Menos por mais: Inflação encurta lista de compras, mas conta do consumidor cresce – entenda

Números do varejo em maio mostram queda no volume de vendas ao passo que receita dos comerciantes cresce

Foto: Shutterstock

As vendas do varejo vieram bem abaixo do esperado em maio, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (13), e traduzem os impactos da inflação na diminuição de compra das famílias e a mudança de comportamento dos consumidores.

As vendas cresceram 0,1% em maio na comparação com abril, muito aquém da expectativa de avanço de 1,0%, segundo pesquisa da Refinitiv. No saldo de 12 meses, o setor apresentou desaceleração de 0,4%, ante projeção de crescimento de 2,6%.

Os números do IBGE ainda mostram que o volume de vendas retraiu 0,2% na comparação com maio de 2021, ao passo que a receita nominal dos comerciantes registrou aumento de 17% – ou seja, a lista de compras diminuiu, mas a conta ficou mais cara.

O movimento reflete a espiral negativa que envolve a economia brasileira em três pontas: queda nos salários dos trabalhadores, corrosão da renda pela inflação e condições mais restritivas no crédito pelo aumento dos juros.

“As pessoas estão pagando mais caro com uma receita menor. Isso vai se traduzir na desaceleração do crescimento econômico do país”, afirma Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

O aumento da receita nominal em 12 meses ficou acima da inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que fechou maio deste ano com acumulado de 11,73%. O resultado mostra que, além de repor o valor da inflação, os comerciantes tiveram uma parcela de ganho real na margem.

“Pela perspectiva da receita, o impacto das pressões inflacionárias se torna ainda mais evidente”, diz Eduardo Vilarim, economista do Banco Original.

A disparidade entre a queda do volume e o aumento da receita também passa pelas diferenças metodológicas entre as pesquisas do IPCA e do desempenho do comércio. Enquanto a pesquisa da inflação considera uma variedade mais ampla com bens e serviços, a pesquisa de varejo foca em produtos de consumo.

“A pandemia criou uma espécie de demanda extraordinária para bens de consumo, estimulando a troca de produtos como eletrodomésticos e móveis, a inflação desses componentes passou a ser maior do que o índice de serviços, que são mais inerciais e que sofreram com a queda da mobilidade urbana”, afirma.

Em paralelo às pressões inflacionárias na economia, Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, afirma que o movimento joga luz sobre a mudança do comportamento dos consumidores com a reabertura da economia neste ano após meses de interrupção das atividades em 2021 pela pandemia.

O aumento da receita, diz o especialista, indica que os brasileiros estão mais seletivos na hora de gastar o dinheiro e prezando por qualidade, não quantidade.

“Tivemos períodos de oscilação no ano passado com o comércio abrindo e fechando, então as pessoas compravam o que dava. O comércio presencial tem um diferencial nesse processo de escolha, hoje elas podem procurar e comprar melhor”, explica.

Estabilidade no segundo semestre

A maior decepção com os dados de maio veio da queda inesperada de 3% no setor de móveis e eletrodomésticos, e do recuo de 2,2% em artigos de uso pessoal e doméstico.

A despeito do desempenho muito aquém do esperado para o mês, a tendência é que as vendas no varejo continuem perto da estabilidade nos próximos meses.

Pelo lado positivo, o setor deve se beneficiar de grandes datas de consumo na segunda metade do ano, em especial o Natal, Dia das Crianças e Black Friday. O aumento das parcelas do Auxílio Brasil também deve ajudar a sustentar as vendas.

As forças negativas são as já bastante conhecidas inflação, escalada dos juros e incertezas no cenário internacional.

“A alta da taxa de juros encarece o crédito e afeta as vendas de setores que dependem de financiamento, por exemplo”, diz Cláudia Moreno, economista do C6 Bank “No entanto, o aumento do valor de benefícios sociais, como Auxílio Brasil, pode atenuar o enfraquecimento do varejo”.

Na mesma linha, Pasianotto destaca a desaceleração econômica como grande desafio para o varejo. “A taxa de juros e inflação não vão cair de uma hora para outra, da mesma forma que os salários não vão subir de forma imediata. As datas comemorativas devem estabilizar, mas não salvar o setor”, diz.

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