A temporada de resultados do quarto trimestre de 2021 do setor bancário teve um destaque negativo: Bradesco (BBDC4). Com queda anual do lucro e projeções tímidas, o banco reconheceu que o ano passado foi mais difícil do que o imaginado. Hoje, o cenário é diferente.
O Bradesco conseguiu apresentar um desempenho sólido ao longo do primeiro trimestre de 2022, e o resultado divulgado na noite da última quinta-feira (5) agradou o mercado — mesmo com aumento dos calotes.
Por volta das 13h30 desta sexta-feira (6), os papéis preferenciais do banco subiam 2,37%, para R$ 18,14, após avançarem 4% mais cedo – diferentemente do Santander (SANB11), que viu suas units recuarem 4,5% em resposta ao balanço do período entre janeiro e março.
O lucro líquido recorrente da instituição atingiu a marca de R$ 6,8 bilhões, sendo que as projeções de mercado apontavam para um número abaixo de R$ 6,7 bilhões.
O resultado representa uma alta de 4,7% ante o mesmo trimestre do ano passado, período em que havia a expectativa de melhor retomada da economia, ao passo que a maior poupança que mitigava calotes.
O banco até precisou elevar sua PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) expandida no trimestre, chegando a R$ 4,83 bilhões, alta de 23% em 12 meses e o maior patamar desde o terceiro trimestre de 2020, além do recrudescimento da inadimplência ter pressionado a qualidade de crédito.
Contudo, o Bradesco aceitou a realidade do novo contexto de concessão de crédito no Brasil e tem tido sucesso com a reprecificação dos produtos, visto o ciclo de alta da taxa de juros no país.
A margem financeira com clientes saltou 19,6% na comparação anual, para R$ 15,81 bilhões, com saldo médio 12,1% melhor na mesma base comparativa.
Maior risco, maior retorno?
A carteira de crédito expandida do Bradesco saltou 18,3% em 12 meses, superando a marca de R$ 834 bilhões. O banco mostrou que tem originado mais crédito por dia útil, principalmente focado nas pessoas jurídicas.
Esse é o fator preponderante para que a instituição consiga correr mais riscos, objetivando maior retorno, com a operação de crédito.
Aproximadamente 40% de toda a carteira está concentrada em crédito para grandes empresas, que têm inadimplência muito baixa (os atrasos acima de 90 dias são apenas 0,1%).
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Com isso, a companhia consegue correr mais riscos emprestando em operações de potencial maior inadimplência, principalmente com pessoas físicas. Nesse sentido, destaca-se o cartão de crédito, que é um dos mais custosos da indústria.
Segundo Octavio de Lazari Júnior, CEO do Bradesco, em teleconferência de resultados nesta manhã, a atividade com cartões de crédito naturalmente terá menor qualidade (ou seja, maior inadimplência), mas os ganhos mais do que compensam as perdas.
Como um todo, no agregado das operações, o índice de inadimplência de 15 a 90 dias ficou em 3,6%, maior patamar desde dezembro de 2019. No extrato acima de 90 dias, o crédito não produtivo foi de 3,2%, também o maior nível desde 2019.
Para Lazari Júnior e toda a direção do Bradesco, é esperado que os índices ainda subam cerca de 10 a 20 pontos-base ao longo do próximo trimestre e, no segundo semestre, se estabilizem em patamar mais elevado. Ou seja, sob nenhuma hipótese no horizonte as taxas de inadimplência devem recuar.
Vale ressaltar, com isso, que a carteira de crédito teve maior inadimplência, de forma controlada, mas está atrelada a produtos com maior margem e “segura” com grandes clientes.
É esperada a venda de alguma carteira de crédito ao longo deste ano, o que pode remunerar a operação do banco, mas ainda não há previsão para tal.
Quem está certo: Bradesco ou setor?
O Bradesco tem se destacado no setor bancário, sobretudo entre os grandes bancos, pelo alto saldo de PDD que mantém em suas contas. O nível atual é de R$ 47,1 bilhões, patamar sem precedentes desde o começo da pandemia.
A escolha do banco mostra-se acertada após os últimos trimestres terem sido de aumento das provisões.
Desde o período entre julho e setembro do ano passado, a instituição tem aumentado sequencialmente o PDD e os R$ 4,8 bilhões do primeiro trimestre de 2022 foi o maior desde março de 2020.
Na visão do banco, as demais instituições deverão acompanhar a tendência e elevar as provisões para devedores duvidosos, dada a deterioração econômica, das estimativas inflacionárias e de contenção da taxa de juros.
O Santander, por exemplo, teve de elevar o PDD em mais de R$ 5 bilhões no primeiro trimestre deste ano, mas o saldo ainda é de R$ 28,4 bilhões.
Por mais que a inadimplência acima de 90 dias do banco seja 0,3 pp menor que a do Bradesco, a tendência é de alta. Quase metade da carteira do Santander está alocada em pessoa física.
Guidance responde às perspectivas positivas
Junto ao resultado do quarto trimestre do ano passado, o Bradesco apresentou um guidance questionado pelo mercado em termos de conservadorismo e baixa perspectiva de crescimento.
Algumas das linhas, inclusive, eram menores que as do Banco do Brasil (BBAS3), estatal menos eficiente entre as quatro grandes instituições listadas. Agora, porém, as estimativas apontam para melhora.
A projeção de crescimento para a carteira de crédito foi mantida, entre 10% e 14%, embora o resultado do primeiro trimestre tenha superado as expectativas.
Contudo, por conta dos spreads praticados, a projeção para a margem com clientes saltou dez pontos percentuais, saindo de 8% a 12% para 18% a 22%.
Outro ponto positivo é a expectativa por menores despesas operacionais, que considera despesas de pessoal, administrativas, entre outras.
Agora, o Bradesco estima um gasto entre 1% a 5%, ante a previsão anterior de 3% a 7% – aumentando consideravelmente a eficiência operacional do banco.
A PDD expandida deve atingir entre R$ 17 milhões e R$ 21 milhões neste ano. A previsão, que aumenta em R$ 2 bilhões o piso e o teto da antiga estimativa, foi adequada frente à PDD do primeiro trimestre. Anualizando-a, o número seria de R$ 19,2 bilhões ao fim de 2022.
A readequação do guidance do banco foi fomentada pelos ajustes econômicos e fatores geopolíticos que circundam a economia local e global, de acordo com o banco. A melhora nos índices trará um carrego positivo para o início do ano que vem.
Com múltiplos abaixo das médias históricas, o resultado reafirma a posição da maior parte do mercado, que entende que as ações do banco são um bom negócio neste momento.
Dados compilados pela Refinitiv, apresentados na plataforma do TradeMap, mostram que de 15 recomendações, 12 são de compra dos papéis neste patamar, enquanto três analistas acham que é melhor aguardar.
O preço-alvo mediano indicado para as ações do Bradesco é de R$ 24,55, upside de 35% sobre o preço atual de negociação.
