Americanas (AMER3): ações entram em leilão na abertura; mercado revisa recomendações após rombo bilionário

Genial passou a recomendar a venda do papel, enquanto XP e Itaú BBA colocaram cobertura sob revisão

Gustavo Nicoletta

Gustavo Nicoletta

Foto: Shutterstock/thiago bacelar

(Matéria atualizada às 12h30 para inclusão de análise da equipe do BB Investimentos.)

Diante da revelação de um rombo de R$ 20 bilhões em seu balanço e da saída do até então diretor-presidente Sergio Rial, bancos e corretoras estão atualizando as recomendações para os papéis da Americanas (AMER3).

Após call de abertura, ações da Americanas já entraram diretamente em leilão, com uma queda teórica de 75%, para R$ 3,00. O leilão deve durar até 11h, mas pode ser prorrogado.

A varejista anunciou na noite desta quarta-feira (12) a descoberta de inconsistências contábeis na conta fornecedores em exercícios anteriores, incluindo o de 2022, da ordem de R$ 20 bilhões, o valor de mercado de Magazine Luiza (MGLU3) ou de Lojas Renner (LREN3) na B3.

“A companhia estima que o efeito caixa dessas inconsistências seja imaterial. Neste momento, não é possível determinar todos os impactos de tais inconsistências na demonstração de resultado e no balanço patrimonial da companhia”, informou a Americanas.

Além de Rial, André Covre, que tinha chegado com o executivo, deixou o cargo de diretor de relações com investidores.

Com a decisão, o conselho de administração nomeou interinamente para os dois cargos João Guerra, executivo de carreira da Americanas nas áreas de tecnologia e recursos humanos.

Até ontem (11), dados da Refinitiv disponíveis no TradeMap apontavam cinco recomendações de compra para as ações da Americanas, seis de manutenção e duas, de venda. Nesta quinta, contudo, algumas casas já começam a revisar suas indicações.

Genial revisa recomendação de compra para venda

A Genial Investimentos tinha recomendação de compra para a ação AMER3, mas, após a revelação do rombo bilionário, passou a indicar a venda do papel.

A Genial ainda cortou o preço-alvo em 67%, de R$ 28,40 para R$ 9,40 ao fim de 2023. “Salientamos que esse preço-alvo estará sujeito a novas revisões tão longo tivermos acesso a mais informações sobre o caso”, acrescentaram os analistas, em relatório.

A Genial avalia que a Americanas realizava as operações chamadas de “Risco Sacado”. Na prática, passava a responsabilidade do pagamento a fornecedores para instituições financeiras, o que, por sua vez, reduzia a conta de fornecedores no passivo da varejista. “A primeira impressão é a pior possível, tanto na questão de governança corporativa quanto na contábil.”

Em teleconferência promovida pelo BTG Pactual na manhã desta quinta-feira (12), Rial afirmou que percebeu, ao assumir o cargo, que havia problemas no reporte de itens na conta “fornecedor” no balanço da companhia.

O executivo, que deixou a presidência do Santander Brasil no ano passado, disse que muitos pagamentos a fornecedores que eram financiados por bancos não eram considerados como dívida. “É um tema que permanece desde a década de 1990″, afirmou.

XP e Itaú BBA colocam recomendações sob revisão

Já a XP e o Itaú BBA colocaram suas recomendações sob revisão, até terem mais detalhes sobre o que de fato aconteceu.

A XP tinha uma posição neutra (equivalente à manutenção) no papel, mas, dada a consideração de falta de visibilidade sobre o que de fato aconteceu e os impactos efetivos a serem observados nas demonstrações financeiras da companhia, prefere colocar a recomendação em cheque.

“Acreditamos que o comunicado adiciona várias incertezas para a tese de investimento na empresa”, afirmam analistas da XP, em relatório.

O Itaú BBA também colocou sua recomendação – até então de manutenção – em análise, exatamente pelo mesmo motivo: a falta de clareza dos impactos do comunicado.

Os analistas do banco vislumbram que a ação sofra significativamente durante o pregão desta quinta, avaliando que a alta recente dos papéis foi impulsionada por uma expectativa positiva do mercado em relação ao que o CEO Sergio Rial poderia fazer.

A Ativa Investimentos informou que havia rebaixado a recomendação para as ações para neutra, mas com uma expectativa de que a nova gestão pudesse reestruturar as operações. “Porém, com essa notícia, o impacto é muito negativo para as ações e para a empresa como um todo, e estamos aguardando mais informações a serem divulgadas pela companhia”, informou a corretora.

Compra sugerida pela Terra Investimentos também em revisão

A Terra Investimentos, que tinha recomendação de compra para Americanas até o último pregão, também está revisando o call.

“Diante das últimas notícias desfavoráveis e surpreendentes a todos do mercado de ações, estamos revisando a recomendação e aguardando mais informações. Neste momento principalmente a avaliação de auditorias independentes e maiores informações sobre a possibilidade de um aumento de capital e sua estrutura financeira para suportar tais dívidas com fornecedores”.

Em comunicado, a equipe de análise da casa disse que o setor de varejo como um todo deveria passar por uma pressão vendedora, até haver mais clareza sobre as análises dos balanços e passivos. “Os bancos também, pois são credores nestes financiamentos”, complementou.

AMER3 tinha a maior alta do Ibovespa em 2023

Desde o início de 2023 até o fechamento de quarta (11), a ação da Americanas tinha a maior alta do Ibovespa, o principal índice da B3, de 24,35%.

Quando Rial foi anunciado como CEO, em 19 de agosto do ano passado, o papel avançou 38,4% nos dois pregões seguintes. De lá pra cá, contudo, acumula uma baixa de 7,9%.

Goldman Sachs e Banco do Brasil mantêm indicação de venda

“Embora esperemos que a notícia seja recebida negativamente pelo mercado, achamos que é cedo demais para avaliar as potenciais implicações para a companhia”, disse o Goldman Sachs, que atribui recomendação de venda às ações da Americanas, com preço-alvo em R$ 10.

O banco ressaltou o fato de a Americanas ter dito que as inconsistências devem ser imateriais sobre o caixa da empresa, mas também frisou que a própria companhia revelou não ser possível determinar todo o impacto que o erro contábil terá sobre o balanço.

A equipe do BB Investimentos, por sua vez, disse que, apesar de sua recomendação de venda de AMER3 não estar ligada ao rombo, mas ao fato de a companhia estar passando por um processo de turnaround combinado a um cenário macroeconômico adverso ao varejo, entende que o caso em discussão reforça a percepção negativa.

O BB menciona as incertezas geradas por conta da necessidade de reapresentação dos demonstrativos financeiros, o que vai afetar a modelagem financeira e seu valor justo, além de mencionar a falta de transparência, com impactos adicionais aos minoritários.

“Por essa razão, reiteramos a recomendação de venda. O preço-alvo deixa de ser referência até que sejam reapresentados os demonstrativos financeiros pela Americanas, momento em que revisaremos nosso valuation“, diz o BB, em análise assinada por Georgia Jorge.

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