No dia 1º de janeiro de 2023, o Brasil passará a ser liderado por um novo governo. O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, trará um viés diferente para a economia, enxergando o crescimento econômico através da criação de emprego, renda e consumo interno.
Na economia real, a maior parte das empregadoras são as micro, pequenas e médias empresas, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). No mercado de capitais, as chamadas small caps também estão em maior número.
Small caps são empresas de baixa capitalização de mercado, com liquidez menor e volatilidade maior do que as grandes empresas da Bolsa.
De acordo com dados da B3, 70% das empresas listadas na Bolsa brasileira são small caps, considerando o critério do valor de mercado de até US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões na cotação atual).
São 253 empresas de 362 listadas, que demonstram a pluralidade da economia brasileira e um mercado de capitais ainda incipiente no Brasil. São, também, as empresas mais suscetíveis à volatilidade e à aversão a risco dos investidores.
Durante os dois primeiros governos Lula, a economia foi pujante e o mercado de capitais brasileiro acelerou, beneficiando as empresas de baixo valor de mercado.
Agora, em função da volatilidade no mercado global e condições não muito favoráveis ao Brasil, a dinâmica deve ser mais difícil para as small caps.
Como será a economia de Lula
A política econômica do governo Lula prevê a retomada do poder de compra da população, com a redução do endividamento familiar e combate à inflação.
No documento arquivado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no período pré-eleições, a equipe do petista ressalta que a política econômica do atual governo foi equivocada no que se refere aos preços dos alimentos.
O presidente eleito cita constantemente que os pobres devem ser considerados no orçamento público. Isto é, os gastos governamentais devem incluir o Farmácia Popular e a manutenção do atual valor vitaminado do Auxílio Brasil, que deve voltar a ser o Bolsa Família.
O governo também promete criar um novo arcabouço fiscal, substituindo o Teto de Gastos, criado em 2016 pelo governo de Michel Temer.
No que se refere às empresas, a equipe de Lula prevê a mudança na política de paridade de preços da Petrobras, que hoje relaciona o preço dos combustíveis ao dólar, moeda em que efetivamente os combustíveis são negociados.
Além disso, há a expectativa pelo estímulo do investimento privado por meio de crédito, parcerias e concessões.
Os impactos do custo do dinheiro para small caps
O viés do Estado como um motor para a economia contrata um modelo de governo expansionista, antecipando os gastos que, em tese, podem aquecer a economia.
Em Brasília, a falta de clareza quanto à pauta econômica, que ainda não escolheu quem será o ministro da Fazenda, preocupa os investidores.
O grupo técnico de transição do tema é composto por cinco integrantes com visões divergentes — inclusive pelo ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que hoje é o principal postulante ao cargo.
A reunião de leituras diferentes para a economia brasileira indica um caminho mais ao centro do debate, o que é positivo para o pragmatismo da política brasileira.
Entretanto, há a percepção de que a responsabilidade fiscal está em xeque, com o martelo batido para um furo do Teto de Gastos na ordem de quase R$ 200 bilhões em 2023, com o intuito de cumprir as promessas de campanha.
Isso fez com que os juros futuros disparassem nos últimos 30 dias. Desde o dia 4 de outubro, o DI de janeiro de 2025 subiu dois pontos percentuais e agora está em quase 13,4%.
Cerca de 40% da dívida pública total está ligada ao CDI. O mercado tem precificado a alta da taxa de juros por conta de uma eventual perda de credibilidade fiscal, o que deve trazer mais inflação à frente.
O movimento altista da taxa de juros eleva o custo do dinheiro e impacta diretamente as empresas de menor tamanho, tanto sob o ponto de vista da capitalização de mercado como do estímulo à operação em si.
A percepção de valor das small caps é impactada negativamente em seu valuation, ou avaliação das ações. O valor de toda e qualquer empresa nada mais é do que a capacidade de geração de caixa da mesma ao longo do tempo.
A taxa de juros maior ao longo dos anos representa uma maior taxa de desconto sobre os resultados gerados no período. Os resultados anuais e na perpetuidade somados representam o valor das small caps, que na maior parte dos casos são empresas de crescimento, que têm a maior parte de seu valor no futuro.
Quanto maior o desconto, menor o valor. Quando os múltiplos são reajustados para baixo, os preços no presente sofrem.
Além disso, as small caps têm dificuldade em captar e rolar dívidas, dado o aumento das despesas financeiras, que acabam machucando os resultados líquidos das operações.
Nos últimos anos, a maior parte das abertura de capital na Bolsa brasileira foi realizada por empresas de baixa capitalização de mercado.
Entre 2020 e 2021, 72 empresas realizaram IPO na B3, sendo que a maioria se encaixa no quadro das small caps. As companhias aproveitaram a queda da Selic, que barateou o financiamento do crescimento, mas agora o ambiente é de contração monetária.
Índice SMLL indica vida dura à frente com Lula
A contar pelo início do desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil, em 2018, o índice SMLL, da B3, superou o Ibovespa até aproximadamente abril deste ano. Desde então, a carteira teórica de small caps da Bolsa brasileira tem sofrido de forma mais intensa.
O índice, que inclui ativos fora da lista que representa 85% do valor de mercado das empresas na B3, é composto por 134 companhias e pode ser observado como uma verdadeira proxy do desempenho da economia brasileira.
O Ibovespa é altamente concentrado em Petrobras e Vale, que operam matérias-primas negociadas no exterior.
Um dos setores mais representativos do SMLL é o de consumo cíclico, ligado ao comércio varejista, que representa 7,28% do índice.
Empresas como Via (VIIA3), Lojas Marisa (AMAR3) e C&A (CEAB3) tendem a se beneficiar da promessa de Lula pela volta do poder de compra das camadas mais pobres da sociedade, que seguem altamente endividadas.
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Mesmo que as empresas do varejo tenham acesso a consumidores que possam se beneficiar de uma retomada do poder de compra, os valuations ainda estão majoritariamente esticados e as empresas lidam com forte concorrência.
Outro setor de relevante importância para o índice é o consumo cíclico ligado à construção civil. São 13 empresas do segmento que integram o SMLL e podem se beneficiar das iniciativas do governo para acelerar o setor, com taxas de juros subsidiadas, além do Casa Verde e Amarela (ou Minha Casa, Minha Vida).
No índice, há empresas ligadas à alta renda, como Eztec (EZTC3), Gafisa (GFSA3) e Trisul (TRIS3), e à baixa renda, como Tenda (TEND3) e parte da Even (EVEN3).
Vale a pena investir em small caps durante o governo Lula?
Ao investir em small caps, o investidor deve ter um olhar crítico e, se possível, especializado. Embora haja exceções, essas empresas têm por característica seu maior valor no futuro, enquanto não espera-se grandes distribuições de proventos.
Empresas de consumo não cíclico e utilidade pública tendem a crescer de forma mais devagar, enquanto tecnologia e saúde – segmentos que concentraram os últimos IPOs – procuram maior escala e potencial de alta rentabilidade.
De acordo com dados da Refinitiv do dia 17 de novembro, apresentados na plataforma do TradeMap, 14 empresas têm mais de sete recomendações de compra por analistas, nenhuma recomendação de venda e upside de mais de 50% com base no preço desta da última terça-feira (28).
Os setores são variados e os analistas de mercado enxergam valor a ser destravado pelas companhias, mas enquanto o governo Lula não der indícios de previsibilidade econômica, os valuations das small caps demorarão a convergir com os resultados.