A inflação se aproxima de seu ponto de virada, ou seja, começará a desacelerar, chegando a um patamar mais baixo até o final do ano. E qual o efeito disso no bolso do consumidor? Infelizmente, inflação mais controlada não significa barateamento de bens e serviços.
Os indicadores de inflação medem a variação de preços de uma cesta de produtos em um determinado período.
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Quando o índice fica próximo a zero em um mês ou em um ano, significa apenas que a cesta de produtos analisada não registrou variação positiva de preços no período – alguns produtos individualmente podem ter caído e outros subido mas, na média, o índice ficou sob controle.
Na ponta, ou seja, para o consumidor, a sensação é de que as coisas continuam “caras”. Um processo de queda generalizada dos preços só ocorre em momentos de deflação, que não é o que está sendo vislumbrado por economistas.
“Os preços vão se acomodar, mas em geral os produtos vão ficar mais caros [que antes da pandemia] e perderemos o poder de compra”, diz Flavio Serrano, head de macroeconomia da gestora Greenbay Investimentos.
A inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) chegou a 11,30% nos 12 meses encerrados em março. Essa é a maior variação para um período de 12 meses desde outubro de 2003, quando a inflação ficou em 13,98%.
A expectativa é que essa alta se reduza a entre 7% e 8% em dezembro, já que alguns fatores de curto prazo sinalizam para uma desaceleração da inflação, em especial a partir de maio.
Alimentos e energia
Os preços dos itens de alimentação e energia devem ser os primeiros a perder esse fôlego. Além disso, a política de aperto monetário, com a alta dos juros, também começa a fazer mais efeito. A taxa Selic atualmente está em 11,75% ao ano e em processo de alta.
Além disso, haverá impacto importante da adoção da bandeira tarifária verde nas contas de luz, que teve início no dia 16 e que, na prática, significa uma redução de cerca de quase 20% em relação a bandeira de escassez hídrica vigente até então.
Vale lembrar, no entanto, que esse efeito pode ser mitigado pelos reajustes concedidos pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Um segundo fator é o câmbio. O real se apreciou neste ano e, dessa forma, produtos importados ou com insumos importados terão um repasse de preços menor, como os combustíveis.
Serrano acrescenta ainda que a inflação dos alimentos também apresenta sinais de desaceleração. Na visão da Greenbay, a inflação irá terminar o ano em 7,5% e, no ano que vem, irá chegar a 3,5%.
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Mas diferentemente de ciclos inflacionários passados, essa alta atual se deu mais por problemas de oferta, causada pelas interrupções causadas pela pandemia e mais recentemente a guerra na Ucrânia, e não por uma demanda interna aquecida. E também é um efeito global, o que faz com que indiretamente o Brasil seja afetado, tornando mais difícil o controle da inflação.
“A pandemia mudou a dinâmica de vários países. Isso trouxe desafios que a gente não estava acostumado a lidar. E na sequência tivemos a guerra na Ucrânia, que fez os problemas com as cadeias de produção voltarem ao radar”, diz André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Braz explica que a estrutura produtiva no mundo todo foi afetada pela Covid-19 e a guerra na Ucrânia e ainda não voltou ao patamar pré-pandemia. Por outro lado, as grandes economias estão com a demanda aquecida devido aos fortes programas de estímulos feitos no início da pandemia, o que gera um desequilíbrio e causa uma inflação global.
“O Brasil sofre com uma inflação de demanda que não é aqui”, explica.
Um dos exemplos desse efeito “importado” é a produção de veículos. A demanda no Brasil não está tão aquecida, mas os preços dos automóveis estão em alta pela falta de peças em escala global.
Alta difusão
Os fatores internos e externos fizeram que a inflação no Brasil atingisse um índice de difusão de mais de 75%. Isso significa que mais de 75% dos itens que fazem parte do IPCA registraram aumento de preços. Quando a disseminação é alta, é mais difícil e demorado fazer o controle.
Braz acrescenta ainda que mesmo que a inflação caminhe para a meta, o país passará a conviver com um novo patamar de preços.
O primeiro ponto é porque o ciclo de inflação não será sucedido por uma deflação. O outro ponto é que parte da economia brasileira é altamente indexada. A inflação atual irá corrigir parte dos salários no futuro (o que ajuda a recuperar o poder de compra), mas também aluguéis e mensalidades escolares, por exemplo. As metas de inflação para 2022 e 2023 são de 3,5% e 3,25%, respectivamente.
Marcos Caruso, economista-chefe do Banco Original, também vê pouco espaço para o recuo dos preços. Alguns itens, mais voláteis, devem recuar. No entanto, de forma geral, o brasileiro terá que conviver com um novo patamar de preços. O Original espera uma inflação de 7,70% ao final do ano.
“A inflação tende a arrefecer, mas o nível de preços, não, já que nem todos os bens vão voltar a preços antigos” diz.
Alimentação em domicílio deve ceder primeiro
Para ele, em um ciclo inflacionário como o atual, o que deve ceder primeiro são os preços dos alimentos em domicílio. Na sequência, ele acredita em uma queda de bens industriais e posteriormente o controle do IPCA.
No caso dos alimentos, a desaceleração e a eventual queda de preços está ligada ao fato de ser um grupo de produtos mais volátil, assim como energia. Nesse sentido, com a apreciação do real e se houver queda adicional na cotação do preço do petróleo no mercado internacional, há também espaço para uma redução no preço dos combustíveis.
Já parte dos preços dos bens industriais podem ceder pelo efeito da inovação – um televisor com tecnologia 4K atualmente é mais em conta que há quatro anos. No entanto, esse é um segmento que ainda pode ser afetado pela escassez de insumos.