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Mundo pode ter em 2022 maior onda de aperto monetário desde os anos 1990

Mundo pode ter em 2022 maior onda de aperto monetário desde os anos 1990

Exceção é a China, que vem cortando juros para estimular sua economia

juros mais altos diz Stuhlberger
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Em resposta à inflação persistente, que neste início de ano foi impulsionada pela variante Ômicron do coronavírus e conflitos geopolíticos, os principais bancos centrais do mundo, com exceção da China, estão endurecendo suas políticas monetárias. Quem ainda não começou a subir juros no ano passado fará isso em 2022, cenário que pode levar à maior onda de aperto global desde os anos 1990.

Essa é a avaliação de economistas, que apontam ainda que essa situação não necessariamente será decisiva sobre os preços. Isso porque o problema atual está mais concentrado na oferta (que não é diretamente afetada pelo aumento das taxas básicas das economias) do que na demanda.

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A pandemia de coronavírus causou quebras importantes nas cadeias globais de fornecimento, e em 2021, quando o consumo voltou, as matérias primas existentes simplesmente não foram suficientes para dar conta dessa retomada. Neste ano, o problema voltou a aparecer, com a cepa Ômicron voltando a causar estragos e o conflito iminente entre Rússia e Ucrânia impulsionando ainda mais os preços do petróleo.

Roberto Dumas, professor de economia internacional do Insper e mestre em economia chinesa pela universidade de Fudan, na China, explica que as tensões crescentes entre os dois países também bate nos preços dos alimentos.

“Essa guerra puxa a cotação do petróleo mas também dos fertilizantes. Sabe quais os maiores exportadores de fertilizantes? A Rússia, a Bielorússia, a China e o Canadá”, aponta. “Isso bate no preços dos alimentos, e quando estamos falando de alimentos, falamos de inflação dos mais pobres, que são os que mais sentem”.

Ele lembra que um dos principais desafios hoje para a inflação global é o problema de oferta de energia.

Nos seus últimos planos quinquenais (para cinco anos), em busca de ser mais relevante geopoliticamente, a China vem se comprometendo cada vez mais com metas de redução de emissões de CO2 e de consumo de energia, reduzindo sua produção de carvão.

Além disso, o gigante asiático adotou uma política de “Covid zero”, adotando restrições e lockdowns como forma de tentar frear o avanço da infecção. “Isso bagunça ainda mais a malha logística, e vai fazer a China crescer menos do que esses 8% que estão dizendo”, avalia Dumas.

Fed eleva juros já em março

Não por acaso, as apostas para elevação dos juros nos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) — o ciclo de alta na maior economia do mundo começa em março — estão cada vez mais ousadas. Alguns analistas já veem até sete aumentos na taxa, que hoje está próxima de zero.

Esse cenário foi reforçado pelo payroll de janeiro, que mostrou a criação de 467 mil vagas no país no mês passado, mais de três vezes o que o mercado projetava (150 mil vagas). Como além da inflação o Fed tem obrigação de perseguir o pleno emprego, o número impulsionou os juros futuros do país e aumentou as apostas em uma alta maior, de 0,5 ponto percentual, no mês que vem.

“O jogo virou”, afirmaram economistas do Bank of America em relatório. “O crescimento da inflação global impulsionou ciclos de alta de juros pelos bancos centrais e colocou em cena a redução de balanço das autoridades monetárias”.

Custo social x economia

O custo social de deixar os preços avançarem, apesar do aumento agressivo nas taxas de juros ser menos efetivo contra inflação de oferta e ainda penalizar o crescimento, é um dos pontos que estão sendo colocados na balança pelos bancos centrais no mundo todo.

A presidente do BCE (Banco Central Europeu), Christine Lagarde, falou com grande preocupação da alta de preços na zona do euro — em janeiro, o avanço foi de 5,1%, um novo recorde.

Seu discurso após a decisão do banco de manter a taxa básica negativa em 0,5% na semana passada mudou a percepção do mercado, que passou a apostar em uma alta de juros ainda em 2022.

“As incertezas relacionadas com a pandemia diminuíram um pouco, [mas] ao mesmo tempo as tensões geopolíticas aumentaram e, juntamente com os custos de energia persistentemente elevados, poderão ter um impacto mais forte do que o esperado sobre o consumo e o investimento”, afirmou. “O ritmo a que os estrangulamentos no abastecimento são resolvidos é também um risco adicional para as perspectivas de crescimento e inflação”.

Inglaterra, Brasil e China

Também na semana passada, o BoE (Banco da Inglaterra) subiu os juros em 0,25 ponto percentual, mas parte do mercado continua pressionando por uma elevação ainda maior na taxa, de 0,5 p.p. “Acreditamos que o BoE irá elevar as taxas de juros mais três vezes neste ano, para 1,25% ao ano”, afirmou a equipe da Capital Economics em relatório.

No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) vem elevando juros desde março de 2021, e na última reunião, na semana passada, subiu a Selic em mais 1,5 ponto percentual, a 10,75%. Muitos analistas já esperam a taxa básica acima de 12% no final deste ano, cenário que pode levar a uma queda no PIB (Produto Interno Bruto).

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Na outra ponta, a China vem adotando uma estratégia diferente, e esse cenário coloca mais lenha na fogueira da inflação.

Para estimular a economia do país, o Banco do Povo da China cortou os juros dos empréstimos de curto, médio e longo prazo, cenário que estimula o setor imobiliário local e impulsiona as cotações do minério de ferro.

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