Viridis atinge captação de US$ 154 milhões para projeto de terras raras
A Viridis Mining and Minerals, mineradora australiana, concluiu mais uma captação de recursos e, com isso, atingiu US$ 154 milhões em capital próprio, suficiente para avançar com seu plano de financiamento do projeto de terras raras no Brasil.
A mineradora acabou de fechar uma rodada de captação de US$ 75 milhões com a gestora inglesa One Investment Management (OneIM). Com US$ 11 bilhões de ativos, a gestora é especializada em investimentos alternativos e foi fundada por Rajeev Misra, ex-executivo do SoftBank, e tem o Mubadala, fundo dos Emirados Árabes, entre os investidores de seus veículos de investimento.
A operação envolve emissões de novas ações — a Viridis tem ações negociadas na bolsa de valores da Austrália (ASX) — e os recursos serão destinados para o projeto Colossus, localizado em Caldas (MG). A mina está localizada em depósitos de argila iônica, como os da Serra Verde, a única mina em produção no Brasil e recém adquirida pela USA Rare Earth.
A Viridis estima o processamento de 5 milhões de toneladas de minério por ano nesta mina, para produzir um concentrado misto de terras raras, que contém elementos como neodímio e o praseodímio, usados na fabricação de superímãs, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e tecnologia militar avançada.
“Após a conclusão do DFS [estudo de viabilidade econômica], agora garantimos fontes de financiamento suficientes para atender plenamente ao requisito indicativo de capital próprio [equity] para o Colossus, reduzindo significativamente os riscos do caminho de financiamento do projeto à medida que fazemos a transição para a execução”, disse Rafael Moreno, diretor-executivo da Viridis, em comunicado.
Entenda-se por execução: finalização dos contratos comerciais firmes de compra (offtake); estruturação do pacote de dívida com agências de fomento; contratação de engenharia, compras e gestão da construção (EPCM, na sigla em inglês); e compra de equipamentos com longo prazo de entrega.
Mas tudo isso depende ainda da decisão final de investimento, prevista para o quarto trimestre de 2026.
O custo do projeto é estimado em US$ 449 milhões, segundo o último estudo de viabilidade econômica do projeto. Para financiá-lo, a empresa planeja uma estrutura de capital composta por 70% de dívida e 30% de equity (participação societária).
Com a captação da OneIM, a Viridis completa a parte de equity. As gestoras brasileiras Régia Capital e Ore Investments também são sócias do negócio, com aporte de US$ 30 milhões na mineradora. Em seus comunicados, a mineradora não especifica quem são os outros sócios, apenas informa que é um “grupo selecionado de acionistas institucionais”.
Para a parte de dívida, há conversas com instituições financeiras do Canadá, Austrália e França, disse Klaus Petersen, diretor-executivo da empresa no Brasil, ao Reset.
Garantias de compra
A empresa assinou um memorando de entendimento (MOU) de compromisso de compra (offtake) com a belga Solvay, líder em processamento de terras raras fora da China.
É na etapa de separação e refino que está a maior parte do valor agregado da cadeia de terras raras. Cerca de 80% da capacidade global de refino está concentrada na China, que hoje também domina a extração e o processamento desses materiais.
Os contratos de compras antecipadas são importantes para o financiamento da Viridis e outras junior miners, pois podem ser dados como garantias para os credores. “O único ativo que um projeto pré-operacional tem é o contrato de offtake. Ele que vai dar o último ponto no nosso financiamento”, diz Petersen.
A expectativa é assinar a versão final vinculante (binding) do acordo este mês. Mas ele pode ser ameaçado pelo controle do governo sobre o setor, segundo o executivo. Nesta quarta-feira, o Senado aprovou o projeto de lei que cria uma política nacional para minerais críticos.
O texto, que precisa de sanção presidencial, define que contratos de fornecimento sejam homologados por um conselho composto por uma maioria de membros do Executivo, em conjunto com a Agência Nacional de Mineração (ANM), quando “possam afetar a segurança econômica ou geopolítica do país”.
“O temor é que a redação dê margem para o governo regular, interferir ou exigir chancelas para contratos de venda futura”, afirma Petersen. “Se o governo vem com a lei e fala ‘só exporta quem eu aprovo’, esse processo todo [com a Solvay] para imediatamente.”
Os comunicados ao mercado da companhia já vinham sinalizando essa preocupação, ao destacar a presença de sócios brasileiros em sua estrutura. Em um dos materiais sobre as últimas captações, a empresa diz: “essa colocação (placement) expande significativamente a participação societária brasileira na Viridis, demonstrando expressiva confiança doméstica no projeto e alinhamento com a estratégia de industrialização de terras raras e refino no Brasil.”
Além do aporte já realizado, a Régia e a Ore são os gestores de um fundo de private equity de minerais críticos que tem o BNDES e a Vale como investidores âncora. A Viridis é forte candidata a ser o primeiro investimento deste fundo.
De olho no refino
O MOU com a Solvay prevê que cerca de 70% da produção da Viridis seja destinada à empresa belga, que tem uma planta de refino na França. O acordo vai além da mera exportação de matéria-prima, afirma Petersen.
Ele prevê que a Viridis vai incorporar à planta no Brasil uma tecnologia da Solvay de separação por solventes. Essa etapa vai permitir retirar o lantânio (um elemento considerado de baixo valor) do carbonato misto (produto antes da separação dos elementos individuais). A inclusão dessa tecnologia aumentou o capex do projeto, de US$ 360 milhões para US$ 449 milhões.
O lantânio é usado pela indústria petroquímica. Por não ter propriedades magnéticas, ele não é tão cobiçado quanto o neodímio e o praseodímio. Apesar de não ter grande valor comercial para a Solvay, segundo Petersen, o isolamento desse minério traz dois ganhos: exportar um produto com maior valor, por ser mais refinado, e reduzir aproximadamente 40% o peso que será exportado.
Antes dessa etapa, o processo de mineração envolve retirar essa argila de cavas e submetê-la a um processo de “lavagem” com cloreto de sódio (sal de cozinha). Esse método é considerado mais sustentável que a mineração tradicional, por dispensar barragem de rejeitos e reaproveitar a água.
Se mantido, o plano da Viridis é colocar a operação em pé em 2028.



















