Meta de inflação está errada e precisa ser revista, dizem os gestores Stuhlberger, Xavier e Jakurski

Para eles, objetivo atual é irreal, principalmente devido ao contexto de pressões inflacionárias globais mais fortes do que nunca

Foto: Shutterstock/Deemerwha studio

Três dos maiores gestores de fundos do Brasil, Luis Stuhlberger (Verde), Rogério Xavier (SPX) e André Jakurski (JGP), defenderam nesta quarta-feira (15) uma revisão para cima da meta de inflação dos próximos anos. O assunto tem sido discutido entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Atualmente, o objetivo para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) é de alta de 3% a partir de 2024. Essa meta, porém, é classificada como irreal pelos gestores, principalmente devido ao contexto de pressões inflacionárias globais mais fortes do que nunca.

Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a meta é de 2% ao ano, muitos economistas acreditam que a alta de preços ficará entre 3% e 3,5% nos próximos anos. O patamar é o mesmo previsto atualmente no Brasil. A diferença é que a inflação brasileira é historicamente muito mais alta.

Em evento promvido pelo BTG Pactual em São Paulo, Xavier, da SPX, foi o mais contundente na defesa da revisão da meta. Ele criticou a parcela do mercado que é contra a medida por receio de desancoragem das expectativas para a inflação.

“Se temos uma reunião para reavaliar metas de inflação, por que é um dogma tão grande corrigir? Quando o meu trade está errado, vou para outro. Por que estamos perseguindo um objetivo inalcançável?”, questionou.

“Ah, mas as expectativas vão ficar desancoradas. As expectativas já estão desancoradas. O custo para levar a inflação para essa meta seria muito grande”, reforçou.

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Ele afirmou também que, se o problema são a incerteza fiscal e a falta de confiança nas medidas de aumento da arrecadação anunciadas por Haddad, que estava na plateia do debate entre os gestores, esse assunto “tem que ser endereçado ao ministro”.

“Sejam sinceros e façam o argumento correto. Ministro, não acreditamos nesse pacote fiscal. Esse é o motivo [da desancoragem das expectativas], e não a meta. A trajetória da inflação precisa ser cadente, mas com metas alcançáveis. Se a inflação for para 4% ou 5%, mas a meta estiver em 3%, então os juros não caem? Não faz sentido.”

Stuhlberger, da Verde, que falou em seguida a Xavier, disse que concorda com o gestor e que discutir mudanças na meta não deveria implicar perda de credibilidade da política monetária.

“Buscar uma meta irrealista não é algo bom. Ter que ter um arcabouço fiscal crível, os dois juntos vão nos levar a um lugar melhor”, disse.

O gestor da Verde ainda indicou a leitura de estudos de Sergio Werlang, economista e ex-diretor do Banco Central que ajudou a projetar o regime de metas de inflação e que diz que os objetivos para os próximos anos estão muito baixos, o que obrigaria a manutenção da Selic muito elevada, sacrificando o crescimento brasileiro.

Jakurski, da JGP, tem uma avaliação parecida, mas defendeu a priorização pelo governo Lula da aprovação de uma nova âncora fiscal, como forma de substituir o teto de gastos, mecanismo que limita o aumento de despesas à inflação.

“A meta está errada”, afirmou. “O governo deveria atacar primeiro esse problema e deixar a PEC 110/45 (propostas de emenda à constituição que tratam da reforma tributária) para o ano que vem”, defendeu.

Campos Neto nega voto favorável do BC

Na noite da segunda-feira (13), Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, negou no programa Roda Viva, da TV Cultura, que o BC dará voto favorável a uma revisão para cima da meta.

Na conversa, ele defendeu o “aprimoramento” do objetivo, sem detalhar qual seria a ideia.

“Em nenhum momento defendemos simplesmente aumentar a meta, no sentido de ganhar flexibilidade, mesmo porque não é nossa crença. Acreditamos que, se se faz uma mudança de meta no sentido de ganhar mais flexibilidade, o efeito prático vai ser perder flexibilidade”, afirmou o presidente do BC.

Ao mesmo tempo em que defendeu um “aprimoramento”, Campos Neto disse que achava melhor não comentar a fundo o tema, já que é “sensível, mexe com o mercado”. “Isso vai ser discutido no CMN (Conselho Monetário Nacional, que se reúne na próxima quinta), não é uma proposta do Banco Central.”

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Uma das possibilidades em estudo, segundo o Valor Econômico, é uma meta de inflação de longo prazo que deveria ser cumprida em um horizonte mais longo, o que daria ao BC tempo para acomodar choques de oferta.

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