos, que o ex-presidente da empresa Sergio Rial fez questão de frisar na teleconferência com o mercado. O executivo ressaltou que a companhia terá de levantar capital para se manter solvente – e não será pouco.

“Temos que buscar uma solução junto aos acionistas de referência (3G Capital) e peço paciência. Espero que os bancos tenham uma postura de equilíbrio para encontramos um caminho que funcione para todos”, afirmou Rial, em vídeo disponibilizado pela Americanas após a teleconferência.

Rial disse que a empresa chamará uma captação de recursos junto ao mercado e não será na casa de milhões, mas sim de bilhões de reais. Vale lembrar que, em 2020, a empresa captou R$ 7,87 bilhões em um follow-on, numa oferta em que a demanda foi de R$ 20 bilhões.

Gustavo Bertotti, economista-chefe da Messem Investimentos, avalia o problema como bem preocupante porque o valor de R$ 20 bilhões, ainda a ser confirmado, é muito alto. “É algo que vemos como preocupante para os bancos. O varejo já está muito penalizado, é um setor que contraiu muita dívida desde o Covid-19 e ainda está sendo impactado”.

O economista vai mais além e diz que a situação da Americanas coloca o todo o setor de varejo em xeque. “É muito cedo para avaliar se o setor vai fechar as portas com os bancos. As instituições vão reavaliar o setor”, explica.

De acordo com Bertotti, os bancos devem acabar reavaliando os créditos para o setor como um todo.

“O número é muito alto. A incerteza não é só da Americanas, mas do mercado em geral, não só o setor financeiro. Será colocado em xeque o capital de todas as companhias do setor financeiro. É uma empresa (Americanas) que tem dívida no exterior, passível de ações judiciais. O risco de imagem é muito ruim. No geral, todas sofrem”, analisa o economista-chefe da Messem Investimentos.

A dificuldade de fazer uma análise mais aprofundada neste momento deve-se ao fato de nem a Americanas, nem os bancos mostrarem sua exposição nos balanços. Portanto, de acordo com Gabriel Gracia, analista da Guide Investimentos, tudo que for dito é na base da especulação.

A boa notícia é que a exposição dos bancos varia entre 2% a 7% da carteira de crédito, ou seja, o impacto na conta final, na visão de Gracia, não seria tão grande para as instituições financeiras.

“A exposição não é tão grande, principalmente porque eles ganham uma taxa sobre a dívida e o banco continua tentando negociar essa dívida. Dificilmente isso vai ser intangível, muito provavelmente será pago, mas será renegociado”, diz o analista da Guide Investimentos.

Capitalização à vista

Em comum entre os analistas consultados é que a Americanas vai precisar ser capitalizada para manter as operações em pé.

Segundo Rial, a maior parte da dívida da empresa vence a partir de 2025 e 92% dos compromissos estão livres de covenants — cláusulas que em geral servem para proteger os credores –, o que pode impedir a execução da dívida se os índices de cobertura forem desrespeitados.

O executivo aponta, porém, que caso os bancos queiram acelerar o recebimento dos recursos, as dívidas podem ser judicializadas.

Como para capitalizar e levantar o dinheiro demanda tempo, Gracia explica que a dívida terá que se reestruturada. Ou seja, o caminho para isso seria o alongamento dos prazos de pagamento. “Talvez colocar outras garantias. O banco não quer perder o dinheiro, então alguma coisa deve acontecer”.

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Além disso, o analista da Guide Investimentos explica que a Americanas precisa adquirir novamente a confiança do mercado. “Daqui para frente, todo tipo de credor vai pedir alguma garantia, essa será a forma que o setor vai se comportar”.

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