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Manobras para controlar preços se transformam em inflação futura, diz economista-chefe da Western

Manobras para controlar preços se transformam em inflação futura, diz economista-chefe da Western

Para economista-chefe da gestora, mudanças na Petrobras e limitação do ICMS beneficiam cenário de curto prazo, mas cobram preço alto

Adauto Lima Western

Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset. Foto: Divulgação

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Estratégias para tentar controlar os preços dos combustíveis no curto prazo, como um intervalo mínimo de cem dias para reajustes de preços pela Petrobras, podem elevar as expectativas para a inflação, deixando os juros altos por mais tempo que o previsto ou retardando o início da queda da taxa Selic em 2023.

O alerta parte do economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, que avalia que as pressões inflacionárias, em especial as vividas atualmente, não são geradas por apenas um inimigo.  

“Tratar a inflação como um problema de um preço só não corresponde à realidade”, afirmou Lima, em entrevista à Agência TradeMap, em referência ao amplo espalhamento da alta de preços pela maior parte de bens e serviços.

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Caso o governo consiga aprovar mudanças para adiar um novo reajuste da gasolina pela Petrobras, o impacto, na prática, será transferido para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do ano que vem. “Se a regra muda, eu reduzo as expectativas para este ano e subo as de 2023”, apontou.

Ele lembra que outras estratégias do governo, como o projeto de lei aprovado pela Câmara que limita a cobrança de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) de energia e combustíveis, também só possuem impacto sobre a inflação de curto prazo.

“Se as expectativas de inflação começarem a ir para perto de 5% em 2023, será que o Banco Central vai se sentir confortável para parar de subir os juros em junho?”, questionou.

Atualmente, a Selic está em 12,75% ao ano, e a expectativa da maior parte dos analistas é de novo aumento na próxima reunião, em junho. Parte dos economistas, entretanto, acredita que o BC será obrigado a realizar uma última alta em agosto, na tentativa de controlar as expectativas para os preços em 2023.

Veja a seguir a entrevista completa, concedida por Lima na última terça-feira (24).

O que achou da divulgação da prévia do IPCA-15 de maio, que mostrou alta de 0,59%, acima do esperado? 

O número foi bem ruim, bem acima do que era esperado. Mas não é só isso. Quando você olha no detalhe, dá para ver que a alimentação caiu menos que a expectativa e que houve alta de quase todos os grupos. Há diversas métricas para tentar capturar a tendência da inflação, e todas subiram.

Os serviços vieram muito fortes, e a parte de bens continua com a inflação muito alta e acelerando. Tudo isso mostra que o processo inflacionário se disseminou.  Não parece que a inflação chegou no pico. Há um ano estamos dizendo que a inflação chegou no pico, e não chega nunca.

A percepção é de uma inflação muito alta na margem. Se no ano passado a alta foi de 10,1%, neste, a inflação caminha para 9%, dependendo do que acontecer com o ICMS [ele se refere ao projeto aprovado na Câmara que limita a alíquota do imposto estadual para energia e combustíveis, que segue para avaliação no Senado].

De qualquer forma, ainda há um processo inflacionário, e não está com cara de que vai voltar rápido. O ritmo vai se reduzir bem lentamente, com os reajustes se alternando, e fica a discussão de como conseguiremos desinflacionar a economia olhando para 2023.

Vem acontecendo algo que a gente conhece bem: os preços que são mais rígidos começam a ser reajustados olhando para a inflação passada, como serviços, por exemplo, que reajustam depois, carregando a inflação passada. Na margem, dessazonalizado [retirado o efeito típico de cada período] e anualizado, os serviços já estão rodando com alta de mais de 8%. Se você olhar na média móvel de três meses, já está mais perto de 10%.

Por que os serviços costumam apresentar esse delay?

Um exemplo é o de médicos, que não sobem o preço da consulta todo mês. Mas com os custos subindo cada vez, como energia, aluguéis, ou com a própria perda de renda dos profissionais por causa da inflação, podem passar a reajustar mais que uma vez por ano.

É um processo de inércia, em que você forma sua expectativa de inflação olhando para trás, e não para a frente. E há choques de inflação importantes lá de fora. A alimentação nos EUA está subindo 10%, não é algo tão trivial.

Quais as dificuldades de se projetar a inflação atualmente? Mudanças como o projeto de lei que limita a cobrança do ICMS e mudanças na Petrobras dificultam as expectativas? 

A percepção é que as expectativas vão continuar ruins. Tratar a inflação como um problema de um preço só não corresponde à realidade. O resto dos preços também estão rodando muito alto.

Segurar preço não quebra essa formulação. Eu posso revisar a inflação do ano, mas, no médio prazo, isso é inconsistente. Mesmo que a queda do ICMS se mantenha para sempre, só baixa a inflação deste ano.

Agora, vamos falar da possível mudança na regra de reajuste de preços de combustíveis pela Petrobras. Se você segura os preços por cem dias, o que acontece é o aumento da inflação mais longa, assumindo que haverá um reajuste de preços mais para a frente.

Na época do Tombini e da Dilma [ex-presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e ex-presidente da República, Dilma Rousseff], as expectativas longas estavam no teto da meta de inflação. Se vai camuflando aqui e ali, joga para 2023.

No setor de energia elétrica, houve uma queda forçada de preços, que não fazia sentido, e até hoje pagamos para corrigir aquele erro. Lá na frente, há correções e se paga uma conta mais alta por muito tempo.

Manobras para camuflar preços não passam de transferências para o futuro da inflação: ou porque futuramente você vai reajustar preços, ou porque vira déficit público.

Se a redução da alíquota do ICMS acontecer, estamos falando de um ponto a menos no IPCA deste ano, já que não se espera que a inflação suba em 2023. Agora, se mudar a regra de preços da Petrobras, a chance de ter um ajuste de peso mais para a frente é grande.

O combustível está atrasado, cerca de 15%, 20% de defasagem. Se a regra mudar, eu reduzo as expectativas para este ano e subo as do ano que vem.

E como fica a política monetária nesse cenário?

Fica mais complicado para o Banco Central, que foi surpreendido pela guerra entre Rússia e Ucrânia. A expectativa era que, na próxima reunião, o BC elevasse a Selic em mais 0,50 ponto ou 0,75 ponto e parasse por seis, nove meses.

O risco é: se as expectativas de inflação começarem a ir para perto de 5% em 2023, o modelo do Banco Central começará a rodar em um patamar mais próximo de 4%, mais próximo do teto do que da próxima meta de inflação. Será que ele vai se sentir confortável de parar de subir juros?

Outro cenário é: se ele [BC] parar, esperar para ver os efeitos e chegar em outubro, novembro, e a inflação estiver caindo muito pouco, ele vai retomar o ciclo de alta?

A alternativa a isso é manter os juros altos por muito tempo, só começando a reduzir em março, abril do ano que vem. Mas aí teria que começar uma redução mais gradual.

Isso tudo pode mudar se houver um cenário global de recessão, com os EUA e a China mais fracos. Se isso acontecer, a inflação mundial se reduz, e aí teríamos um choque diferente do cenário traçado pelo BC.

E como fica o PIB brasileiro neste ano? Muitos economistas vêm revisando o crescimento para cima.

Nunca tive cenário de PIB negativo. Olhava mais para oferta, produção agrícola, e achava que seria em torno de 0,5% de alta. Agora, minha projeção está mais perto de 1,5%, por causa do desempenho do primeiro trimestre.

Mas continuo achando que, a partir do segundo semestre, os efeitos da política monetária serão sentidos. Acho que haverá uma retração, por isso minha aposta está mais perto de 1,5% de alta do PIB do que de 2%.

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