O avanço da vacinação no Brasil, ao longo do segundo semestre de 2021, foi um respiro para as empresas do setor de saúde. Com a maior parte da população imunizada contra a Covid-19, os hospitais, os planos de saúde e os laboratórios foram, aos poucos, relembrando os tempos do “velho normal”.
Quando a pandemia viveu seus momentos mais graves, o setor teve dias de agonia. Para os hospitais, os procedimentos eletivos, como cirurgias, foram sendo adiados, ao mesmo em que as pessoas evitavam ir às unidades para não ter de encarar uma aglomeração. Para os planos de saúde, as despesas aumentaram, com os clientes recorrendo mais aos seus benefícios para fazer exames e realizar internações.
Não significa, porém, que os próximos tempos serão de tranquilidade. Tudo bem, o pior da pandemia pode já ter ficado para trás. Mas a disseminação da Ômicron, a nova variante da covid-19, e os novos surtos de gripe em grandes cidades brasileiras têm deixado os investidores preocupados. O sistema de saúde viverá tudo outra vez?
A Ômicron e os novos surtos gripais chegaram para valer em dezembro e continuam se fazendo sentir em janeiro. Porém, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que periodicamente divulga com a situação dos hospitais, ainda não publicou números para dezembro.
Pelo menos por enquanto, os números mais recentes da ANS mostram uma situação estável, com uma ocupação de 73% em novembro, em linha com novembro de 2019, antes da pandemia.
No entanto, há alguns dados preliminares que já deixam o mercado em alerta. Na sexta-feira, dia 7, a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) divulgou um balanço no qual mostra que, desde dezembro, os casos de pacientes com covid-19 aumentaram 655%, em um levantamento que envolve unidades de 10 estados e do Distrito Federal. E um terço dos casos exigiu internação.
É um número que preocupa, uma vez que estudos internacionais indicavam que o risco de internações com a Ômicron, uma variante que parece mais branda, era 80% menor que a média das demais variantes.
Não por acaso, algumas das principais empresas do setor amanheceram o dia em queda na Bolsa. A Qualicorp (QUAL3) é quem liderava as perdas do Ibovespa, com desvalorização de 4,11%, por volta das 11h10. As ações de Hapvida (HAPV3) e NotreDame (GNDI3), duas empresas que vão se fundir, também estavam entre os maiores recuos, com baixas de 3,43% e 3,11%, respectivamente. A seguradora SulAmérica (SULA3), que também atua em saúde, perdia 2,55%.
No fim de dezembro, a Hapvida, uma das principais operadoras de saúde do País, já havia publicado um balanço que deixara o mercado preocupado. Naquele mês, até o dia 20, a sua rede atingiu um pico de atendimento de urgência e emergência para todas as doenças relacionadas a síndromes respiratórias, em torno de 14 mil, ante 7 mil registrados em março, dia 15 de 2021, no auge da segunda onda da pandemia da covid-19.
Quando se analisa as ações do setor em um período mais longo, nota-se que ninguém passa ileso. Os tombos passam pelos planos de saúde, pelos hospitais e pelos laboratórios, como se vê na tabela abaixo, com as variações de 2021 e do acumulado de janeiro de 2022.
Variação (%) | |||||||||
QUAL3 | HAPV3 | GNDI3 | RDOR3 | ODPV3 | KRSA3 | AALR3 | FLRY3 | PARD3 | |
jan/22 | -7,42% | -3,88% | -3,44% | -6,53% | -1,96% | -12,53% | -1,84% | -2,78% | -5,39% |
Ano 2021 | -47,98% | -28,19% | -22,70% | -32,93% | -10,26% | -27,92% | 34,86% | -19,29% | -13,41% |
A queda, vale dizer, não se deve somente a uma possível piora da pandemia. Para os planos de saúde, em especial, o cenário fica mais grave em razão de uma decisão da ANS que definiu uma redução dos preços ao consumidor, de 8,19%, entre maio de 2021 e abril de 2022.
O reajuste negativo foi um marco histórico para o setor, pois, pela primeira vez, houve uma redução da mensalidade dos beneficiários, que é resultado da menor utilização de serviços na saúde suplementar ocorrida em 2020, em razão da pandemia.
Não bastasse tudo isso, ainda há o cenário econômico, que seguirá difícil em 2022, com uma perspectiva de baixo crescimento do PIB e desemprego ainda alto. Vale lembrar que mais de 70% dos planos de saúde advêm de carteiras corporativas — o que pode ser um mau presságio. Os hospitais e os laboratórios também têm uma forte correlação com o desenvolvimento do mercado doméstico.
Uma nova piora da pandemia também deve afetar negativamente os custos médicos dos hospitais, adiando a recuperação das empresas, uma vez que cerca de 45% dos custos médicos estão relacionados a hospitalizações.
Contudo, consideramos que as empresas do segmento de laboratórios de medicina de diagnósticos e as operadoras de planos de saúde ainda terão impactos mais negativos em seus resultados.
Em meio a isso, o setor tem vivido um momento aquecido de consolidações. O mercado considera que a Fleury pode liderar a próxima onda de fusões e aquisições, podendo ter como alvo a Alliar, por exemplo, ou mesmo ser adquirida por outras operadoras hospitalares, com o objetivo de aumentar seu portfólio de serviços. A Pardini, por sua vez, já destacou que procura crescer via aquisições, tendo em torno de 20 alvos em análise.
Enquanto isso, a NotreDame Intermédica e a Hapvida já acertaram a fusão de suas operações, sendo aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em dezembro do ano passado. A fusão ocorrerá por meio da incorporação das ações da Intermédica pela Hapvida, dando origem a uma gigante mundial entre as provedoras de saúde.