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Stock options: os planos do setor de tecnologia recém-chegado à B3

Stock options: os planos do setor de tecnologia recém-chegado à B3

Os últimos anos foram favoráveis para empresas de crescimento, que viram a liquidez jorrante num mundo de taxa de juros zerada

Prática comum no setor de tecnologia é a remuneração em stock options - inclusive em empresas recém chegadas à B3.

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Com o desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil, as empresas de tecnologia – cartas marcadas no cenário americano – passaram a figurar entre as expoentes dos IPOs (oferta pública inicial de ações) no país. Prática comum no setor é a remuneração em stock options dos executivos do setor.

Em muitos casos, atualmente, a remuneração nesse ambiente competitivo não é realizada apenas de forma fixa. Stock options são um pagamento variável aos colaboradores de uma empresa, que passam a ter o direito de adquirir fatias acionárias de tais companhias.

Na prática, trata-se de um plano de opções de compra de ações da empresa, como forma de reter talentos para que a empresa siga crescendo.

Os últimos anos foram favoráveis para startups e empresas de crescimento, que viram a liquidez jorrante num mundo de taxa de juros zerada.

Para crescer continuamente, paga-se cada vez mais para profissionais de tecnologia, sendo a folha salarial uma das maiores dores de crescimento. Aí entram formas diferentes de remuneração.

Uma empresa pode fomentar o crescimento do negócio, incentivando seus funcionários por meio dessas opções. Com esse incentivo, o cenário é de “ganha-ganha”, já que a companhia se tornaria maior e os colaboradores iriam usufruir da apreciação das ações.

Vale ressaltar, contudo, que se trata de uma opção, como o nome já diz. Para que os colaboradores tenham acesso a essa participação acionária, teriam de exercer as opções com determinado pagamento para, em seguida, adquiri-la definitivamente.

A depender do preço das ações no mercado secundário, numa empresa de capital aberto, pode não valer a pena. Não é o caso da Infracommerce (IFCM3), que chamou atenção do mercado nas últimas semanas.

As stock options da Infracommerce

Uma das empresas que encabeçou a onda de IPOs de tecnologia no Brasil foi a Infracommerce. A empresa, que atua no chamado full commerce, presta serviços para operadores de comércio eletrônico de uma ponta a outra da venda.

O roteiro de seu crescimento começou em 2012, com a formulação de seu primeiro plano de stock options para atrair profissionais qualificados.

O segundo programa veio à tona em 2019, para formar a equipe que levaria a empresa à Bolsa — o que aconteceu dois anos mais tarde. Como a empresa teve seu processo de abertura de capital acelerado juntamente aos programas de stock options, não houve tempo hábil para que os planos em questão fossem exercidos.

Segundo relatou o Brazil Journal, a empresa já chegou ao mercado com uma diluição proposta de 13% para os acionistas, o que nunca é bem-visto pelos minoritários. A média do mercado é de 5%.

Além disso, o plano parecia ser muito favorável aos executivos da empresa, dado que o preço das opções variava entre R$ 0,43 e R$ 1,44 e o IPO saiu a R$ 16 por papel.

O prêmio proposto causou estranheza justamente pela Infracommerce supostamente estar pagando muito a seus colaboradores enquanto ainda tem muito a provar e consolidar em seu mercado.

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O recente movimento de queda das ações veio na esteira da proposta de mais um plano de stock options. Esse programa deve abarcar o conselho da empresa, que não tem tal incentivo pensando no longo prazo da Infracommerce. 

Os números de diluição com o programa parecem estar adequados ao praticado pelo mercado, mas o momento em que acontece, com as ações da companhia na mínima histórica e caindo quase 60% no ano, coloca mais uma pulga atrás da orelha dos investidores.

Comparação entre ações IFCM3 e o índice Ibovespa nos últimos 12 meses

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

O caso da Infracommerce mostra que o incentivo é bem-visto do ponto de vista de alinhamento entre executivos e empresa num “ganha-ganha” claro, mas a gestão dessas opções, tanto em novos planos como na option pool da empresa, pode gerar desconfiança.

Como funciona nas demais empresas de tecnologia que chegaram à Bolsa desde janeiro de 2021, que hoje têm valor de mercado acima de R$ 1 bilhão?

Nubank

Um dos maiores IPOs da história brasileira e o maior dentre as companhias locais no ano de 2021, o Nubank (NUBR33) captou US$ 2,6 bilhões (R$ 14,37 bilhões na cotação da época) em dezembro.

O IPO da maior fintech do mundo na Nyse foi acompanhado pela listagem dos BDRs (Brazilian Depositary Receipts) na B3. Por mais que o foco das operações esteja no Brasil – expandindo-se para México e Colômbia – a inspiração é o mercado americano há anos.

Práticas similares, como as stock options, foram implementadas há anos. Em 2020, por exemplo, ano anterior à abertura de capital, o Nubank distribuiu ações para 80% de seus colaboradores.

Na época, 100% dos funcionários eram elegíveis para participarem do RSU (restricted stock units). A restrição fica por conta do cronograma de aquisição, que pode ser baseado no tempo de trabalho ou em metas de performance.

Durante o IPO, claro, essa foi uma questão abordada e mantida pela fintech. O prospecto do Nubank, no que se refere à diluição de acionistas após a oferta, diz que o valor líquido contábil da companhia, mensurado em US$ 34 por ação, já levava em consideração a emissão de 62,21 milhões de ações classe A de acordo com o exercício de stock options entre 1º de outubro de 2021 e o dia 26 do mesmo mês.

O Nubank também mencionou a emissão de 3,61 milhões de ações sujeitas a RSU.

Unifique

No caso da Unifique (FIQE3), o plano de stock options não é aberto a todo o quadro de colaboradores. 

De acordo com o prospecto do IPO da empresa, que atualmente vale R$ 1,91 bilhão na B3, há um plano de opção de compra de ações vigente desde 11 de maio de 2021 e abarca diretores, gerentes, supervisores e outros colaboradores não citados.

Segundo a companhia, esse e demais planos de opções são administrados pelo conselho de administração, em consonância ao departamento pessoal e assembleia geral da empresa. 

O conselho da Unifique, diz o prospecto, poderá aprovar anualmente ou em outra periodicidade programas de stock options, “observados o limite máximo de diluição societária”.

Entre outubro de 2019 e fevereiro de 2020, a empresa recebeu o pagamento de R$ 40,81 milhões em subscrições de R$ 4,16 milhões de ações. 

Por mais que opere em um setor altamente consolidado, como mostram os dados do negócio com a Oi Móvel, a Unifique é um caso de tecnologia dentro do setor de telecomunicações. 

Para reter talentos, a empresa tem usado do recurso das stock options, mas com a diluição e preços bem adequados ao longo dos últimos anos. 

Brisanet

A provedora de internet Brisanet (BRIT3) precificou sua oferta de ações no piso da faixa indicativa em julho do ano passado, levantando R$ 1,4 bilhão.

A companhia é uma das maiores empresas entre provedores independentes de serviços de internet no Brasil no que se refere à tecnologia de fibra óptica, de acordo com números da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

Hoje, a companhia nordestina é avaliada em R$ 1,52 bilhão na B3 e tem 220 mil homes passed (residências que podem assinar seus serviços) em sua rede, mas não alcançou tais números com stock options.

Embora a política de remuneração da empresa diga que há a possibilidade de remuneração com opção de compra de ações para a retenção de executivos com “notória importância de seu trabalho desenvolvido”, por ora não há nenhum programa em aberto.

Tampouco antes do IPO, quando a empresa foi taxativa em dizer que nenhum plano de stock options foi outorgado pela empresa e seus administradores nos três anos anteriores à abertura de capital. 

Bemobi

A Bemobi (BMOB3) opera como desenvolvedora de soluções para distribuição de serviços digitais no âmbito da telefonia celular. O modelo de negócio é denominado B2B2C (business-to-business-to-consumer).

A empresa tem um amplo portfólio de serviços por meio de assinatura de aplicativos e jogos. Serviços de recados de voz por app, soluções antispam, adiantamento de pacote de dados e de saldo pré-pago estão entre as soluções.

Como uma empresa nativa em tecnologia — que tem seus serviços integrados a 88 operadoras de telecomunicações — tem sido necessário reter talentos por meio de stock options.

A controladora Bemobi Holding, listada na Bolsa de Oslo, na Noruega, lançou um plano de recompra de ações em outubro de 2018, incluindo colaboradores de suas controladas. Apesar de não ter sido encerrado, o plano está sendo substituído pelo chamado “Plano de Incentivo de Longo Prazo” e “Plano de Prêmio de Superação da Companhia”.

Os programas consistem em pagamentos de prêmio em moeda corrente aos beneficiários, e não implica na entrega de ações aos beneficiários ou diluição de acionistas. 

Entre 5 de agosto de 2015 e 23 de setembro de 2019, a empresa realizou cinco aumentos de capital os quais foram subscritos por administradores, controladores ou detentores de opções em aquisições de ações da Bemobi. 

Nas cinco operações, foram emitidas 39,49 milhões de ações, ao preço de R$ 20,35 cada. O valor pago pelos administradores, controladores ou detentores das stock options pagaram entre R$ 5,42 e R$ 6,81.

Desktop

A Desktop (DESK3) é mais uma provedora de serviços de internet, sendo a maior do interior do estado de São Paulo, de acordo com a Anatel. O core business da empresa está na operação de banda larga de internet com tecnologia de fibra óptica de alta velocidade.

No quarto trimestre do ano passado, a empresa teve um lucro de R$ 16,9 milhões, alta de 184% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

A empresa tem conseguido expandir suas operações geograficamente e também em termos de venda, tendo iniciado operações em diversas cidades do estado, como São Bernardo do Campo, já próxima da capital.

A história da empresa começou em 1997 com uma pequena informática e cresceu a ponto de hoje ter um valor de mercado de R$ 1,26 bilhão. O crescimento da empresa é notável, dado que o chamariz de talentos por meio de stock options só foi implementado no ano passado.

O primeiro plano de compra de ações foi aprovado pela empresa em maio de 2021. No caso da Desktop, poderão receber as opções administradores e empregados em posição de comando ou gerencial da companhia e suas controladas. O conselho de administração não participa do programa.

O número total de ações que poderão ser adquiridas pelos colaboradores elegíveis não ultrapassará 5% do capital social total da empresa em bases totalmente diluídas, equivalente a 2,93 milhões de ações de antes da abertura de capital, de acordo com o prospecto do IPO.

A prática de oferecimento de plano de opção de compra de ações é amplamente comum no segmento de tecnologia ou de empresas que prometem forte crescimento, sobretudo no ambiente competitivo e globalizado.

Empresas como Clearsale (CLSA3), Livetech (LVTC3), Dotz (DOTZ3) e Getninjas (NINJ3) são empresas com relevante estrutura tecnológica que realizaram IPO desde o início do ano passado e também têm planos de opção de compra de ações.

Cabe aos investidores se atentarem aos programas de stock options que não estão alinhados aos minoritários em termos de preço de exercício e trabalho a ser realizado pelas empresas.

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