Crédito acelera mais entre os bancos privados, mas inadimplência também

Essas instituições concentram 42,7% do total de empréstimos do país, ante 37,2% antes do início da pandemia

Foto: Shutterstock

O apetite por crédito está se tornando cada vez maior entre as instituições privadas. É nesse grupo de bancos que o total de empréstimos avança, mesmo em um cenário de aumento da inadimplência, segundo dados do Banco Central.

Em junho, as instituições privadas tinham uma carteira de crédito de R$ 2,115 trilhões, um crescimento de 25,2% em 12 meses. No caso das públicas, o estoque é um pouco menor, de R$ 2,101 trilhões, mas com um aumento em patamar mais baixo, de 13,5% no mesmo período.

Terminam de compor esse grupo as instituições controladas por capital estrangeiro, que totalizavam em junho R$ 738,4 bilhões em crédito, uma alta de 10,2% em 12 meses.

Na avaliação de Bruno Komura, analista de renda variável da gestora Ouro Preto Investimentos, o avanço dos bancos privados está relacionado a uma menor concessão de créditos subsidiados pelos bancos públicos, em especial do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

“Hoje o BNDES tem uma taxa, a TLP (taxa de longo prazo), que não possui subsídios e para as empresas compensa ir para o mercado de capitais. Isso deu espaço aos bancos privados”, diz.

Esse processo teve início em 2018, quando houve a mudança da regra da TLP, mas ganhou tração neste ano por estratégia dos bancos privados.

Para Eduardo Siqueira, analista de Levante Investimentos, há um maior apetite por linhas de crédito que garantem ganhos maiores a essas instituições.

“Estamos vendo uma expansão de crédito para pessoa física sendo puxado principalmente pelo crédito livre nos bancos privados, buscando maiores spreads (diferença entre a taxa de captação e o juros efetivamente cobrado). Dessa forma, a disparidade de evolução entre o saldo de crédito de origem pública e privada vem sendo reafirmado”, diz.

Todas as operações do sistema financeiro totalizavam R$ 4,9 trilhões em junho, alta de 1,6% em relação ao mês anterior e de 17,8% em 12 meses. Normalmente, o BC estaria divulgando os dados de julho, mas a agenda de publicações está atrasada devido a greve dos servidores da autarquia durante o primeiro semestre.

Apetite maior

O crédito livre é aquele em que os bancos captam e podem emprestar o dinheiro para qualquer linha de crédito, como cartões, cheque especial, financiamento de veículos. Também não há limitação em relação às taxas cobradas nessas linhas, diferente do crédito direcionado (financiamento imobiliário, crédito agrícola).

Durante a divulgação do segundo trimestre, Bradesco (BBDC3, BBDC4) e Itaú (ITUB3, ITUB4), os dois maiores bancos privados do país, mostraram crescimento do crédito acima do projetado para o ano e mostraram apetite por essas linhas de maiores spreads (e risco).

No caso do Bradesco, a expectativa era que o crédito tivesse uma expansão no ano entre 10% e 14%. Em junho, o crescimento era de 17,7% na comparação com o mesmo mês de 2021.

No caso do Itaú, o avanço foi ainda maior. O crédito na instituição cresceu 25,4% ao considerar apenas a carteira no Brasil e 19,3% quando se inclui as operações no exterior (o banco possui atuação no varejo na Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai).

Leia mais:
Banco do Brasil (BBAS3) atinge patamar privado correndo menos riscos; ações disparam

Esse desempenho levou a instituição a revisar as projeções para o ano, que passaram de um crescimento entre 9% e 12% para a faixa de 15,5% a 17,5%. A expectativa considerando só o Brasil foi elevada de 19% a 21% – antes o crescimento projetado era de 11,5% a 14,5%.

O Banco do Brasil (BBAS3) também promoveu uma revisão em sua carteira, passando da expectativa de 8% a 12% de crescimento para 12% a 16%. Em junho, contabilizava uma expansão de 20,8%, em grande parte puxada pelo segmento agro.

O grupo de bancos de controle público relevantes inclui ainda a Caixa Econômica Federal e o Banco da Amazônia, que não publicam projeções (guidance).

Liderança no crédito

Os bancos privados respondem atualmente por 42,7% do total de crédito no país. Eles assumiram a liderança em março. Em fevereiro de 2020, antes do início da pandemia da Covid-19, essas instituições respondiam por 37,2% do total.

O inverso ocorreu com os públicos, que passaram de 47% para 42,4%. E houve estabilidade entre os estrangeiros, de 15,8% para 14,9%

O maior apetite por crédito, no entanto, vem acompanhado por uma maior inadimplência (atrasos acima de 90 dias).

Entre as instituições privadas, a inadimplência em junho era de 3,3%, uma alta de 0,9 ponto percentual em 12 meses.

Saiba também:
Bancos privados perdem R$ 7,6 bilhões na tal “margem com o mercado” – mas isso é grave?

Nos bancos de controle estrangeiro, a alta foi de 0,7 ponto, chegando a 2,7% de inadimplência. Já nas instituições de controle público, a inadimplência foi de 2%, uma queda de 0,3 ponto percentual no período.

Olhando para todo o sistema, a inadimplência alcançou 2,7%, alta de 0,4 ponto percentual na comparação com junho de 2021.

Fabricio Winter, sócio da Boanerges & Cia Consultoria, avalia que essa inadimplência continuará subindo. Os patamares de atrasos em níveis baixos estão atrelados à pandemia. No início de 2020, vários bancos fizeram renegociação de dívidas e deram carências e desde então estão administrando esses créditos, mas que isso será normalizado, com efeito nas taxas de inadimplência.

“Eu não tenho dúvida que a inadimplência vai subir. Não vai bater recorde, mas vai se aproximar ao patamar anterior à pandemia. A inadimplência foi artificialmente controlada e em algum momento irá voltar ao que era”, conta.

Em fevereiro de 2020, a inadimplência estava em volta de 3%. O recorde foi registrado em maio de 2017, quando chegou a 4%. Essa série do BC tem início em março de 2011.

Com maior inadimplência, os bancos também elevaram os spreads (diferença entre o custo de captação e o que é cobrado na ponta). Esse spread chegou a 17,7 pontos percentuais, alta de 3,3 pontos percentuais.

Compartilhe:

Leia também:

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.