MEMÓRIA. Milton Afonso sempre estendia a mão
Bem-aventurado aquele que, entre nós, partir desta vida deixando no mundo o legado de generosidade e desprendimento de Milton Afonso, o menino pobre que vendia doces com seis anos de idade, ergueu um império na saúde, e depois passou décadas compartilhando essa riqueza – numa obra de caridade que tocou e transformou milhares de vidas.
A morte do “Dr. Milton” – ontem, em seus invejáveis 104 anos – emocionou a Igreja Adventista mundial, da qual ele era um pilar, e reverberou no sistema de saúde suplementar brasileiro, do qual ele foi um dos fundadores.
Todos os grandes empresários do ramo – de Edson Bueno a José Seripieri Júnior, passando por Jorge Moll Filho, Heráclito Brito e Alberto Bulus – foram de alguma forma inspirados pelo Dr. Milton antes de trilhar seus próprios caminhos.
“Ele foi uma espécie de Silvio Santos dos corretores: veio de baixo, cresceu pelo talento e ensinou muita gente,” um amigo da família disse ao Brazil Journal. “Mas o que ele gostava mesmo era de ajudar as pessoas; dava até o que não podia.”
Milton Soldani Afonso nasceu em 12 de dezembro de 1921 em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, e precisou trabalhar desde muito cedo para ajudar em casa.
Aos seis já vendia doces, e aos 13, quando foi enviado pela mãe a São Paulo para frequentar o antigo Colégio Adventista Brasileiro, passou a comercializar materiais religiosos de porta em porta para se sustentar. Nunca mais sossegou.
Formado pela Faculdade de Direito de Niterói, Milton foi um microempreendedor serial: publicou uma revista sobre assuntos fiscais, tocou uma granja, abriu uma rede de sorveterias, teve um banco de uma agência em Copacabana e, em virtude de sua religião, fez parte da diretoria do Hospital Adventista Silvestre, no Rio.
Como Deus age de formas misteriosas, abriu-se ali uma porta que mudaria sua vida.
Foi no Hospital Silvestre que o empresário teve seu primeiro contato com o setor de saúde e, em 1971, fundou a Golden Cross, uma das primeiras operadoras de planos de saúde no País.
Milton teve a ideia do nome depois de uma viagem aos EUA, onde conheceu a Blue Cross. (O nome em inglês fez muitos clientes acharem que a empresa era uma multinacional, o que a ajudou a crescer rapidamente.)
Edson Bueno, o fundador da Amil, decidiu empreender no setor após ler um balanço da Golden Cross no jornal.
Já José Seripieri Filho, hoje “o Júnior da Amil”, só entrou no ramo porque Milton, um velho amigo de seu pai, lhe disse que ele ganharia muito mais vendendo planos de saúde do que com os bicos que fazia à época. Júnior passou a comercializar os produtos da Golden em uma corretora em São Paulo.
Foi também graças a seu mentor que Júnior fez amizade com Alberto “Beto” Bulus, um genro de Milton que buscava seu próprio caminho profissional. Juntos, fundaram a Qualicorp e uma amizade que já dura 40 anos.
Depois de duas décadas de sucesso, a Golden Cross entrou em crise nos anos 90 ao tentar verticalizar sua operação, e Milton decidiu vendê-la à americana Cigna em 1997 – mas desfez a operação dois anos depois.
Sem sucessor pronto, entregou a Golden a gestores profissionais, e a operadora foi minguando até ser liquidada pelo regulador no ano passado.
Apesar de toda a riqueza que construiu, Milton sempre esteve mais focado em distribuí-la.
Por décadas sustentou lares e orfanatos; bancou a construção e reforma de colégios e igrejas; doou artefatos religiosos históricos a instituições e museus; e manteve um programa de bolsas que financiou os estudos de milhares de jovens.
Certa vez, em um evento na casa de Milton, o sambista Xande de Pilares – que ganhou uma dessas bolsas a partir dos 11 anos – se emocionou ao descobrir que estava na presença de seu benfeitor e o homenageou cantando a cappella.
Após sofrer uma lesão no trabalho, a mãe de Xande escrevera a Milton pedindo ajuda com os estudos do filho – e o empresário, que sequer conhecia a família, estendeu a mão.
Milton também financiou diversas iniciativas para difundir a religião adventista no País, como a rede de TV e rádio Novo Tempo de Comunicação.
“Ele compreendeu com extraordinária visão que a educação poderia mudar destinos e a comunicação levaria o evangelho muito além das nossas paredes. Isso não ficou apenas na visão. Ele investiu nela e fez a diferença. Deus colocou os recursos na mão dele e ele decidiu transformá-los em missão,” disse em nota o pastor Erton Köhler, o presidente mundial da Igreja Adventista.
Dono de uma saúde de ferro, Milton teve covid aos 98 anos e chegou a ficar entubado, mas conseguiu se recuperar. Na última semana, no entanto, a idade se impôs, e ele não resistiu a uma septicemia.
Milton foi casado com Arlete, que morreu em 2020. Ele deixa quatro filhos, 14 netos, quatro bisnetos, e um mar de gratidão.
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