As duas gigantes brasileiras do setor de papel e celulose, a Klabin (KLBN11) e a Suzano (SUZB3), apresentaram bons resultados no segundo trimestre, refletindo preços maiores para a celulose e aumento no volume de vendas.
As empresas brasileiras foram particularmente beneficiadas por um cenário de restrição à oferta da commodity, tanto por gargalos logísticos quanto por dificuldades na Europa, onde a escassez de energia elétrica atrapalhou a produção e os baixos níveis de estoque levaram os compradores a buscar fornecedores de celulose fora da região.
A receita da Suzano atingiu R$ 11,5 bilhões no segundo trimestre, avanço de 17% em comparação com o mesmo período de 2021, acompanhando o aumento no preço médio da celulose vendida no mercado externo, de 15%, para US$ 732 por tonelada. A celulose representa 82% da receita total da empresa.
Para o terceiro trimestre, a empresa espera que os preços da commodity subam ainda mais por causa de reajustes que deveriam ter ocorrido mais cedo neste ano e devem ser adotados nos próximos meses.
Na Klabin, a receita líquida cresceu 24% no segundo trimestre, para R$ 5 bilhões, refletindo tanto o maior volume de vendas de celulose (20%) quanto o de papéis (43%) em comparação com segundo trimestre de 2021, além de maiores preços médios para ambos os produtos.
Diferentemente da Suzano, a Klabin apresenta uma composição de receita mais diversificada. A empresa tem três segmentos que alimentam a receita quase que na mesma proporção, um modelo de negócios mais flexível que o da concorrente.
As duas empresas, porém, sofreram do mesmo mal no segundo trimestre: uma pressão negativa sobre a rentabilidade por causa de custos de produção mais altos e da valorização de 7% do real frente ao dólar em comparação com segundo trimestre de 2021, que reduz o valor em moeda local da receita proveniente de exportações.
A Suzano é particularmente mais suscetível aos efeitos do câmbio porque as exportações respondem por 83% da receita líquida. A Klabin é menos afetada, pois equilibra melhor a participação do mercado externo no faturamento no segundo trimestre deste ano, 44% da receita da empresa veio das vendas ao exterior.
Vale ressaltar, no entanto, que o câmbio afeta também outras linhas do balanço das empresas. A Suzano, por exemplo, viu suas despesas com operações financeiras dispararem porque, na comparação entre o segundo e o primeiro trimestre, foi o dólar que se valorizou em relação ao real.
Isso aumentou o valor da dívida da companhia na moeda local, e foi registrado no balanço como uma perda sem efeito no caixa. Sendo assim, a Suzano “borrou” a imagem de um bom segundo trimestre e apresentou uma redução no lucro líquido em 98%, para R$ 181 milhões.
A Klabin, que tem menos dívidas em moeda estrangeira, foi menos impactada por este efeito e reportou um lucro líquido de R$ 971 milhões, avanço de 35% em comparação segundo trimestre de 2021.
A bendita inflação
O maior preço das commodities, como soda cáustica, petróleo e gás natural, e o efeito disso sobre os custos foi sentido quase na mesma proporção pelas duas companhias.
A Suzano reportou um aumento de 28% no custo de produção no segundo trimestre, para R$ 6,1 bilhões, enquanto a Klabin viu essa despesa crescer 35%, para R$ 2,3 bilhões.
Para a Suzano, o impacto negativo foi compensado pela diluição dos custos fixos, com menos paradas programadas de fábricas e maior volume de produção. Já o custo da Klabin foi intensificado por um aumento na compra de madeira de terceiros, enquanto o projeto Puma II está em desenvolvimento.
O Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) das empresas avançou no segundo trimestre em termos ajustados – ou seja, excluindo efeitos não recorrentes sobre os resultados. O da Suzano cresceu 6%, para R$ 6,3 bilhões, enquanto o da Klabin cresceu 11%, para R$ 2 bilhões.
Porém, o avanço foi insuficiente para compensar o avassalador aumento nos custos de venda e ambas as empresas reportaram queda na margem Ebitda – o percentual da receita líquida que sobra após pagamentos dos custos e despesas operacionais.
A Suzano reportou uma margem Ebitda de 55%, queda de 6 pontos percentuais (p.p.) em comparação com mesmo período de 2021. Já a Klabin perdeu 5 p.p. para 39%.
Endividamento
Ambas as empresas apresentam níveis saudáveis de endividamento e um prazo confortável para o pagamento – a maior parte dos vencimentos está concentrado no longo prazo. Além disso, as duas têm forte capacidade de geração de caixa, o que afasta qualquer receio de insolvência.
A Suzano, apresentou um robusto caixa de R$ 20,3 bilhões, frente a um total de dívidas de R$ 75 bilhões. Porém, cerca de R$ 45 bilhões devem ser pagos somente de 2027 em diante, e o caixa disponível cobre o pagamento de dívidas até 2025.
Já a Klabin tem um caixa de R$ 7,4 bilhões em caixa e uma dívida bruta de R$ 27,9 bilhões. No entanto o caixa disponível seria suficiente para custear 59 meses da dívida, ou seja, quase 5 anos.
A alavancagem, medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda acumulado em 12 meses, a Suzano mostrou melhor desempenho ao reduzir a alavancagem para 2,3 vezes frente a 3,3 vezes em dólar registrado no segundo trimestre de 2021.
A Klabin apresentou uma alavancagem de 2,7 vezes no segundo trimestre frente a 3,3 vezes reportado em igual período de 2021.
Este indicador mostra a capacidade da empresa em honrar as dívidas por meio da geração de caixa provenientes das principais atividades. Portanto, teoricamente, quanto menor for a alavancagem, menor o risco de insolvência.
O que esperar pela frente?
A expectativa de juros mais altos nos EUA nos próximos meses – e de uma provável valorização do dólar em função deste movimento – deve beneficiar a Klabin e principalmente a Suzano, por causa de sua grande exposição ao mercado externo.
Além disso, a tendência é que os preços da celulose continuem a subir devido à falta de insumos como madeira no mercado global. Este fator, no entanto, também pode resultar em aumento de custos para as companhias, que teriam de pagar mais pelas matérias-primas.
A restrição no acesso aos insumos também deve impedir que as empresas aumentem a produção para tirar proveito do cenário de mercado favorável.
O presidente da Suzano, Walter Schalka, disse que a oferta limitada de madeira no Brasil impede o abastecimento de novas fábricas de celulose no país, o que deve frear investimentos em novos projetos nos próximos sete anos, segundo reportagem do jornal Valor Econômico.
Portanto, por mais que os preços do papel e da celulose subam, as companhias não seriam capazes de atender toda demanda reprimida devido à falta de matéria-prima.