O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, nesta quarta-feira (04), manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. A decisão interrompeu o ciclo de flexibilização monetária iniciado em março, que acumulou cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual.
A pausa ocorreu em um ambiente de maior incerteza no cenário doméstico. A reeleição de Lula trouxe novas dúvidas sobre a condução da economia a partir de 2027, especialmente em relação ao quadro fiscal e à trajetória das contas públicas. Após o resultado eleitoral, o mercado reagiu com pressão sobre o câmbio e os juros futuros. O Copom também ressaltou que acompanha os efeitos da política fiscal sobre a condução da política monetária e os ativos financeiros.
A inflação segue como o principal foco de atenção da autoridade monetária. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,58% em 12 meses até setembro, acima do teto da meta de inflação, de 4,50%. Já o IPCA-15, prévia da inflação oficial, desacelerou de 0,70% em setembro para 0,32% em outubro, mas o acumulado em 12 meses subiu para 4,62%. O Banco Central também destacou que a inflação cheia e a média das medidas subjacentes aceleraram nas divulgações mais recentes, permanecendo acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta.
As expectativas também seguem pressionadas. No Boletim Focus mais recente, a projeção para o IPCA de 2026 subiu de 5,19% para 5,22%, enquanto a estimativa para 2027 chegou a 4,8%. Ambas permanecem acima da meta. A projeção do próprio Copom para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, aumentou para 3,5%, considerando os choques de oferta incorporados desde a última reunião.
Na atividade econômica, os indicadores apontam para uma desaceleração mais acentuada, principalmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico. O mercado de trabalho, por sua vez, continua resiliente, embora apresente sinais de desaquecimento na margem. A taxa de desemprego recuou para 5,2% no trimestre encerrado em setembro, mesmo diante da moderação da economia.
No cenário internacional, o ambiente tornou-se mais adverso. A guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões entre Estados Unidos e Irã continuam no radar, com destaque para os efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e de seus derivados. O Copom também chamou atenção para a política monetária mais restritiva nas economias avançadas e para a maior volatilidade nos preços dos ativos e das commodities. Esses fatores podem afetar o câmbio e a inflação brasileira e, consequentemente, as condições financeiras domésticas.
O Comitê avaliou que os riscos para a inflação permanecem elevados, com predominância de fatores de alta. Entre eles, estão a possibilidade de uma desancoragem mais prolongada das expectativas, a maior persistência da inflação de serviços, uma eventual depreciação cambial e estímulos à demanda que levem a atividade econômica a crescer acima de seu potencial. Por outro lado, uma desaceleração mais intensa da economia brasileira ou global e uma eventual redução nos preços das commodities poderiam contribuir para aliviar as pressões inflacionárias.
Diante desse conjunto de fatores, o Copom optou por interromper o ciclo de cortes e manter os juros em 13,75% ao ano. O Comitê considerou que o patamar atual da Selic, substancialmente contracionista, é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta. A combinação de expectativas mais elevadas, incertezas sobre o cenário econômico e desaceleração mais acentuada da atividade exige cautela na condução da política monetária.
O Banco Central afirmou que continuará acompanhando a evolução da inflação, das expectativas, da atividade econômica e do cenário externo para manter o grau de restrição monetária necessário à convergência dos preços para a meta.
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