Seja qual for o presidente da República em 2023 – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o atual, Jair Bolsonaro -, a situação fiscal do país será pior a partir do ano que vem. A avaliação foi feita pelo head de análise política da XP Investimentos, Richard Back, durante a TAG Summit, evento que acontece entre esta quarta (17) e amanhã.
Para Back, que participou do painel Macroeconomia e Política, o ministro da Economia, Paulo Guedes, considerado o fiador da política fiscal do governo Bolsonaro, deverá perder força em um eventual segundo mandato do presidente.
“O centrão não vai ajudar a reeleger o Bolsonaro [via ampliação de benefícios sociais] e entregar a agenda do governo para o Guedes”, disse Back, ao comentar as possibilidades na mesa para a substituição do teto de gastos, mecanismo que limita as despesas à inflação do ano anterior que os dois candidatos consideram alterar. “Se o Bolsonaro ganhar, vai ter pressão para tirar o Guedes.”
A atual equipe econômica já estuda formas de substituir o teto de gastos por um outro mecanismo de controle de despesas, como a criação de uma meta para a relação entre dívida pública e PIB (Produto Interno Bruto).
O principal cenário do analista, entretanto, é que Lula vença a disputa no segundo turno – pesquisa presencial da Genial/ Quaest divulgada nesta quarta mostra que o ex-presidente possui 45% das intenções de voto, contra 33% do atual ocupante do Palácio do Planalto.
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Nesse caso, ele considera que a melhor proposta para substituição do teto de gastos em estudo pela campanha petista seria a que prevê a manutenção do teto mas dá um “waiver” (licença para gastar) de quatro anos.
“De qualquer forma, não tem dinheiro. Por isso, fiscalmente vai ser pior. Não vão caber todas as demandas da sociedade no Orçamento”, afirmou. “Há uma outra proposta em estudo, a primeira que surgiu nas discussões da campanha do Lula, que foi a ideia de excluir investimentos da meta de superávit primário. Mas o problema é que aí tudo vira investimento.”
Na avaliação do analista, será muito complicado a volta de uma política fiscal mais sólida a partir do ano que vem. “Dificilmente haverá uma regra muito crível fiscalmente. Não vemos nenhum tipo de explosão irresponsável com o fiscal acontecendo, mas vai ser pior. O mercado vai olhar o fiscal por um enquadramento pior que tínhamos em 2017.”
BC encerrou ciclo, aponta BTG
Outro participante do painel, o economista-chefe do BTG e ex-diretor do Banco Central Tiago Berriel, afirmou que acredita que o BC encerrou o ciclo de aumentos nos juros com a reunião deste mês, com a taxa básica, a Selic, sendo elevada em 0,50 ponto, a 13,75% ao ano.
Prova disso, avaliou ele, é que o BC alterou o horizonte relevante da política monetária (ou seja, o período que está mirando para controlar a inflação) de 2023 para 12 meses encerrados em março de 2024.
“É uma mudança grande, que tinha que ser feita com cuidado, com discussão, e até discutida no CMN [Conselho Monetário Nacional]. É algo que o BC não faria se não estivesse convicto em encerrar o ciclo”, disse o economista.
Berriel, entretanto, salientou a quantidade de incertezas no caminho da política monetária, com as eleições presidenciais e a economia internacional podendo deteriorar as projeções para a inflação.
“Depois das eleições, a gente vai ter que endereçar um novo arcabouço fiscal, que trará novas dificuldades”, lembrou.