A China tende a priorizar o crescimento em detrimento da regulação das empresas, e por muito tempo as big techs da segunda maior economia do mundo reinaram nesse cenário. Mas quando elas começaram a avançar sobre o setor financeiro e a incomodar os bancos chineses, a situação começou a mudar.
A Agência TradeMap conversou sobre esse tema, entre outros relacionados ao maior parceiro comercial do Brasil, com Eduardo Bernardes, head de distribuição para a Ásia Pacífico da Bradesco Asset Management em Hong Kong.
Morador da cidade há 13 anos, onde já viveu quatro pandemias, ele explica o quanto essa relação se tornou sensível recentemente – a forte queda nas ações da multinacional de tecnologia e varejo Alibaba na manhã desta terça-feira (3), após uma notícia falsa da prisão de Jack Ma, fundador da empresa, ajuda a ilustrar o quanto.
“São empresas que cresceram muito rápido, que investiram muito e que são privadas, como a Alibaba, a Tencent, entre outras”, conta. “Aqui na China o crescimento vem primeiro, e a regulação depois. O governo deixou essas empresas crescerem de forma irrestrita. Mas quando chegaram em determinado tamanho, alguns triggers [gatilhos] fizeram o governo acordar para a falta de regulação”.
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Um deles foi exatamente Jack Ma, que entrou na mira do Partido Comunista Chinês após dizer, sem papas na língua, que os bancos chineses estavam acabados. “Empresas como a Ant Financial [fintech que pertence à Alibaba] estavam crescendo muito na parte de pagamentos, financiamentos, etc. Eles estavam eclipsando os bancos. Por outro lado, os bancos chineses são em parte agentes que atuam a favor das políticas do governo chinês”.
Bernardes explica ainda que um discurso feito pelo presidente da China, Xi Jinping, no final da semana passada, ajudou a aliviar um pouco a pressão sobre as ações de empresas chinesas, que vêm caindo com força neste ano por causa dos rigorosos lockdowns que o governo vem fazendo para conter o avanço da Covid-19. O país adotou uma política de Covid zero, decisão que vem impactando negativamente seu crescimento econômico.
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“O Xi Jinping não faz muitos discursos abertos, essa foi uma exceção”, diz o especialista da BRAM. “E geralmente não se dirige ao mercado financeiro, em geral é mais voltado para a população chinesa. Mas esse discurso foi direcionado para acalmar os mercados.”
Veja abaixo a entrevista completa com o analista, concedida na última sexta-feira (29).
Por que as bolsas asiáticas caíram tanto ao longo deste ano? E tiveram essa recuperação recente?
Na virada do ano a China estava bem, com as exportações crescendo 30%, imbuída de confiança. Houve uma recuperação forte em 2021 na comparação com 2020. Mas aí teve essa quinta onda de Covid-19, que pegou Hong Kong, Shenzhen e provocou fortes lockdowns em Xangai, entre outras cidades
Essas restrições geraram uma sensação bastante negativa nos mercados, então o índice Composite CSI 300 caiu mais de 20% de janeiro para cá. Houve muita preocupação com esse cenário, e muitos investidores começaram inclusive a rebaixar as recomendações da China.
Recentemente, o governo chinês começou a indicar que a China vai realizar um plano de estímulo, investindo bastante em infraestrutura. Isso não era o que eles pretendiam fazer. Davam a entender que o grande motor do crescimento seria via consumo.
Mas decidiram por um grande plano de infraestrutura nacional, o que foi informado em discurso pelo Xi Jinping [presidente da China], e o mercado subiu 4% [na última sexta, dia 29]. O Composite, que é um índice muito pesado das empresas da China continental, subiu bastante, mas ainda está 20% abaixo do fechamento de 2021. Então ainda tem um caminho longo pela frente, ainda deve se recuperar bastante.

Já havia informações circulando sobre a possibilidade de um pacote de estímulos para compensar a economia mais fraca pela Covid. Por que esse discurso em particular animou os mercados?
O Xi Jinping não faz muitos discursos abertos, essa foi uma exceção. E geralmente não se dirige ao mercado financeiro, em geral as falas são mais voltadas para a população chinesa. Mas esse discurso foi direcionado para acalmar os mercados.
Todos os anos, a China estabelece uma série de metas, e neste ano, a meta para o PIB [Produto Interno Bruto] foi um pouco incomum. No ano passado, estabeleceram uma meta de crescer a partir de 8%, e entregaram 8,1%. Neste ano, a meta pela primeira vez foi ´por volta de´, ou seja, pode ser para baixo. Por volta de 5,5%.
O governo chinês também sempre indica umas palavras de referência para a população, que indicam qual objetivo será perseguido. No ano passado, essas palavras eram eficiência e energia limpa. Para este ano, as palavras foram transparência e estabilidade.
Mas isso não vinha acontecendo, com a bolsa caindo, manifestações negativas em Xangai, temor de lockdown em outras cidades. Nesse discurso, o Xi Jinping prometeu mais transparência e estabilidade, e se comprometeu a entregar esse crescimento. Disse: estamos tendo algumas dificuldades por causa da Covid-19, mas para ajudar setores mais combalidos e impulsionar a economia, vamos fazer um grande programa de infraestrutura.
E qual o possível impacto desse pacote para o Brasil?
A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Quando mudei para cá, em 2009, essa parceria era mais tímida, representava entre 18% e 19% das exportações brasileiras. Hoje em dia é 30%, um volume muito robusto.
O Brasil exporta para cá minério de ferro, proteína animal, papel e celulose. Com o anúncio desses projetos de infraestrutura, por exemplo, o preço do minério, que tinha caído bastante em Cingapura, se recuperou bastante. Esperamos que repercuta nas ações.
No passado, esses projetos eram muito mais pesados, com indústria de base, aço, construção civil, setor imobiliário. A construção era um driver importante.
De qualquer forma, dentro desse pacote está incorporada a ajuda para o setor imobiliário, que tem uma parte importante desses projetos que impactam o Brasil positivamente. Esses projetos têm sido mais leves, mais relacionados à tecnologia 5G, à energia limpa, à conversão de frota para veículos elétricos. A China já converteu toda a sua frota de ônibus para ônibus elétricos. Ainda há muita coisa para acontecer nesse sentido.
Apesar desses projetos não serem tão pesados, ainda impactam positivamente o Brasil.
Alguns analistas preveem que as big techs chinesas podem ter ainda mais perdas. Concorda com esse cenário?
Essas são empresas que cresceram muito rápido, que investiram muito, e são privadas, como a Alibaba, a Tencent, entre outras. Aqui na China o crescimento vem primeiro, e a regulação depois. O governo deixou essas empresas crescerem de forma irrestrita.
Quando chegaram em determinado tamanho, alguns triggers fizeram o governo acordar para a falta de regulação. Um dos principais foi o Jack Ma [fundador da Alibaba] dar entrevista e dizer que os bancos estavam acabados. Ele disse: os bancos acabaram, daqui para a frente a gente assumiu.
O dinheiro vivo praticamente sumiu na China, mais de 90% das transações são digitais. O pessoal aqui não vê dinheiro mais, com empresas como a Ant Financial [fintech que pertence à Alibaba] crescendo muito na parte de pagamentos, financiamentos, etc.
Essas empresas estavam eclipsando os bancos. Mas por outro lado os bancos chineses são em parte agentes que atuam a favor das políticas do governo. Eles constantemente recebem pedidos do governo. Na semana passada, por exemplo, decidiram não reduzir as taxas de juros de longo prazo, que é como se fosse a Selic deles, mas ao mesmo tempo direcionaram aos bancos a tarefa de fomentar crédito para compensar as dificuldades com a Covid.
Os bancos ficaram chateados. Como a Ant não é regulada pelo nosso regulador financeiro? Foi aí que a China lançou uma ofensiva regulatória contra essas empresas.
Mas nesse discurso para o mercado, o Xi Jinping fez uma declaração sobre isso. Ele disse, não se preocupem com as empresas de tecnologia, vamos fazer no máximo pequenas intervenções.
Por que o governo chinês está tão apegado aos lockdowns? Há algum sinal de que a política de Covid zero pode ser revista?
O governo não deu nenhum sinal ainda de desistir da política de Covid zero. Mas por que isso?
Estou aqui desde 2009, essa é a quarta pandemia que eu pego morando aqui. Quando cheguei, no primeiro ano já passei por isso: tinha que medir temperatura, preencher questionário, etc. Passados alguns anos, teve outra gripe aviária, cancelamento de voos, etc. Em 2015, um road show que faríamos teve que ser cancelado, por causa da gripe do camelo [a Síndrome Respiratória do Oriente Médio, ou MERS].
Aqui a densidade demográfica é altíssima, e quando veio a pandemia de coronavírus o pessoal pensou: se fizermos um lockdown direito, zeramos a transmissão. Na primeira onda, fizeram e zerou, na segunda onda, zerou de novo, na terceira onda, também, e por aí vai. Ficou essa ideia: esse é o caminho, temos disciplina para barrar a transmissão.
Chegou a quinta onda e a Ômicron [variante do coronavírus] é muito mais transmissível. Mas esse pensamento, de que os asiáticos têm disciplina para barrar a transmissão, se mantém.
Mas isso tem impactos sérios. Esse lockdown recente reduziu a confiança do consumidor não só nas cidades com restrições, mas também no resto da China, e também entre investidores.
No Brasil nunca teve lockdown de verdade. Na China, eles estão selando a entrada dos prédios, pessoas estão há semanas trancadas em edifícios comerciais, sem se alimentar da forma como estão acostumadas, sem comida fresca.
Por fim, como é o interesse de brasileiros no mercado de ações da China? E dos chineses em ações brasileiras?
Temos tido bastante interesse da China e da Ásia pelos mercados de fora, e do outro lado investidores estrangeiros têm cada vez mais interesse em China.
Há vários caminhos para investir no mercado chinês, como comprar direto em bolsas internacionais. Mas também é possível acessar empresas do mercado local através de fundos de fundos, geridos por grandes gestores internacionais, que fazem a ponte para que seja possível acessar o melhor do mercado chinês.