Os juros em patamar elevado, podendo subir mais em 2023, e a inflação persistente vão atrapalhar os planos de consumo do brasileiro no final de 2022 e, principalmente, no próximo ano. A manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600 mensais será insuficiente para conter a desaceleração, que deve afetar mais fortemente os setores mais dependentes do crédito.
“São dois vetores antagonistas, os juros e o auxílio. Acredito que a taxa de juros vai falar mais alto nessa briga e provavelmente teremos um consumo menor”, diz Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama Investimentos.
A taxa Selic saiu de 2%, patamar que estava em março de 2020, e chegou aos atuais 13,75% ao ano. Os juros elevados tendem a reduzir consumo e investimento e a expectativa é que esse efeito seja maior a partir de agora.
Isso ocorre devido a dois fatores. Primeiro, pelo efeito dos juros no preço dos produtos financiados. Com taxas maiores, o valor sobe e restringe o interesse dos compradores. E em segundo lugar, pelos gastos a mais das famílias e empresas com pagamento de juros, sobrando menos para o consumo.
“O consumo é o principal motor do PIB pela ótica da demanda. E essa variável é basicamente em função da renda. Se você fica mais rico, consome mais. É uma relação direta”, explica o economista.
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Na previsão da Órama, é esse cenário que fará com que o consumo das famílias, que responde por cerca 70% do PIB (Produto Interno Bruto), cresça menos em 2023. Para esse ano, a expectativa é que a expansão seja de 3,5% e, no ano que vem, de 0,5%.
E embora o número fechado de 2022 mostre um crescimento, nele está embutido uma desaceleração nos últimos meses do ano, já que o consumo das famílias no acumulado dos dois primeiros trimestres de 2022 acumula uma alta de 3,7%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O consumo das famílias é um dos componentes do PIB quando se analisa a ótica de demanda, ou seja, o tamanho da economia a partir do consumo (demanda) das famílias, governo, investimentos e exportações líquidas das importações.
Piora das expectativas
Enquanto não há uma definição da política fiscal (leia-se regra para crescimento dos gastos públicos), os agentes do mercado financeiro apostam em inflação mais elevada e, por isso mesmo, numa maior inclinação do BC (Banco Central) a segurar por mais tempo a Selic no atual patamar.
De acordo com o último Focus, a expectativa de inflação para 2023 passou de 4,94% para 5,01%, e a da Selic, de 11,25% para 11,50%.
De acordo com Espírito Santo, se antes era dada como certa a redução da Selic a partir de meados do ano que vem, agora isso só deve ocorrer mais para o final de 2023.
A piora no quadro econômico também é vista pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). No boletim de macroeconômica do mês de novembro, o Ibre espera desaceleração no crescimento no segundo semestre.
“Mesmo com estímulos fiscais proporcionados pelo governo, o consumo das famílias fica limitado pelo menor acesso ao crédito, dado o alto nível de inadimplência e o patamar elevado da taxa de juros”, explica o relatório encabeçado pela economista Silvia Matos.
O destaque é que essa desaceleração se dá de forma desigual, sendo mais forte no comércio do que no setor de serviços. De fato, o varejo cresce apenas 0,8% no acumulado do ano até setembro e o setor de serviços avança, em igual período, 8,6%.
E mesmo no varejo o comportamento não é homogêneo. Julio Hegedus Neto, economista-chefe da Mirae Asset, lembra que enquanto há um bom desempenho de segmentos como o de venda de combustíveis, beneficiado pelas mudanças tributárias, os segmentos de móveis, eletrodomésticos e têxteis estão com desempenho aquém do esperado.
“O comércio não mostra um crescimento sustentável, em especial nos segmentos mais sensíveis ao crédito. E ainda há o aumento da inadimplência e endividamento, que deve dificultar a atividade nos próximos meses”, diz.
E o que alivia esse cenário, no curto prazo, é a manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600. No entanto, esses recursos não estão sendo 100% destinados ao consumo, dado o contingente de quase 70 milhões de endividados do país.
“Esses R$ 600 ajudam a aquecer o mercado de pequenas obras e mantêm o consumo de alimentos, mas de fato muita gente está usando esses recursos para pagar dívidas”, avalia Hegedus.