A Suzano (SUZB3), uma das maiores produtoras de papel e celulose do mundo, divulgou na noite de terça-feira (27) uma queda de 98% no lucro no segundo trimestre em relação a um ano antes, para R$ 181,8 milhões. A queda é impactante à primeira vista, mas fica menos preocupante quando colocada em contexto.
O fator que conduziu à queda no lucro foram as perdas anotadas pela Suzano com instrumentos financeiros – títulos de dívida, por exemplo. No segundo trimestre deste ano, a companhia teve perda de R$ 6,9 bilhões nesta linha do balanço, frente a um ganho de R$ 12,9 bilhões no mesmo período de 2021.
Isso é explicado pelo fato de a maior parte das dívidas da Suzano (82%) ser indexada ao dólar e de a moeda americana ter valorizado 11% ante o real no segundo trimestre deste ano – diferentemente do ocorrido um ano antes, quando o dólar teve desvalorização.
O efeito disso foi um aumento na dívida bruta da Suzano, de 9%, para R$ 75,2 bilhões.
As regras contábeis determinam que a Suzano precisa incorporar aos resultados do segundo trimestre este valor atualizado. A forma de fazer isso é apontar na linha de resultados com instrumentos financeiros uma perda proporcional ao aumento no valor da dívida.
Essa perda, no entanto, não tem efeito no caixa da companhia. Isso porque a Suzano ainda não desembolsou o dinheiro para pagar a dívida. Isso acontecerá somente no futuro, quando chegar de fato a data do pagamento.
E essas datas ainda estão longe – 95% das dívidas vencem só daqui a um ano e quase 60% apenas de 2027 em diante. Além disso, o atual caixa da empresa de R$ 20 bilhões, seria suficiente para arcar com as dívidas até 2025.
Outros indicadores mostram Suzano saudável
Quando se analisa a proporção da dívida da Suzano em relação à capacidade de geração de caixa – a chamada “alavancagem” -, é possível ver que a companhia está numa situação confortável – melhor, inclusive, que no ano passado.
Ao fim do segundo trimestre deste ano, a alavancagem da Suzano estava em 2,3 – ou seja, a dívida era equivalente a 2,3 vezes a capacidade de geração de caixa. Um ano antes, esse índice estava em 3,1 vezes.
Segundo dados apresentados na plataforma TradeMap, a alavancagem média da Suzano nos últimos três anos é de 4,0 vezes – ou seja, este é um dos melhores momentos para a companhia em termos de solvência na história recente.
O indicador de geração de caixa usado no cálculo da alavancagem é o lucro operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, ou Ebitda. No segundo trimestre, o Ebitda da Suzano foi de R$ 6 bilhões, um recorde para este período, o que ajudou a reduzir a alavancagem da empresa.
Esta forte geração de caixa é reflexo do aumento nos preços das commodities. O valor da celulose em dólares avançou 13% no segundo trimestre ante o mesmo período do ano passado. Soma-se a isso um maior volume de vendas, que foi possível pela quantidade menor de interrupções na produção, com menos paradas programadas para manutenção.
Além disso, o indicador de liquidez imediata da Suzano mostra que a empresa tem capacidade de cumprir com todas as obrigações de curto prazo apenas com os recursos disponíveis de alta liquidez, como caixa, saldo em contas etc.
Neste segundo trimestre, o índice que mede esta liquidez atingiu 1,67, impulsionado por um robusto caixa de R$ 20 bilhões, frente a 1,5 em igual período de 2021, quando o caixa estava em R$ 11 bilhões.
Portanto, ao avaliar o contexto dos resultados, é possível notar que o endividamento da empresa está em patamares melhores do que no passado, embora o aumento da dívida pela valorização cambial.
Além disso, a empresa registrou forte capacidade em gerar caixa, o que traz um menor risco de insolvência, além de facilitar os planos para investimentos em aquisições e manutenções.
A Suzano também revisou os planos para maiores investimentos durante o ano. De acordo com a empresa, a previsão de investimentos (Capex) para 2022 passou a ser de R$ 16,1 bilhões, frente a R$ 13,6 bilhões planejados anteriormente.