Dívida dos EUA atinge US$ 40 trilhões. Onde está o trade de desvalorização do Bitcoin?
A dívida federal dos EUA ultrapassou US$ 40 trilhões. O governo segue operando com um déficit próximo de 6% do PIB. Os custos de empréstimos de longo prazo continuam elevados. Mesmo assim, o Bitcoin está cotado próximo de US$ 80 mil, cerca de 37% abaixo do recorde alcançado no ano passado.
Isso levanta uma questão incômoda para uma das mais antigas narrativas macro do Bitcoin: se o aumento da dívida e o enfraquecimento das moedas fiduciárias deveriam valorizar os ativos escassos, por que o Bitcoin passou boa parte de 2026 em queda?
Analistas da BloFin afirmam que esse cenário está mudando conforme a dinâmica das chamadas apostas na desvalorização. Relatório recente aponta que a tese chegou à “segunda fase”. Os investidores agora acompanham atentamente tanto as tentativas do governo de controlar os custos de empréstimos quanto a criação de dinheiro.
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— BloFin Research (@BloFin_Academy) September 2, 2026
If the debasement trade is back, why is Bitcoin falling as bond yields surge?
The answer is time horizon.
A global bond selloff and rising long-term yields can reflect growing concern over government debt and fiscal sustainability. Under the debasement thesis, that…
A aposta mudou antes de se recuperar
A aposta contra a desvalorização parte de uma lógica simples. Grandes déficits fiscais acabam gerando pressão por políticas monetárias mais flexíveis, pois os governos não podem permitir que os custos de empréstimos subam indefinidamente.
Diante disso, investidores buscam ativos escassos, como o ouro e o Bitcoin.
Essa tese enfraqueceu no início de 2026. O Bitcoin recuou para menos de US$ 62 mil, enquanto ouro e prata também sofreram quedas acentuadas a partir dos picos anteriores.
A BloFin atribui boa parte desse movimento à indicação de Kevin Warsh para presidir o Federal Reserve. O mercado passou a enxergar Warsh como menos propenso a adotar expansões agressivas do balanço na tentativa de mitigar a pressão fiscal.
A estratégia depende fortemente das expectativas. Os investidores ainda enxergavam déficits elevados, porém o caminho para uma política monetária mais flexível tornou-se incerto.
September rate hike is a data call.
— BloFin Research (@BloFin_Academy) September 4, 2026
After Kevin Warsh’s Jackson Hole speech last Friday, more Fed officials have spoken this week.
The message across the Committee is increasingly clear:
the September decision will be driven almost entirely by the next jobs and inflation…
Em seguida, o mercado de títulos ganhou destaque
O cenário mudou em agosto. No dia 18 de agosto, o rendimento do Treasury de 30 anos atingiu o maior patamar desde 2007.
No dia seguinte, o Tesouro anunciou que ao menos dobraria o limite máximo das operações de recompra de títulos com liquidez em alguns papéis de 10 a 30 anos, passando de US$ 2 bilhões para no mínimo US$ 4 bilhões por operação.
O Bitcoin subiu cerca de 25% em agosto. O ouro avançou aproximadamente 15%.
O momento desse anúncio foi decisivo. A ampliação das recompras logo após um salto nos rendimentos longos sugeriu que as autoridades podem estar menos dispostas a tolerar custos elevados para tomar recursos no mercado.
Recompras do Tesouro não são o mesmo que QE
O Tesouro não tem como emitir moeda. Precisa financiar as recompras por meio de caixa, receitas de impostos ou novos empréstimos. Isso faz com que o mecanismo seja muito diferente do quantitative easing conduzido pelo Federal Reserve.
No QE, o Fed cria reservas e adquire títulos públicos. As recompras do Tesouro alteram, em sua maior parte, simplesmente a composição das obrigações do governo.
Ainda assim, a BloFin sustenta que o mercado pode se importar mais com a direção da política do que com o efeito imediato de liquidez. Conforme destacam: “As recompras do Tesouro não são QE”.
Se os investidores concluírem que aumentos nos rendimentos longos vão levar repetidamente à intervenção, podem começar a embutir um teto informal para os custos de captação do governo.
É nesse ponto que a repressão financeira entra na equação.
The rising bond yields have been putting pressure on Bitcoin lately.
— BloFin Research (@BloFin_Academy) September 2, 2026
The 50-day SMA is sitting around 68,000, and the 200-day SMA near 69,500. Bitcoin's price is way above both of them right now, which is why the overall trend still looks constructive.
The 50-day is rising… https://t.co/7r9UE0utJA pic.twitter.com/SHH6giC6pI
O Bitcoin ainda enfrenta o desafio do rendimento real
Números recentes evidenciam por que a aposta contra a desvalorização permanece inconclusiva.
A dívida pública dos EUA equivale atualmente a cerca de 101% do PIB, enquanto o déficit de 2026 é estimado próximo de US$ 1,9 trilhão. O agregado M2 também voltou a crescer.
Ao mesmo tempo, os rendimentos reais dos Treasuries de 10 anos seguem ao redor de 2,4%.
Esse é um obstáculo relevante para o Bitcoin. Investidores continuam a obter retornos ajustados pela inflação nos títulos públicos, sem exposição ao risco cripto.
Esse fator também ajuda a entender por que os movimentos do Bitcoin em 2026 ainda lembram os ciclos clássicos das criptos.
O Bitcoin atingiu o pico cerca de 534 dias após o halving de abril de 2024, ritmo semelhante ao das máximas dos ciclos de 2017 e 2021. Em seguida, a cotação caiu mais da metade antes de se recuperar.
O antigo ciclo de quatro anos continua válido.
O próximo teste é se políticas começarão a mudar
A tese da BloFin ganha mais força caso os rendimentos reais entrem em queda enquanto a pressão fiscal permanece elevada.
Isso pode ocorrer se os custos dos empréstimos de longo prazo continuarem a aumentar o estresse nos mercados e as respostas das autoridades se tornarem mais amplas. Uma versão mais forte do cenário envolveria eventualmente a intervenção do Fed.
A história oferece um precedente claro. De 1942 a 1951, o Federal Reserve limitou os rendimentos dos Treasuries de longo prazo a 2,5%, ajudando o governo a financiar dívidas da guerra, enquanto a inflação, posteriormente, levou os retornos reais dos títulos a ficarem profundamente negativos.
O Bitcoin não depende desse cenário exato para se beneficiar. O que precisa é que investidores acreditem que governos passarão a proteger cada vez mais o mercado da dívida em relação aos próprios custos de financiamento.
No momento, o Bitcoin está entre um ciclo tradicional de cripto, responsável por grande parte de sua fraqueza em 2026, e um cenário fiscal em deterioração, que começa a impulsionar novamente ativos escassos.
A aposta na desvalorização ainda não fracassou. O ponto crucial é saber se agosto marcou o momento em que ficou mais difícil ignorar esse movimento.
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