Um ano depois de explicar detalhadamente por que, na sua opinião, a inflação trazida pela pandemia era transitória, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Jerome Powell, voltou nesta sexta-feira (26) à conferência anual de banqueiros centrais que acontece em Jackson Hole com más notícias.
Em fala curta e direta, o comandante da política monetária da maior economia do mundo subiu o tom contra a alta de preços, e desiludiu os investidores ao indicar que os juros americanos ficarão em um patamar elevado por mais tempo para levar a inflação à meta de 2%.
Foi esse choque de realidade, segundo analistas, que provocou o forte tombo nas bolsas americanas hoje, com o Dow Jones recuando 1,81%, o S&P 500 caindo 2,09% e o Nasdaq tombando 2,52% por volta das 14h10. No Brasil, o Ibovespa recuava 1,06% seguindo o exterior, para 112.325 pontos.
Após a fala, o mercado voltou a esperar majoritariamente um aumento de 0,75 pp nos juros americanos em setembro (60,5% dos investidores apostam na manutenção do ritmo mais agressivo, contra 44,50% de antes da participação de Powell, segundo o CME Group).
“Os registros históricos advertem fortemente contra suavizações da política monetária”, disse o presidente do Fed, acrescentando que a economia americana claramente está desacelerando, mas que ao mesmo tempo está mostrando uma força subjacente que preocupa.
Powell afirmou ainda que a taxa básica pode se manter em patamar elevado “por tempo considerável” até o Fed estar confiante de que a inflação está convergindo para a meta de 2%, mesmo que isso traga uma “dor” para as famílias e as empresas.
“O tom do discurso veio 100% para o lado hawkish [mais duro com a inflação]”, avaliou o analista sênior da Garde Asset Management, Lucas Zaniboni. “Ele explicou que o Fed olhou períodos de inflação elevada e tirou três lições: que não pode cair na tentação de cortar os juros rápido demais, que a responsabilidade da inflação é do Federal Reserve e que as expectativas para os preços importam.”
O especialista lembra que o tom da fala do presidente do BC americano mudou radicalmente de um ano para cá, em um ambiente de inflação persistente por causa dos choques de oferta da pandemia de coronavírus e guerra entre Ucrânia e Rússia e demanda em alta.
“Um ano depois, ele inverteu o discurso que tinha feito em Jackson Hole no ano passado. A fala deste ano foi na outra ponta”, avaliou.
Durante a fala, o presidente do Fed lembrou que gerenciar as expectativas é fundamental para evitar um resultado semelhante ao de Paul Volcker, que teve que aumentar fortemente os juros na década de 1980, levando a economia para a recessão para domar a inflação.
“O que o Powell falou no discurso é que vai continuar subindo juros até deixar a economia contraída e a inflação se direcionar para a meta de 2%”, apontou Fabio Fares, especialista em análise macro da Quantzed. “O problema é que o mercado, na antecipação da euforia, já estava prevendo corte de juros no ano que vem. E isso não é real.”
Para o economista da Macro Capital, Tiago Negreira, o discurso veio ligeiramente mais hawkish (mais inclinado ao aperto monetário) do que o esperado pelo mercado ao sinalizar que a taxa de juros deve ficar em patamar elevado por mais tempo. “Talvez o Fed deva adiar o corte de juros no ano que vem ou até não fazer cortes”, disse.
Ritmo de alta ainda está em aberto
Para Negreira, apesar dos dados recentes de inflação mostrarem uma desaceleração, Powell deixou em aberto se vai manter o ritmo de alta de juros na próxima reunião de setembro, de 0,75 ponto, ou vai desacelerar.
“Achamos que a inflação vai desacelerar gradualmente e cair mais no meio do ano que vem, mas o mercado de trabalho forte dá conforto para o Fed ser mais hawkish”, disse o economista da Macro, que espera que a taxa básica de juros atinja 4% no pico deste ciclo.
Nesse cenário de taxas de juros mais altas, Negreira espera que as bolsas americanas voltem para o bear market (tendência de baixa), após a recente recuperação, com a desaceleração da atividade impactando o lucro das empresas.